Brasileirão tenta fugir do caos na arbitragem com novas medidas da CBF
A CBF reconhece que o setor não recebia investimento suficiente
Flamengo e Palmeiras foram os únicos clubes que participaram de todas as reuniões feitas pela comissão de arbitragem nas segundas-feiras após as rodadas do Brasileiro 2025. A assiduidade e o interesse pelos pareceres a respeito dos lances capitais retratam o grau da polarização que envolve a arbitragem.
Às vésperas do Brasileiro 2026, que começa nesta quarta-feira (28), a aposta da CBF na profissionalização é uma tentativa de resposta e mudança cultural diante de erros considerados graves e insatisfação coletiva. Inclusive por parte dos próprios árbitros.
No campeonato passado, não faltaram lances tratados como graves. E o combo de pressão e polêmica não se restringiu a Palmeiras e Flamengo.
A CBF reconhece que o setor não recebia investimento suficiente. Vem daí o interesse em criar o grupo de trabalho que teve como principal medida o modelo de profissionalização.
São 72 árbitros inseridos no projeto deste ano, sendo 20 de campo, 40 assistentes e 12 do VAR. O modelo profissional entra em vigor em 1º de março. Então, as primeiras rodadas ainda serão com o sistema "amador".
"Vai ser mais um marco para essa gestão. Uma arbitragem antes e depois. Queremos fazer o melhor. Não estamos fazendo isso para agradar clube A ou B. Estamos para fazer o melhor para o futebol brasileiro", afirmou Samir Xaud, presidente da CBF.
Pagar um salário fixo não significa o fim dos problemas e dos erros. Mas a CBF quer replicar e adaptar modelos internacionais que sejam capazes de reduzir críticas. Premier League (Inglaterra), La Liga (Espanha) e Bundesliga (Alemanha) foram as principais referências.
Olhando para o cenário nacional, um levantamento feito pelo grupo de trabalho apontou que uma das principais reclamações dos clubes era sobre a falta de critério e clareza na compreensão sobre as regras do jogo.
Da parte dos árbitros, as queixas abrangeram a instabilidade financeira e um cenário de treino e cuidado com saúde sem amparo direto da CBF.
"O erro faz parte do ser humano. Todos erramos. Mas o que a gente precisava era dar uma resposta para torcedores, clubes e principalmente para os árbitros em relação a essa melhoria", acrescentou Samir Xaud.
INVESTIMENTO PARA MUDAR A CULTURA
A projeção agora é investir R$ 195 milhões até o fim de 2027 na arbitragem como um todo. E nessa conta entram também o VAR (R$ 50 milhões) e o impedimento semiautomático (R$ 25 milhões), este ainda sem data para estrear no Brasileirão 2026.
Como contrapartida à remuneração fixa, a CBF quer uma dedicação praticamente exclusiva dos árbitros - embora não possa exigir isso formalmente no papel.
Treinamentos, acompanhamento nutricional, psicológico e até de sono vão acontecer tendo a tecnologia como aliada. Os árbitros vão receber um smartwatch para monitoramento e serão tratados como atletas.
Além do acompanhamento ao longo da semana, os árbitros terão um encontro presencial por mês no Rio para treinamentos mais intensos e reforço de critérios.
A mudança cultural que a CBF quer vai contar até com a mudança do local do monitor de revisão do VAR - saindo de perto dos bancos de reservas. A entidade quer que os árbitros ajudem com palestras nas categorias de base para trazer aos jogadores uma mudança comportamental.
A REF Cam, câmera instalada no corpo dos árbitros, é vista também como uma solução para melhorar o jeito com o qual a comunicação dentro de campo acontece.
Na gestão Ednaldo Rodrigues, a ideia era que a elite da arbitragem virasse profissional no início de 2027. Agora, o plano ganhará nove meses de antecipação.
Entre os árbitros, o UOL apurou que a medida foi muito bem recebida. Era uma demanda antiga que jamais tinha sido tirada do papel. A CBF só não torna público o valor que pagará a cada um deles.
"Nos últimos 30 anos, sempre foi um sonho, um desejo e até uma utopia falar em profissionalização da arbitragem", disse Rodrigo Martins Cintra, presidente da comissão de arbitragem da CBF.
Eles serão prestadores de serviço (PJ) e assinarão vínculos ano a ano. Quer se sair mal pode ser rebaixado e sair da lista de profissionais, dando lugar a outros em ascensão.
As reuniões de segunda-feira após as rodadas vão continuar. Mas a ideia da CBF é que o pacote de medidas reduza as tensões e os erros ao longo do Brasileiro. A temporada 2026 é vista como um primeiro passo para um aprimoramento necessário na arbitragem.
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