Espírito Santo tem a segunda pior internet do País
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Uma internet de má qualidade influencia diretamente na vida das pessoas: desde suas relações pessoais até as profissionais. A comunicação fica lenta, a velocidade de transmissões de vídeos e imagens diminui, podendo aumentar, inclusive, a carga de estresse. O Brasil ainda luta por uma internet satisfatória para todos. O Espírito Santo, nessa busca, está em penúltimo lugar.
Dados estatísticos de banda larga fixa, divulgados pela empresa Teleco Inteligência em Telecomunicações, referentes ao mês de outubro, mostram que o Estado possui a 2ª pior internet de todo o País, fazendo com que o número de queixas no Procon dobrasse este ano.
Ele fica na frente apenas do Mato Grosso, que está em último. A internet mais rápida entre todos os estados, segundo os dados, é Roraima. Davis Alves, presidente da Associação Nacional dos Profissionais de Privacidade de Dados (ANPPD), destacou alguns pontos que precisam ser melhorados para que o País avance.
“Evoluímos, porém pela grande dimensão do nosso País, ainda carecemos de lugares com boa estrutura de cabos, antenas e outras tecnologias que levam a internet até o computador das pessoas.”
Em relação às tecnologias sem fio, como a 4G e 5G, João Paulo Machado Chamon, professor da UCL e especialista em Segurança da Informação, destacou que a infraestrutura é mais complexa.
“Essa particularidade da mobilidade urbana dificulta muito a tecnologia do 5G ou de qualquer outra cobertura sem fio. Porque as pessoas estão se movendo, é uma coisa mais cara em relação à internet física. Países com uma área geográfica menor conseguem resolver mais facilmente.”
No ano passado, as reclamações feitas por consumidores no Procon Estadual em relação à qualidade de internet eram 34. Este ano, os números já chegam a 72. O número, portanto, mais que dobrou.
Segundo o diretor-presidente do Procon-ES, Rogério Athayde, problemas envolvendo a banda larga fixa é recorrente no órgão. Entretanto, grande parte dos casos, é solucionada no atendimento preliminar, ou seja, de forma mais rápida e sem a necessidade de abertura de processo e marcação de audiência.
Serviço interrompido na chuva
O estudante de Jornalismo Nicolas Nunes Martins, de 23 anos, está entre os consumidores insatisfeitos com a velocidade da internet. Segundo ele, quando chove, a situação fica crítica e a internet muitas vezes nem funciona. “Durante um mês tive de usar o 4G do celular para rotear o computador.”
O morador de Vila Velha disse que pensa em trocar de operadora. “Já pensei em mudar de empresa, mas na região onde moro, nenhuma oferece o serviço.”
RANKING NACIONAL
Estado / Velocidade Média (Mbps)
- Roraima 174,3
- Amapá 137,1
- Piauí 109,6
- Rondônia 107,7
- Ceará 107,5
- Maranhão 105,7
- Amazonas 104,9
- Pará 96,1
- Acre 93,0
- Bahia 92,1
- Rio de Janeiro 90,0
- Pernambuco 86,1
- Minas Gerais 84,5
- Distrito Federal 82,2
- Rio Grande do Norte 80,9
- Goiânia 77,8
- Paraíba 75,2
- São Paulo 73,8
- Tocantins 73,1
- Rio Grande do Sul 71,3
- Alagoas 69,4
- Sergipe 68,8
- Paraná 67,2
- Santa Catarina 65,5
- Mato Grande do Sul 64,7
- Espírito Santo 64,3
- Mato Grosso 62,3
Fonte: Teleco.
Falta fiscalização, diz especialista
Um dos motivos que contribui para a precariedade e lentidão da internet oferecida no Estado é a falta de fiscalização por parte da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), segundo o advogado especializado em Direito do Consumidor, Renato Ferron.
Ele destacou que acredita que trata-se se uma falha e que o aumento de vigilância por parte da agência iria ajudar na melhoria dos produtos oferecidos pelas operadoras no Espírito Santo.
“A agência deveria fiscalizar as operadoras que fornecem, mas ela não atua desta maneira. Isso faz com que, pela legislação, exista uma variação no fornecimento. Existe uma margem mínima que a empresa tem que oferecer, mas não é tudo o que foi contratado. Sem fiscalização, as operadoras podem agir de má-fé”, disse.
Sobre esse limite, o coordenador dos juizados especiais do Estado, juiz Leonardo Alvarenga da Fonseca, afirmou que varia entre 40% e 80% do que é oferecido.
“Existem atos internos da Anatel que permitem que as empresas respeitem uma média mensal que está entre 40% e 80% do serviço oferecido”, explicou o juiz.
E completou: “Se a operadora se encontrar dentro dessa média, a Anatel entende que é satisfatório, pois não é um serviço que pode ser exigido linearidade. Eventos como esses e outros devem ser objetos de informação mais clara, direito básico previsto no Código de Defesa do Consumidor.”
Ele ressaltou que são poucas as reclamações que chegam à Justiça por causa de internet lenta. Isso porque os usuários optam por mudarem de operadora. “As demandas que existem são por outros motivos, como multa indevida por mudança de endereço, oferta que não correspondem à realidade, problemas com questão de fraudes”.
Demandada, a Anatel não respondeu à reportagem.
Empresas estudam desistir do home office
A lentidão de internet no Estado pode fazer com que empresas de diversos setores optem por não adotar o home office depois que terminar a pandemia do novo coronavírus. Empresários alertam que a qualidade do produto oferecido pode afetar o desenvolvimento do empregado em casa.
De acordo com Fernando Otávio Campos, presidente do Conselho Temático de Relações do Trabalho (Consurt) da Federação das Indústrias do Estado (Findes), afirmou que a cobertura em solo capixaba varia de acordo com o município.
“A cobertura em Vitória é boa, por exemplo. Mas em Viana e Guarapari não é tão boa assim. Por conta dessa variação de qualidade, muitas empresas vão repensar o home office com o fim da pandemia. Porque, no momento, ainda não é uma escolha e a doença ainda está exigindo o trabalho remoto.”
Ele ressaltou que uma internet de qualidade e constância é importante nas relações de trabalho, para evitar problemas e garantir um bom desempenho das funções.
ANÁLISE
“Infraestrutura precisa melhorar”
“Vários fatores contribuem para que a nossa internet seja lenta. Um deles é a questão de infraestrutura e nisso precisamos melhorar, como cabos e torres. Seria de grande ajuda, assim como investir em melhorias do provedor e na sua capacidade de transferência de dados.
A nossa capacidade final não atende 100% dos assinantes, isso tudo contribui para que fique lenta. Outro fator é o consumo sazonal. Nosso Estado tem uma população variável e a infraestrutura é dimensionada para uma determinada população.
Quando o consumo aumenta muito, as operadoras não estão preparadas, pois ela faz um direcionamento para 1.000 assinantes, mas 5.000 usam ao mesmo tempo, por exemplo”.
Paulo Roberto Penha, consultor de cibersegurança
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