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ENTREVISTA | Fabrício Carpinejar: “Não tem mais sentido reclamar”

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ENTREVISTA | Fabrício Carpinejar: “Não tem mais sentido reclamar”


Carpinejar: “A gente não pode cair nessa cilada de achar que estamos sendo vítimas da lei de Murphy. Acabou a lei de Murphy.  A gente precisa reconhecer as pequenas alegrias para não deixar a tristeza reinar todo dia” (Foto: Divulgação / Vicente Carpinejar)
Carpinejar: “A gente não pode cair nessa cilada de achar que estamos sendo vítimas da lei de Murphy. Acabou a lei de Murphy. A gente precisa reconhecer as pequenas alegrias para não deixar a tristeza reinar todo dia” (Foto: Divulgação / Vicente Carpinejar)

“Não tem mais sentido reclamar. Todo mundo está mal, uns mais do que os outros. E o que você vai fazer com esse curso da infelicidade? Aí vem o maior ensinamento: não sofrer à toa. Porque sofrer à toa é desmerecer quem realmente está sofrendo”.

São reflexões como essa que estão no recém-lançado “Colo, Por Favor!”, uma das novas pérolas de sensibidade e humor de Fabrício Carpinejar, escrito em um mês de quarentena.

“A gente precisa passar das lágrimas para as gargalhadas. Rir do desespero, tentar encontrar um jeito criativo para se defender dele. Fugir da imobilidade”, diz o autor.


ENTREVISTA | Fábio Carpinejar


Capa do livro "Colo, por favor" (Foto: Reprodução)
Capa do livro "Colo, por favor" (Foto: Reprodução)
AT2 - Seu livro “Colo, Por Favor!” tem uma crítica social fortíssima. Ao mesmo tempo que consola, reflete sobre a realidade. Queria isso?
Fabrício Carpinejar Sim. Acredito que é o momento de mudar nossa concepção de vida. Não temos mais como ser egoístas profissionalmente, colocar a carreira acima da felicidade pessoal. É uma transformação radical, pede engajamento emocional.

Quando a gente começa a se defender da morte, a gente começa a defender a vida. A gente está usando uma máscara, mas não tem mais como sobrepor máscaras sociais.

De qual tipo de colo as pessoas precisam agora?
(Risos) Vamos precisar democratizar o colo, um para cada um. Todos têm que dar colo. O colo é a proteção silenciosa. É uma segurança que vem dentro de si, com a perspectiva de um futuro.
É um confinamento temporal. Estamos parados no tempo. Não temos prazo para voltar à realidade, e não sabemos que realidade é essa. Temos que superar novos limites.

Você afirma que nunca é tarde para ser sensível...
A sensibilidade, quando exercitada, se transforma em gentileza. Ou seja, ser gentil quando não há necessidade, quando não há recompensa, é ser gentil porque é o certo.

As pessoas, diante de uma pandemia, querem se salvar e podem perder a conexão precisa com quem está na mesma situação. O medo costuma trazer o egoísmo da sobrevivência.

A gente precisa encontrar essa generosidade na sobrevivência coletiva. É fácil nas redes sociais: guarde comentário crítico, veneno. Faça comentários bons.

No relacionamento, você repara os defeitos no outro e prefere dar mais espaço para isso. Ninguém muda sendo criticado a todo momento. A gente só muda quando tem o corrimão do incentivo.

Temos que organizar o pensamento, porque a raiva é desorganizada. Quando organiza o pensamento, a raiva passa. A angústia é claustrofóbica. Não conseguimos enxergar ninguém ao nosso lado quando angustiados. E talvez este seja o grande trunfo de um tempo tão difícil: não olhar mais para a frente, olhar mais para o lado.

A vida não nos pertence, o que nos pertence é a sensibilidade de aproveitá-la. A gente sempre quer olhar para frente e esquece de olhar quem está ao lado. Eu nunca tinha dito 'eu te amo' para minha tia, e ela é como uma mãe para mim. A gente tem esse orgulho de dispensar palavras. Se a gente não precisa dizer 'eu te amo', talvez o outro precise ouvir.

“A esperança é não se contentar com a realidade”, diz. Saída é fugir da realidade?
Não. É criar a realidade a partir daquilo que é essencial na vida. Não temos mais tempo para futilidades. Temos que potencializar as nossas relações próximas, cuidar melhor do que temos e somos. Essa é a esperança. É não precisar de muito para ser feliz.

“Temos que defender os ouvidos, não somente escutar os urubus e os corvos. Há outros pássaros cantando lá fora e dentro de nossa memória”. Como escutar pássaros que cantam?
Temos que alternar os ouvidos com notícias ruins e boas, ter um tempo para si, criar ânimo e não ficar refém da tragédia. Aí é que a gente precisa alternar. Não se alienar de forma nenhuma.

Interagir mais com amigos e familiares é uma maneira que temos hoje de rever não quem somos, mas como os outros nos enxergam.

“Fracasso é provisório”, diz autor (Foto: Divulgação/ Vicente Carpinejar)
“Fracasso é provisório”, diz autor (Foto: Divulgação/ Vicente Carpinejar)
No livro, você diz que reclamar atrai pessoas chatas. Mas como não reclamar agora?
Todos estão sofrendo, o reclamar não tem mais sentido, perdeu a sua exclusividade. E aí vem o maior ensinamento: não sofrer à toa. Porque sofrer à toa é desmerecer quem realmente está sofrendo. Ou seja, se está reclamando da vida, pense que há famílias perdendo parentes, que não têm como se sustentar, que dependem da rua...

A gente não pode cair nessa cilada de achar que estamos sendo vítimas da lei de Murphy. Acabou a lei de Murphy. Foi suspensa. A gente precisa reconhecer as pequenas alegrias para não deixar a tristeza reinar todo dia.

Temos que nos manter ocupados, não pensar bobagens, não fazer coisas no automático. Se vou ouvir música, vou ouvir mesmo. Ao faxinar, não vai sobrar cantinho com pó. Não dá mais para colocar poeira embaixo do tapete. Fazer um pouco por vez e com capricho.

É difícil estar plenamente presente, mas isso faz com que você não seja assaltado pelo desespero. Você ocupa a mente, senão o coração transborda.

“A queda pode ter acontecido por um amor fracassado, um negócio de risco, uma demissão injusta, a morte de um ente querido”. Como se reerguer?
Temos que entender que o fracasso é provisório, não é uma mácula. O fracasso existe para quê? Para a gente tentar de outro jeito. Temos que eliminar, de uma vez, aquela postura arrogante do “foda-se”. No primeiro empecilho, a gente ligava o “foda-se”. Agora, tem que ter a humildade dos ciclos. O que é ruim agora pode ser bom em outro momento.

Diante do término do relacionamento, de demissão, não veja como algo taxativo, não seja conclusivo. Reflita para digerir o que aconteceu. O “foda-se” não tem empatia. Para que lado você vai caminhar? A gente tem que entender o meio-termo. Não se deixe afligir com a expectativa não sendo atingida.

Como as pessoas sairão da quarentena?
Pensando que pode haver outros períodos de isolamento. Vamos nos preparar melhor para uma segunda onda. Vamos tentar poupar mais, haverá um freio consumista.

Percebo que haverá um “boom” de relacionamentos e casamentos, porque você já vai pensar: 'com quem eu gostaria de passar a próxima quarentena'. Todos aqueles desejos repensados vão aflorar. Quem quer ter filho vai ter.

Minha esperança é que os idosos sejam mais cuidados e não sejam vítimas de um isolamento que já existia antes. Que procurem reatar o espaço entre avós e netos. Filho que convive mais com os avós respeita mais os pais, humaniza os pais.


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