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“Quero que minha história sirva de exemplo para os pais”, diz Ed Lopez

| 12/10/2020 18:17 h | Atualizado em 12/10/2020, 18:47

"É  para os  pais terem  mais cuidados.  É dentro de casa 
que essas coisas acontecem", Ed Lopez
"É para os pais terem mais cuidados. É dentro de casa que essas coisas acontecem", Ed Lopez |  Foto: Divulgação
Acostumado a viver tipos divertidos, o ator Ed Lopez viveu um grande drama em sua vida: um abuso sexual aos 10 anos de idade. Hoje, 34 anos depois, o trauma virou livro e websérie. Ele diz que se sente livre.

“Escrever e produzir 'Meninos que Não Vão para o Céu' foi libertador. Depois que o abuso aconteceu, o agressor colocou toda a culpa em mim, me acusou de estar possuído por demônio”, diz ele.

A 1ª temporada da série foi indicada ao Rio Webfest e a 2ª ao Awards Rainbow Cinema Festival, de Nova Iorque (EUA). Mas, para ele, o maior prêmio é alertar e ajudar quem precisa. “Espero que minha história sirva de exemplo para os pais prestarem mais atenção nos filhos, para terem mais cuidados, principalmente com quem está na nossa casa, pois é dentro de casa que essas coisas acontecem”, afirma.

Ainda na conversa, Ed falou sobre a volta às gravações de “Salve-se Quem Puder”, a descoberta do poder da arte e aproveitou para revelar com quem ainda sonha dividir uma cena: “Dona Fernanda Montenegro”, diz, rápido.

E completa: “Sou apaixonado por ela desde a novela 'Cambalacho'. Já tietei várias vezes. Uma vez, dirigi um longa-metragem independente e tive a ousadia de convidá-la para interpretar uma personagem louca que xinga na janela. A Dona Fernanda foi muito educada comigo, mas não podia fazer porque estava começando a gravar a novela 'Babilônia'. Mas, um dia, ainda vou realizar meu sonho de contracenar com a Dona Fernanda”, ressalta.


Entrevista - Ed Lopez - ator, escritor, diretor e produtor:  “Passei muita necessidade”


AT2 - Com o retorno das gravações de “Salve-se Quem Puder”, você está ansioso para a retomada? Receoso?

Ed Lopez - Eu já sou ansioso normalmente, mas ultimamente a minha cabeça está mais calma. Nunca pensei que fosse ficar tanto tempo em casa sem trabalhar. Mas não vejo a hora de voltar a gravar. Realmente, estou receoso com as medidas de segurança, apesar dos cuidados. Mas esse medo é normal e vamos trabalhar com fé.

Em 2021, estreará o longa “Um Casal Inseparável”, de Sérgio Godenberg, com Nathalia Dill. Como surgiu este convite?

A produtora de elenco me ligou pedindo para fazer um teste. Gravei 80 vídeos caseiros e não gostei de nenhum deles, pois sou bem crítico. O único que achei que estava bom, o diretor não gostou e pediu para fazer outro. No dia seguinte, fui aprovado.

O Adenilson, meu personagem, se veste muito bem, no estilo moda praia. É o típico cara que pega uma onda e trabalha como diarista. Eu me inspirei em um amigo mexicano que conheci nos Estados Unidos, ele era todo descolado, malhado e trabalhava como diarista.

Quando você percebeu o seu dom pela arte? Quais foram as maiores dificuldades?

Na adolescência, eu assistia a muitas novelas. Ficava encantado com aquela magia. Me imaginava atuando. Na minha casa, não tinha televisão, pois os meus avós eram evangélicos e, naquela época, era proibido. Eu fugia de casa e ia assistir na casa da tia Carmélia, que faleceu de Covid este ano. Ela fazia bolos deliciosos para vender. Eu, além de assistir às novelas, comia seus bolos.

O ator em “Salve-se Quem Puder”
O ator em “Salve-se Quem Puder” |  Foto: Divulgação
Com 22 anos, eu larguei um emprego promissor como supervisor de informática no Ministério dos Transportes para me aventurar no Rio de Janeiro. Foi um sufoco. O dinheiro da minha rescisão acabou em menos de seis meses. Passei muita necessidade. Perdi muito peso. Tinha dias em que eu só comia tomates. Dormi no chão da casa de vários conhecidos. Fiquei duas noites na rua sem ter onde dormir.

Aqui no Rio de Janeiro, eu fiz de tudo para comer e pagar meu curso de teatro e a minha faculdade de cinema. Trabalhei como balconista, animador de festas, palhaço, me vesti de Minnie Mouse, fui auxiliar de padaria, entreguei quentinha macrobiótica para o Gilberto Gil, Cássia Eller e Ângela Ro Ro.

Você foi vítima de abuso sexual aos 10 anos por um parente e contou isso no livro “Meninos que Não Vão para o Céu”. Escrever sobre isso o ajudou?

Eu me sentia muito sufocado e carregava uma culpa muito grande, pois me sentia ingênuo em ter deixado aquilo acontecer comigo. Tinha medo de contar essa história. Contei para um amigo, que já faleceu, e ele me disse que eu tinha sido vítima de abuso sexual.

Uma criança de 10 anos não tem ideia do que é isso. Na época, eu contei para a minha avó, que acabou me dando uma surra e fui forçado a esquecer. As cenas só voltaram à minha cabeça aos 30 anos, quando comecei a ter pesadelos e sentir uma forte depressão. Após me abrir com esse amigo é que fui percebendo a gravidade da situação. Quando fui estudar nos Estados Unidos, conheci um japonês que era um ex-morador de rua. Após o relato de vida dele, de como tinha se tornado um empresário, tive coragem de escrever o livro.

Por que esse título?

Isso é coisa da minha avó materna. Ela era evangélica e, às vezes, falava umas coisas engraçadas. Apanhei muito dela e sempre que eu fazia algo errado ou não, pois, no Nordeste, as crianças apanham sem motivos mesmo. Ela dizia sempre a mesma coisa: “Esse menino num vai pro céu, Pedite!”. Pedite era o apelido do meu avô Expedito Lopes. Aos 16 anos, a minha avó descobriu sobre a minha homossexualidade e foi aí que ela me bateu mesmo e gritou com força: “Esse menino num vai pro céu, Pedite!”
 

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