Lary: “Transformei a dor em arte”
Ser a “outra” nunca foi algo que a cantora Lary, 26, quis. Mas aconteceu. E não foi apenas uma vez. “Já me entreguei por completo, confiei e, no fim, fiquei sem chão”, lembra. E é com base nessas experiências negativas que a bela lança sua nova música de trabalho, “Eu Vou Contar Pra Ela”.
“A canção fala sobre a situação de descobrir que a pessoa com quem você está se relacionando já tem outro alguém, e não aceitar isso. Foi uma experiência muito dolorosa e transformei a dor em arte. Gostaria de passar, com ela, o recado de que não podemos aceitar menos do que merecemos pelo medo de perder”, salienta ao AT2.
E continua: “Não podemos estar em relações onde só nós estamos por inteiro. É importante a gente se amar e se completar para que, então, alguém possa entrar em nossas vidas para somar e despertar o melhor de nós”.
Solteira, a artista não está fechada para o amor, mas acredita que relacionamentos acontecem naturalmente e, após tantas desilusões, também se tornou uma mulher mais criteriosa.
“Hoje presto muita atenção nas falas e atitudes das pessoas com quem me relaciono. Isso revela muito. Um cara que me elogia falando mal de outra mulher não me interessa. Um homem que me respeita, mas desrespeita outras, não me interessa. Um cara que me trata como rainha, mas trata mal a mãe, a irmã, ou qualquer outra mulher, também não me interessa”, afirma.
Lary | Cantora e compositora “Por vezes, a paixão me cegou”
AT2: Chegou a ser a nova aposta do funk, mas logo transitou por outros sons. Queria ser uma artista sem rótulos?
Lary: Sempre me identifiquei como cantora pop, com influências de outros ritmos. Quando comecei a cantar profissionalmente, o pop estava diretamente ligado ao funk. Com o tempo, fui me identificando com outras sonoridades e novas formas de abordar assuntos. A composição me ajudou muito nessa transição, pois, assim, fui me redescobrindo e reinventando no meu trabalho.
Fala sobre o novo single, “Eu Vou Contar Pra Ela”?
Com uma frase forte e de efeito, a música abre o refrão com “eu vou contar pra ela”, seguido de “que era mentira quando 'cê' dizia que não tinha mais ninguém” e de “que nesse jogo eu fui apenas mais uma refém”. Termina com “me deixa em paz, eu não tô mais a seu dispor”. Isso é muito representativo. Acho que é quase um grito apertado na garganta de quem diz: “Peraí, dessa forma, não. Nem comigo, nem com ela!”.
Já foi refém de um falso amor?
Sim. Quem nunca, né? (Risos) Por vezes, a paixão me cegou e não me deixou perceber que estava num relacionamento unilateral, o que sabemos que não funciona. Quando só um se entrega, respeita e abre mão de certas coisas para fazer dar certo, certamente é furada.
Qual foi o sentimento de descobrir ser a “outra”?
Me senti traída também. Minha atitude sempre foi sair da relação. A partir do momento que você se relaciona com alguém comprometido sabendo da situação, você está sendo conivente. E ser conivente, para mim, é errar tanto quanto. É saber que você está desrespeitando outra pessoa, que escolheu se entregar e acreditar numa relação.
Já fui traída e tudo isso sempre mexeu com meu psicológico e minha autoestima. A gente começa a desacreditar no amor, a se fechar e ficar na defensiva. A gente chega ao ponto de achar que não é boa o suficiente para alguém. É difícil demais superar uma traição quando existe sentimento.
Quando descobriu que era a “outra”, pensou em contar tudo para a “titular”?
Sim. Faz parte do propósito da sororidade ter empatia e se colocar no lugar da outra. Não é sobre não querer que ele seja feliz com ela, mas sobre não querer que ele faça o mesmo com ela, que é mulher como eu, que está sendo tão enganada quanto eu.
O resgate do amor-próprio se inicia no momento em que você decide dar um “basta”?
Essas experiências ruins, muitas vezes, me fizeram questionar minha capacidade, meu valor. A sociedade, por muito tempo, nos educou dizendo que mulher precisa segurar relacionamentos.
Socialmente, a mulher separada era tida como culpada por não ter conseguido segurar um matrimônio. As “bem-casadas” a consideravam uma inimiga mortal. E os homens viam como uma espécie de disponibilidade erótica.
Dar um “basta” nisso tudo é um ato de coragem, pois perdemos a conexão com o amor-próprio e passamos a aceitar migalhas, só para ter a pessoa por perto, quando nos distanciamos de nós mesmas. O resgate dessa conexão me fez pensar mais em mim e aprender a dizer “não” ao que não me faz bem.
Dizem que não existe homem fiel. Concorda?
Não. Vejo uma sociedade machista que normaliza os erros do homem, que aceita o homem que trai, que justifica a traição como algo instintivo. E vejo muitos homens usufruindo desse argumento para embasar seus erros. Mas, ainda assim, não concordo. Acho que fidelidade é questão de caráter.
A quarentena tem sido um período de autodescobertas?
Sim. Descobri que posso fazer muito mais do que fazia antes. Aprendi a gerar diversos tipos de conteúdo sozinha, e isso foi muito enriquecedor para o meu trabalho. Também montei um estúdio em casa e gravei as músicas do meu próximo EP, inclusive “Eu Vou Contar Pra Ela”.
Veja o clipe de "Eu vou contar pra ela":
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