"Gota D'Água - No Tempo" traz retrato contundente das desigualdades sociais brasileiras
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Desde que estreou em 1975, o musical Gota D'Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, tornou-se um poderoso instrumento para artistas revelarem sua irritação social. "É um espetáculo que permite mostrar a ruptura da união que é, por extensão, a desconstrução do poder", afirma o encenador Gabriel Villela, que dirigiu uma importante versão do texto em 2001, em São Paulo. "Os versos do Chico e de Pontes representam uma metáfora da indignação em nosso País, onde hoje os bandidos têm cara definida."
Escrita durante a ditadura militar, a peça recebeu diversas montagens desde sua estreia no Rio, com direção de Gianni Ratto e estrelada por Bibi Ferreira. Uma delas, em 2006, recebeu o título de Gota D'Água Breviário e uniu Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi.
Após 20 anos, a dupla volta a se encontrar como os protagonistas do texto de Chico e Pontes, agora com a versão nomeada Gota D'Água - No Tempo, em cartaz no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, e com o mesmo frescor.
A trama, inspirada em Medéia, tragédia grega escrita por Eurípides no século 5 a.C., se passa em uma comunidade periférica do Rio de Janeiro, a fictícia Vila do Meio-Dia. Lá, Joana, a Medéia brasileira, é abandonada por Jasão, amante mais novo e com quem tivera dois filhos. Autor do samba Gota D'Água, que alcançou grande sucesso, Jasão pretende se casar com Alma, filha de Creonte, proprietário do conjunto residencial e principal explorador daquela população oprimida.
Sem conseguir recuperar seu marido, Joana, encurralada pela injustiça social, acaba expulsa por Creonte da Vila do Meio-Dia, junto dos dois filhos. Como também não consegue executar um plano de vingança (envenenar Alma no dia do casamento), ela acaba envenenando os filhos e a si mesma.
"Gota D'Água é um texto que a cada movimento do mundo se move também", comenta Georgette, que assume a direção geral do espetáculo, com Tomiossi na codireção. "Há 20 anos talvez Joana trouxesse todo o público consigo. Hoje, algumas atitudes dela podem não mobilizar de maneira tão empática certos corações e novas discussões devem surgir. É o que esperamos."
Mais que um drama amoroso, a obra constrói um retrato contundente das desigualdades sociais brasileiras e das relações de poder, com os versos de Chico e Pontes representando uma metáfora da indignação e que resultam em um espetáculo de ríspida poesia e amargurada revolta.
Creonte, por exemplo, personificaria o político corrupto, cínico, que se utiliza do cargo público em benefício próprio. Já Joana seria a representante do submundo, que busca a justiça por meio da mobilização dos moradores da Vila do Meio-Dia e, por ser uma macumbeira, sacrifica os filhos em ritual, promovendo um estrago na vida de Jasão.
"Joana não perdeu Jasão apenas para uma mulher, mas para o sistema", afirma Georgette, que aposta na permanência dos conflitos. "Jasão, por sua vez, é um homem que tenta sair da pobreza, mas para isso precisa pisotear os seus. Os nomes mudam, as tecnologias mudam, mas a estrutura de exploração persiste."
Para Sábato Magaldi (1927-2016), que foi crítico do Jornal da Tarde, 'o suicídio de Medeia parece o desfecho lógico de quem foi ao fim de tudo, com inteireza. A adaptação não é só brasileira: é moderna e universal", escreveu ele, citado no livro Amor ao Teatro (Edições Sesc).
Como uma vigorosa interpretação de Joana, Geogertte manteve algumas das músicas originais, como a canção-título e Basta um Dia, além de incluir Flor da Idade e Bem-querer. Microfones, porém, foram dispensados. "As palavras saindo da garganta e atingindo os poros, sem filtros, nos desafiam hoje muito mais e já configura um valor de resistência aos apelos de sempre", comenta. "É uma espécie de afirmação no espírito de Plínio Marcos: o teatro pode acontecer mesmo nas condições mais simples."
Para que a experiência seja a mais imersiva possível, parte do público pode assistir no palco, compartilhando com o elenco o espaço da Vila do Meio-Dia. "Eu gostaria que o espectador sentisse não apenas a dor da Joana ou do Jasão, mas a dor de viver dentro desse sistema", afirma a diretora.
Serviço
Gota D'Água - No Tempo
Sesc Consolação - Teatro Anchieta - Rua Dr. Vila Nova, 245
Sextas e Sábados, 20h. Domingos e feriado (1/5), 18h. Dias 9, 16 e 23/4, quintas, 15h.
Ingressos de R$ 21 a R$ 70.
Até 3 de maio
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