Anvisa autoriza remédio experimental para Lito Sousa
O influenciador, que está com uma doença neurodegenerativa rara, vai ser a primeira pessoa no mundo a testar o medicamento
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, em caráter excepcional, a importação e o uso de um medicamento experimental para o tratamento do influenciador Lito Sousa, diagnosticado com doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), condição neurodegenerativa rara e sem cura.
Chamada ALN-6457 (siRNA conjugado a C16 dirigido à proteína priônica), a substância foi desenvolvida pela farmacêutica Regeneron Pharmaceuticals. O composto ainda está em estágio prévio ao desenvolvimento clínico, sem estudos formalmente iniciados em seres humanos para tratamento da DCJ, e Lito será a primeira pessoa a recebê-lo.
Autorização excepcional e programa de uso compassivo
O pedido foi feito pelo Hospital Israelita Albert Einstein, responsável pelo tratamento do influenciador. A unidade solicitou a autorização excepcional para uso individual, por meio de importação por pessoa física, após Lito ser aceito em um programa de uso compassivo mantido pela farmacêutica no exterior.
Segundo a Anvisa, esse tipo de autorização costuma ser utilizado em casos de produtos sem registro ou estudo no Brasil. Em nota, a agência explicou os critérios que embasaram a decisão.
"A avaliação considerou que se trata de uma enfermidade neurodegenerativa com evolução rápida, letal e irreversível. Além disso, a autorização em caráter excepcional foi adotada diante da ausência de patrocinador ou representante responsável no Brasil"
Com a liberação, a importação do medicamento ficará a cargo da equipe médica que acompanha o paciente. Não foram divulgados detalhes sobre como o tratamento será conduzido.
Prazo para chegada do remédio e trajetória do diagnóstico
Em publicação nas redes sociais, a esposa de Lito, a empresária Mila Seidl, disse que a expectativa é que o medicamento chegue ao Brasil entre sete e nove dias.
O diagnóstico de Lito foi revelado em 21 de agosto por Mila, após semanas de investigação neurológica em São Paulo. A DCJ é causada pelo acúmulo anormal de proteínas príon no cérebro, destruindo neurônios. Não existe, até hoje, tratamento capaz de reverter ou interromper sua evolução, e o protocolo médico usual recomenda o encaminhamento do paciente a cuidados paliativos após a confirmação do diagnóstico.
Após a alta hospitalar, Lito Sousa passou a receber cuidados em casa. Em vídeo publicado em 23 de agosto, Lito pediu, em inglês, para ser incluído em algum estudo experimental e citou instituições como Ionis Pharmaceuticals, Broad Institute, Harvard e Mayo Clinic. O Ministério da Saúde e o Itamaraty também afirmaram buscar alternativas para o influenciador.
"Agora eu tenho 0,1% de chance", diz influenciador
Em novo vídeo, divulgado ontem, Lito falou sobre as chances de escapar da doença de Creutzfeldt-Jakob com o novo medicamento.
"Olha só a diferença entre aquele vídeo que fiz quando tive o diagnóstico para como estou hoje. Naquele dia, eu tinha 0% de chance de escapar dessa doença. E hoje eu já tenho 0,1% de chance"
Sem dar detalhes, ele afirmou que a porcentagem é "muito maior", mas disse preferir aguardar a chegada do medicamento ao Brasil para explicar a mudança.
"Eu quero primeiro que o remédio chegue na minha mão, e aí eu vou aproveitar e vou explicar tudo para vocês. Serão boas notícias"
No vídeo, ele também disse estar longe de seu "ideal", mas relatou manter preservadas as funções cognitivas.
"Continuo com inflamação no cérebro, mas felizmente a minha cognição não foi afetada. E tudo que eu lembrava do passado, eu continuo lembrando"
O que é a doença de Creutzfeldt-Jakob
A DCJ é uma doença priônica, causada pela alteração anormal de uma proteína chamada príon, que se multiplica no cérebro e destrói neurônios, deixando no tecido cerebral um padrão de buracos que dá origem ao termo “espongiforme”.
A enfermidade é rara, progressiva e, até hoje, sem tratamento capaz de reverter ou interromper a evolução.
Segundo o neurologista José Bauab, o príon se instala dentro do neurônio e o intoxica progressivamente. O efeito não fica restrito à célula isolada: a toxicidade também compromete a glia, tecido responsável por dar suporte e sustentação aos neurônios.
No Brasil, a doença atinge principalmente pessoas mais velhas: a faixa de 55 a 74 anos concentrou 60,2% das notificações, com idade média de 66 anos entre os casos suspeitos, perfil diferente do caso de Lito, já que a forma esporádica costuma acometer pessoas entre 60 e 80 anos.
A literatura usada pelo Ministério da Saúde indica que cerca de 90% dos pacientes evoluem para morte entre seis meses e um ano após o início dos sintomas, com sobrevida média de cinco meses.
Entre as notificações analisadas, houve 290 registros de morte pelo agravo, embora o boletim aponte falhas no preenchimento e acompanhamento dos dados.
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