'É bom desafiar nossa trajetória e testar', diz Zeca Baleiro que está em peça de Caco Galhardo
Se a palavra reinvenção não tivesse se tornado um clichê, seria a definição perfeita para os bastidores da comédia musical Felicidade, escrita pelo cartunista Caco Galhardo e dirigida por Dani Angelotti, que estreia nesta quarta-feira, 7, no Teatro Sérgio Cardoso. Boa parte da equipe renova as expectativas profissionais a partir do trabalho, repleto de influências das histórias em quadrinhos e do cancioneiro popular. A peça tem no elenco as atrizes Martha Nowill e Luisa Micheletti, os atores Eduardo Estrela, Nilton Bicudo e Willians Mezzacapa, a percussionista Layla Silva e o cantor e compositor Zeca Baleiro.
Sim, ele mesmo. Além de criar dez canções para a trilha original e assinar a direção musical, Baleiro, de 59 anos, dá corpo e voz a um personagem misterioso que faz intervenções ao longo da trama para conduzir as ações da protagonista, Flávia, interpretada por Martha. "Só que eu não atuo, ok?", alerta o músico. "Respeito demais o ofício dos atores e atrizes para isso e nem saberia interpretar."
O convite veio de Dani Angelotti, de 48 anos, que, com a sua lábia de bem-sucedida produtora teatral, convenceu o cantor da importância da sua presença no palco. "Eu falei que Zeca só deveria ser ele mesmo e, assim, viria a representação desse anjo, desse erê, que define a trajetória da protagonista", argumentou a diretora, em sua segunda investida como encenadora, depois O Que Tem na Cozinha?, experiência teatral-gastronômica vista entre 2024 e 2025 no restaurante Modi, em Perdizes. "Como produtora, sempre acompanhei o processo artístico e enxerguei que era a hora de começar a dirigir", justifica.
O novo espetáculo, como o título avisa, é sobre este estado de espírito perseguido por quase todo mundo e que, às vezes, passa despercebido em meio à turbulenta rotina. Flávia (personagem de Martha) é uma jornalista meio mal-humorada que leva na boa o casamento com Matias (interpretado por Estrela) e, às vezes, entra em atrito com a mãe (representada por Bicudo). Cheia de trabalho, ela anda impaciente com o seu editor (papel de Mezzacapa) e conta com o ombro daquela que imagina ser sua melhor amiga (vivida por Luísa).
"Está tudo mais ou menos na vida dela e não tem nada de tão errado assim", comenta Martha. "Só que Flávia um dia acorda extremamente feliz, começa a se questionar porque se sente tão bem em um mundo complicado e se assusta com a felicidade que não passa."
O responsável por tamanha alegria é o personagem de Baleiro, que, no meio da noite, enfeitiçou Flávia para que ela enxergasse a realidade com outros olhos e deixasse de lado as lamentações. "Existe uma pressão externa para que a gente se mostre feliz o tempo todo, principalmente nas redes sociais, e dificulta o entendimento de que tudo que é bom ou ruim passa em algum momento", observa Baleiro.
O namoro de Baleiro com a linguagem cênica é tão antigo quanto esporádico. Nos anos de 1980, morando em São Luís, o jovem maranhense musicou as peças infantis Flicts e O Reizinho Mandão e, só na década de 2010, voltou ao teatro, incentivado pela diretora Debora Dubois, que montou uma dramaturgia que ele guardava na gaveta há 20 anos, Quem Tem Medo de Curupira?. A seguir, Baleiro compôs trilhas para os espetáculos Lampião e Lancelote, Roque Santeiro, O Musical, O Bem-Amado e a recente O Ninho, Um Recado da Raiz, lançada em 2024.
"É bom desafiar a nossa trajetória e testar oportunidades que não são estabelecidas", afirma o cantor. "Acho o teatro bem menos vaidoso e mais colaborativo que a música porque em uma cena você é o protagonista absoluto e, na seguinte, ajuda a empurrar uma mesa do cenário junto com os contrarregras."
Ao contrário da sua personagem, Martha Nowill, de 45 anos, tem aproveitado a satisfação provocada pela nova montagem. "Eu escolho ser feliz todos os dias e me vejo bem com meus dois filhos, meu marido e minha carreira", garante. A atriz emendou dois monólogos, Pagu - Até Onde Chega a Sonda (2022) e Renda-se (2025) e, agora, ganha a chance de dividir o palco com um elenco numeroso e entrosado.
"Em um solo, eu lido só comigo mesma e, em uma peça deste tamanho, preciso trocar com um grupo, o que pode ser mais prazeroso", comenta. "Além disto, estou tão acostumada ao drama, às histórias pesadas, que é desafiador representar essa felicidade."
Foi a própria Martha quem provocou o cartunista Caco Galhardo a se tornar um dramaturgo. Ela, que sempre foi fã de suas tirinhas, conheceu o autor na efervescente Praça Roosevelt da década de 2000 e, depois de tanto argumentar, conseguiu convencê-lo a escrever duas peças para ela. A primeira, Meninas da Loja, em que contracenou com as atrizes Cynthia Falabella, Chris Couto e Mari Nogueira, ganhou a cena em 2010.
Em 2017, teve vez a comédia existencialista Flutuante, com os atores Paulo Tiefenthaler e Rafael Losso, que, segundo a atriz, gerou certa frustração porque, apesar dos elogios, cumpriu uma trajetória rápida demais para as suas qualidades. "Prometi ao Caco que nossa próxima peça teria uma produção estruturada para a gente viabilizar uma carreira longa", conta. "Um dia, ele me ligou falando que tinha escrito esse texto que eu li, mostrei para a Dani, que também se encantou, e, agora, estamos aqui atrás de viver essa felicidade junto ao público."
Serviço
Felicidade. Teatro Sérgio Cardoso. Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista. Quarta a sexta, 20h; sábado, 17h e 20h; domingo, 17h. R$ 50,00 a R$ 200,00. Até 1º de fevereiro. A partir de quarta-feira (7).
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