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"Com os filmes antigos tínhamos grandes histórias", diz crítico de cinema

17/04/2021 09:34:55 min. de leitura

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Crítico de cinema e escritor carioca Paulo Telles Foto: Divulgação
O entrevistado é o crítico de cinema e escritor carioca Paulo Telles. Produtor e apresentador do programa CINE VINTAGE, sobre trilhas sonoras de cinema, levado ao ar todos os domingos, às 22 horas, pela Web Rádio Vintage.

Paulo também é redator do Blog "Filmes Antigos Club - A Nostalgia do Cinema", e autor dos livros "Paladino do Oeste" (Ed. Estronho, 2018), e “Tarzan Vai ao Cinema” (Ed. Estrada de Papel, 2021), ambos com coautoria de Saulo Adami.

Nesse bate papo, Paulo conversa com Adilson Carvalho, também crítico de cinema, Telles fala sobre a sua paixão pela sétima arte e faz uma análise sobre as produções atuais e do passado.

Adilson: Como começou esse amor pelo cinema? Em que momento o cinéfilo Paulo Telles decidiu ser o crítico Paulo Telles?
Paulo Telles: Na minha adolescência já curtia cinema assistindo os clássicos pela telinha. Isto me faz lembrar um comentário feito em 1984 pelo saudoso jornalista Artur da Távola em uma de suas colunas, onde ele enaltecia a exibição de filmes clássicos pela televisão. Segundo ele, uma das oportunidades trazidas pela televisão era de funcionar como cinemateca, permitindo ver velhos filmes com novos olhos. E eu era um destes “novos olhos” contando com meus 12, 13, 14 anos de idade.

O que me fez motivar a apreciar cinema, inicialmente, foi os grandes épicos, como Sansão e Dalila (Cecil B. DeMille, 1949), Ben-Hur (William Wyler, 1959) e Spartacus (Stanley Kubrick, 1960). Ficava impressionado com a grandiosidade dos cenários e com o encaminhamento de toda projeção. Entretanto, eu era curioso e queria saber detalhes sobre como eram produzidos os filmes, chegando a colecionar até mesmo algumas das sinopses do saudoso crítico Paulo Perdigão, publicadas pelo jornal O Globo em sua coluna “Filmes de Hoje na TV” na década de 1980/90.

Além de assistir a estes filmes e gravá-los pela TV no tempo do videocassete, passei a colecionar revistas e livros sobre cinema, cartazes e posters, entre outras memorabilias que me fizeram convencer que eu era mesmo um cinéfilo de carteirinha. Falo de uma época quando todo acesso de busca e informação era pelas bibliotecas ou pelos livros dos grandes críticos e historiadores de cinema, não tínhamos internet. Ou ainda fazendo intercâmbio com pessoas que vivenciaram os lançamentos dos filmes clássicos pelos cinemas de todo Brasil. Hoje, com a internet ficou bem mais acessível qualquer busca de informação sobre filmes, atores e diretores, e o espaço para críticos ficou mais amplo também com seus sites ou blogs. Por isso que em 2010 resolvi inaugurar meu espaço virtual, o blog FILMES ANTIGOS CLUB – A NOSTALGIA DO CINEMA, onde redijo matérias de minha autoria abordando resenhas de grandes filmes e biografias de astros e diretores. A partir daí o cinéfilo que já existia em mim também deu lugar ao crítico.

Adilson: Em seu blog, você privilegia os clássicos hollywoodianos. O cinema de antes é melhor que o atual? Ou, poderíamos dizer tão bom quanto?
Paulo Telles: O cinema de hoje tem muito mais espaço com os modernos efeitos visuais e especiais. O resultado agrada o público de hoje, mas vejo que muita gente ainda prioriza mais os efeitos especiais do que o próprio enredo do filme.

Com os filmes antigos, obviamente não tínhamos a mesma qualidade dos efeitos cinematográficos de hoje, mas tínhamos grandes histórias, grandes superproduções, estrelas carismáticas, e cineastas renomados que eram, em realidade, mestres e artesões de suas próprias obras, reconhecidos pelos críticos franceses do Cahiers du Cinema. Estes diretores carimbaram seus trabalhos. Cineastas como John Ford, Cecil B.DeMlle, Frank Capra, Robert Wise, William Wyler, Fred Zinnemann, John Huston, Ernst Lubitsch, George Stevens, Billy Wilder e Nicholas Ray estão entre estes grandes diretores.

Por este prisma, o cinema de antes era bem melhor, mas isto não quer dizer que não possamos ter no cinema atual obras que possamos assistir com simpatia, reflexão e gosto.

Adilson: Em “Tarzan vai ao cinema”, você e Saulo traçam um apurado painel de um dos personagens mais adaptados para as telas. O que é tão atraente no personagem de Edgar Rice Burroughs?
Paulo Telles: O que me atraí particularmente em Tarzan é sua áurea fantástica. Certamente é um personagem que influenciou escritores e desenhistas para o surgimento de outros super-heróis, como o Fantasma, Batman, Zorro, Homem Aranha, entre outros. Um personagem cuja força vem da própria natureza e da ânsia de liberdade, sendo o protetor dos povos africanos, dos animais e do meio ambiente. Quando Tarzan precisa lutar e matar é para se defender e defender aqueles que o cercam. E foi justamente por estas qualidades originais traçadas pelo escritor Edgar Rice Burroughs que o Homem Macaco, ao longo de mais de um século, vem garantindo sua imortalidade perante as plateias de todo mundo, justamente por ele
representar o espírito indomável do ser humano.

Adilson: Entre tantos intérpretes de Tarzan em 125 anos de arte cinematográfica, qual seu favorito?
Paulo Telles: Gosto muito das atuações de Gordon Scott, Jock Mahoney, e Ron Ely pela televisão. Mahoney pode não ter sido um Tarzan physique du role de acordo com o perfil original do personagem, mas os dois filmes que estrelou, Tarzan Vai a Índia (Tarzan Gos to India, 1962) e Os Três Desafios de Tarzan (Tarzan's Three Challenges, 1963), foram superproduções de grande sucesso, rodadas na Índia e na Tailândia. Johnny Weissmuller é um mito entre todos os intérpretes, mas sua atuação foge drasticamente de seu verdadeiro perfil, pois nos livros de Burroughs, Tarzan não é monossilábico e sabe se portar na civilização quando é preciso, tanto que certa vez o próprio escritor observou: “Se Tarzan fosse grande, forte e burro como quer impor Hollywood, ele jamais teria sobrevivido na selva”.

Adilson: No livro, vocês contam várias histórias dos bastidores dos filmes de Tarzan. Alguns filmes foram feitos no Brasil, quais e quando foi?
Paulo Telles: Dois filmes foram rodados no Brasil e ambos no Rio de Janeiro, com locações na Quinta da Boa Vista e na Barra da Tijuca, na época ainda um lugar bem deserto e com muito mato. Tarzan e o Grande Rio (Tarzan and The Great River, 1967), que teve a participação do nosso saudoso ator Paulo Gracindo, e Tarzan e o Menino da Selva (Tarzan and The Jungly Boy, 1968), com participação do também saudoso José Lewgoy, todos produzidos entre 1966 até o final de 1967.

Nas duas produções, Tarzan foi interpretado pelo atleta do futebol americano Mike Henry, talvez o mais fiel em termo físico com o personagem. Henry estava cotado para estrelar a série de TV (que acabou tendo Ron Ely como astro), porém não se adaptou ao ritmo das filmagens. Durante a produção, foi mordido no queixo por um chimpanzé, teve febre, e, de quebra, puseram uma vaca correndo atrás do ator na Quinta da Boa Vista, próximo ao zoológico. Henry chegou a processar o produtor Sy Weintraub por maus tratos, mas ambos
acabaram num acordo judicial. Mike Henry morreu no começo deste ano, às vésperas do lançamento do livro.

Adilson: Na web rádio Vintage, você apresenta as trilhas sonoras que mais marcaram a história do cinema. Quais compositores são os melhores? Na rádio você recebe pedidos certamente, quais as trilhas mais pedidas?
Paulo Telles: Raramente recebo pedidos, mas quando recebo algum pelo meu Messenger sempre são temas de filmes como Casablanca, Doutor Jivago, 2001- Uma Odisseia no Espaço, E O Vento Levou, e também de alguns cantores do cinema como Frankie Laine, Ricky Nelson e Pat Boone. Os compositores de minha preferência são Dimitri Tiomkin, Jerry Fielding, John Williams, Ennio Morricone, Max Steiner, Lalo Schifrin, Maurice Jarre, Alfred Newman, e naturalmente o “Rei dos Reis” de todos os mestres dos soundtracks, Miklos Rozsa. Todos estes mencionados são os melhores compositores da história do cinema e em todos os tempos.

Adilson: Durante essa pandemia, assistir filmes em casa pode ser terapêutico, além do que consegue reunir a família para um agradável momento. O que mais mudou na relação do público com os filmes, além do fato que as salas de cinema sofreram a restrição que afastou os blockbusters das telas?
Paulo Telles: A meu ver, tínhamos antigamente muitas salas de cinema pelas cidades. Os cinemas de rua eram a grande sensação do público, ou mesmo entretenimento familiar. Contudo sabemos que estas mudanças ao longo dos anos, com o advento da televisão, do videocassete e dos shoppings centers, fizeram os cinemas de rua desaparecer, muitos sendo fechados ou derrubados para sempre, dando lugar para outros negócios.

Hoje os cinemas ficaram em sua grande maioria nos shoppings, porque tem acesso para estacionamentos, além de oferecer segurança, muito embora nesse quesito nem sempre seja uma regra. Mas com a chegada desta pandemia, ficou impossível irmos às salas devido às medidas restritivas contra a COVID-19, atitude absolutamente certa promovida pelas autoridades, pois temos que nos resguardar.

Por outro lado, é triste que muitos dos blocksbusters prometidos entre os anos de 2019 e 2020 não puderam chegar as nossas telas, o que causou certamente prejuízo para as salas e seus empresários. Mas emocionalmente, os amantes da Sétima Arte foram os maiores prejudicados, já que muitos destes gostam de prestigiar os lançamentos justamente nas salas de projeção.

Adilson: Pela Estronho, você abordou o seriado “Paladino do Oeste”, também ao lado do Saulo Adami. Hoje seriados atraem o público jovem e adulto para os canais de streaming. Existe algum canal de streaming que privilegia seriados antigos?
Paulo Telles: Não estou a par. Mas existe um canal chamado OldFlix, que parece oferecer só
filmes clássicos, mas não sei se privilegia também seriados antigos.

Adilson: “O Paladino do Oeste” vem de uma longa tradição americana que aborda um dos gêneros mais prolíficos da arte cinematográfica. Por que o Western é tão atraente para o público?
Paulo Telles: O que atraia o público no gênero era sua legenda romântica e lírica, a mitologia do cowboy do Velho Oeste idealizada pelo folclore americano e pelo próprio cinema. Cineastas como John Ford e Howard Hawks muito contribuíram para mistificar o cowboy, ou, diga-se de passagem, o mocinho. O cinema enaltecia mitos como Billy The Kid, Wyatt Earp, General Custer, Buffalo Bill e Jane Calamidade através da narrativa heroica e lírica, quando na realidade todos estavam distantes de qualquer lirismo ou heroísmo. Contudo, o western sofreu várias modificações ao longo dos anos.

Na década de 1950, o cineasta Anthony Mann implantou o chamado “Western Psicológico”. Os heróis eram ambíguos e margeava pelas fronteiras da moralidade e da consciência, como o xerife Will Kane, vivido por Gary Cooper em Matar ou Morrer (High Noon, 1952), de Fred Zinnemann. Com o advento dos faroestes europeus pelos italianos Sergio Leone e Sergio Corbucci, aquele cowboy antes exaltado como figura de legenda lírica e romântica por Ford e Hawks se desvaneceu, dando lugar ao anti-herói inescrupuloso, sem nenhum tipo de consciência, lealdade ou integridade.

Mas foi graças ao Western Spaghetti que o gênero em si conseguiu sobrevida, e os cineastas americanos tiveram que se reinventar, como Sam Peckinpah, que nos legou uma de suas maiores obras primas, Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch, 1969), um dos meus dez westerns favoritos, que era nada mais e nada menos um trabalho aos moldes dos faroestes europeus.

Adilson: Qual seu próximo projeto?
Paulo Telles: Meu próximo projeto é terminar meu livro sobre os filmes de Elvis Presley, que deverá se chamar “Elvis no cinema, a trajetória do Rei do Rock em Hollywood”, título ainda provisório e que será meu primeiro trabalho literário solo. Ainda no campo literário, penso em escrever um livro sobre curiosidades cinematográficas, baseado no quadro que apresento pelo Cine Vintage. Outros projetos virão com o tempo.

Adilson: Quem são seus ídolos do cinema?
Paulo Telles: John Wayne, Gary Cooper, Humphrey Bogart, Robert Taylor, Charlton Heston, Burt Lancaster e Randolph Scott estão entre meus ídolos principais. Mas no campo das grandes interpretações, meu preferido é Robert Ryan, responsável por grandes atuações no cinema entre as décadas de 1940 até início de 1970, um artista talentoso que fez de tudo no cinema americano com competência e profissionalismo. Entre as estrelas, minhas “deusas” são Elizabeth Taylor, Ava Gardner, Lana Turner, Rita Hayworth e Debra Paget. No campo das grandes performances femininas, destaco Susan Hayward, atriz vencedora do Oscar. Amo seu
trabalho e seu estilo de atuar.

Adilson: Se você escolhesse um filme com uma mensagem positiva para esses tempos difíceis, que filme você indicaria aos nossos leitores?
Paulo Telles: Indico para os leitores deste espaço nestes tempos difíceis e incertos o filme HORIZONTE PERDIDO (Lost Horizon, 1973), de Charles Jarrott, com base no romance de James Hilton publicado em 1933. Há uma versão anterior feita pelo diretor Frank Capra em 1937, mas ambas retratam a busca da paz interior em contraste com o verdadeiro mundo que vivemos, e que com otimismo e boa vontade, é possível alcança-la. A versão de Jarrott é um musical, com canções alegres de Burt Bacharach, o que faz desta montagem um pouco mais acima a de Frank Capra. Mas as duas versões são especiais e indicadas para todos os momentos de nossas vidas.

Assista ao canal “Adilson Cinema” no Youtube.