Como mostrar o horror Holocausto pela literatura para as crianças
O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, lembrado em janeiro, foi uma data estabelecida pela ONU apenas em 2005 para marcar a libertação do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau ao final da guerra, em 1945, e homenagear os seis milhões de judeus e outras minorias perseguidos pelo regime nazista.
Mais do que lembrar a data, preservar a memória desse marco histórico é um exercício essencial, e um desafio permanente quando se trata de transmiti-la às novas gerações. Mas como falar sobre Holocausto, racismo, intolerância e violência com crianças e jovens sem causar trauma e, ao mesmo tempo, estimular empatia, memória e senso crítico?
Segundo a psicóloga Tamiris Sasaki de Oliveira, mestre em avaliação psicológica e especialista em estimulação precoce, existem idades mais adequadas para abordar determinados temas. "Mas também podemos falar de acordo com o interesse e a curiosidade das crianças e jovens", explica.
A visão é compartilhada por Dani Gutfreund, editora na Livros da Matriz e gestora no Lugar de Ler. "Acredito que o momento certo é quando a criança ou jovem se interessa pelo assunto, quando as perguntas começam a aparecer."
Tamiris ressalta que, ao introduzir o tema, é importante considerar o nível de compreensão da criança. "Por volta dos 10, 11 anos, a criança já tem mais noção e consciência sobre violência, empatia, preconceito... Antes dessa idade, é preciso ponderar o que será dito e de que forma e em qual contexto será falado", diz.
Educadores e especialistas também defendem o uso de materiais e linguagens adequados à faixa etária e ao contexto emocional de cada criança ou jovem, respondendo às dúvidas conforme elas surgem, sem antecipar explicações de forma rígida e forçada. É nesse ponto que os livros ganham protagonismo.
Obras infantis e juvenis podem ser uma poderosa porta de entrada para temas complexos, ao apresentar histórias humanas e personagens com os quais leitores mais novos conseguem se identificar. "Eles são uma ótima ferramenta", avalia Tamiris. "Desde muito pequenas, os livros já ajudam as crianças a compreender o mundo e o que acontece em seu entorno e também com elas mesmas, seus sentimentos, emoções, relações."
"A literatura permite que entremos em contato com experiências e mundos que nos são alheios", acrescenta Gutfreund.
Para ela, quando uma criança se manifesta sobre um tema delicado, um livro ilustrado pode ajudar a conduzir essa conversa difícil. "Tratando do assunto simbolicamente, mas com respeito e sem negligenciar o tema", afirma.
"Muitas vezes, a conversa toda acontece ao redor da história que o livro conta e isso permite que a criança elabore o que precisa elaborar de acordo com suas competências", explica Gutfreund.
Ela lembra ainda que há livros ilustrados que dialogam com leitores de qualquer idade e podem ser revisitados em diferentes fases da vida. Tamiris reforça a importância de respeitar os limites de compreensão de cada criança ao abordar assuntos sensíveis. "Para isso, pode-se fazer uso dos livros, de filmes, desenhos... Dependendo da idade da criança e da curiosidade dela e do objetivo de quem for introduzir o tema", explica.
Além de livros, filmes e desenhos, exposições de arte e clubes de leitura também são caminhos possíveis para apresentar temas complexos a crianças e jovens. "Todo e qualquer contato com a arte nos possibilita refletir sobre o mundo e pensar nas relações a partir de outras perspectivas, nos ensina a olhar mais e melhor, nos permite uma relação mais profunda e complexa conosco e com os outros", acredita Gutfreund.
Confira abaixo uma seleção de livros que podem ajudar nesse processo.
1.'Nicky e Vera', de Peter Sís
Nicky organizou viagens de trem (algumas até clandestinas!) e, com isso, conseguiu salvar a vida de mais de 600 crianças. Entre elas estava Vera Gissing, que precisou se mudar para a Inglaterra sem sua família, em busca de uma chance de sobreviver à Segunda Guerra. Neste livro, Peter Sís, um dos autores mais premiados da literatura infantil, entrelaça as histórias de Nicky e Vera. Por meio de imagens e palavras poéticas e repletas de detalhes, o autor mostra como nem todos os heróis usam capas ou sequer estão devidamente apresentados nos livros de História. Tradução de Érico Assis. (Companhia das Letrinhas, 64 págs., R$ 69,90)
2. 'NÃO', de Paula Carbonell; ilustrações de Isidro Ferrer
NÃO é um livro que fala do essencial, da proteção da infância, de não desistir, apesar de tudo. Com poucas palavras, Paula Carbonell e Isidro Ferrer contam a história de uma irmã e de um irmão presos no absurdo da guerra. Quando chegam à escola, certa manhã, um dos colegas não aparece. Eles são mandados para casa e descobrem que seu lar não existe mais. Encontram a mãe, que diz que agora vão brincar de esconde-esconde, mas o jogo não acaba e se torna amargamente sério. A história caminha por incertezas e termina com o palavrão do pai sobre a guerra. Um não ao horror da guerra, uma recusa a desviar o olhar, mesmo quando o mundo não se importa. A tradução é de Dani Gutfreund. (Editora Livros da Matriz, 48 págs., R$ 62)
3. 'Anne Frank: A Menina Que Ficou Invisível', de Marco Antonio Godoy
Anne Frank tinha acabado de fazer 13 anos quando teve de ir para um lugar secreto e ficar escondida por dois anos. Em seu esconderijo, ela escreveu um diário. Anos depois, o Diário de Anne Frank tornou-se um dos livros mais lidos do mundo. Quer saber como isso aconteceu? Comece por este livro e entenda por que Anne Frank passou a ser a menina com o superpoder de mostrar que intolerância e desigualdade não são coisas legais. (Editora Suinara, 52 págs., R$ 49,90)
4. 'A Árvore no Quintal', de Jeff Gottesfeld
A árvore da Prinsengracht, 263 observava enquanto a menina brincava e escrevia em seu diário. Quando estranhos invadiram Amsterdã e aviões roncaram acima das cabeças, a árvore via a menina afastar as cortinas do anexo da fábrica do pai para espiá-la. A árvore também viu a menina ser levada dali com sua família - e o seu pai retornar depois da guerra, sozinho. No verão em que Anne Frank completaria 81 anos, a árvore morreu. Mas suas sementes e mudas foram plantadas pelo mundo afora, como símbolo da paz. A Árvore no Quintal introduz a delicada história de Anne Frank para o público infantil. Tradução de Luiz Antonio Aguiar. (Galera Junior, 40 págs., R$ 64,90)
5. 'Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-rosa', de Judith Kerr
De uma das autoras mais reverenciadas da literatura infantojuvenil contemporânea, Judith Kerr, Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-rosa é uma publicação indispensável na conscientização sobre o Holocausto. Indicada para leitores de 10 a 14 anos, a obra acompanha Anna, que estava ocupada demais com a escola e sua rotina para reparar nos cartazes que estampavam o rosto de Adolf Hitler pelas ruas de Berlim, capital da Alemanha. Até que um dia, o pai dela decide fugir do país, e logo Anna e seu irmão Max também precisam sair às pressas do país por um motivo que ainda não compreendem. Agora, com a família reunida em uma terra estrangeira, os irmãos vão ver suas vidas virar de cabeça para baixo e precisarão aprender coisas novas a cada etapa do caminho que empreendem. Mas logo vão descobrir que, até em meio a tudo isso, podem encontrar maneiras de serem felizes, desde que se mantenham unidos. Tradução de Laura Folgueira. (HarperKids, 224 págs., R$ 54,90)
6. 'O Menino da Lista de Schindler', de Leon Leyson
Recomendado para crianças a partir de 10 anos, O Menino da Lista de Schindler conta a história de Leon, que vive em um mundo despedaçado pela invasão dos nazistas. Quando, em 1939, o exército alemão ocupou a Polônia, Leon tinha apenas 10 anos. Ele e sua família foram confinados no gueto de Cracóvia junto a milhões de outros judeus. Com um pouco de sorte e muita coragem, o menino conseguiu sobreviver ao inferno e foi contratado para trabalhar na fábrica de Oskar Schindler, o famoso empreendedor que conseguiu salvar mais de 1.200 judeus dos campos de concentração. Neste testemunho que ficou por tanto tempo inédito, Leon Leyson conta sua história, na qual, graças à força de um menino, o impossível se tornou possível. Tradução de Pedro Sette Câmara. (Rocco, 256 págs., R$ 54,90)
7. 'O Diário de Anne Frank em quadrinhos', de Ari Folman
Com ilustrações de David Polansky, esta edição em HQ de O Diário de Anne Frank conta de forma lúdica e detalhada a história de um dos livros mais importantes do século 20. O depoimento da pequena Anne, morta pelos nazistas após passar anos escondida no sótão de uma casa em Amsterdã, ainda hoje emociona leitores no mundo inteiro. Suas anotações narram os sentimentos, os medos e as pequenas alegrias de uma menina judia que, como sua família, lutou em vão para sobreviver ao Holocausto. Indicado para leitores a partir dos 12 anos. Tradução de Raquel Zampil. (Record, 160 págs., R$ 63)
8. 'O Anjo da Guarda do Vovô', de Jutta Bauer
As aventuras da infância, os perigos da juventude e os desafios da vida adulta eram sempre encarados pelo avô com coragem e ousadia; porém, mal sabia ele que um anjo da guarda incansavelmente o protegia nos momentos mais difíceis. Os leitores são os únicos que conhecem esse mistério que envolve a vida dos personagens dessa história que aborda a finitude com delicadeza e celebra a intensidade da vida. A combinação perfeita entre texto e imagem faz de O Anjo da Guarda do Vovô um dos livros ilustrados mais importantes da carreira da premiada artista alemã Jutta Bauer. Livro indicado para leitores a partir de 4 anos. Tradução de Sofia Mariutti. (Companhia das Letrinhas, 56 págs., R$ 59,90)
9. 'Querida Kitty', de Anne Frank
Querida Kitty é o romance inacabado que Anne Frank escreveu a partir do seu diário. Por dois anos, ela registrou sua vida no esconderijo em um diário hoje mundialmente conhecido. Mas Anne tinha um grande desejo: publicar um romance sobre essa experiência quando a guerra terminasse. Como trabalho preparatório para esse projeto, ela reelaborou minuciosamente seu diário. As cartas à amiga imaginária Kitty, apresentadas pela primeira vez como uma publicação em separado, dão prova do talento literário da jovem autora. Com grande sensibilidade e fino senso de humor, ela relata à sua amiga o cotidiano da vida na casa, as relações entre seus moradores e o clima de terror que aumentava progressivamente com a escalada da guerra. Recomendado para jovens de 12 a 14 anos. Tradução de Karolien van Eck e Ana Iaria. (Clássicos Zahar, 320 págs., R$ 74,90)
10.'Uma Vez', de Morris Gleitzman
Felix Salinger, um menino judeu de 10 anos que mora na Polônia, adora ler e é ótimo em escrever e contar histórias. É isso o que ele mais faz enquanto espera, num orfanato católico, o pai e a mãe, que foram cuidar da livraria da família. A mensagem ficou mais clara quando livros judeus da biblioteca do orfanato foram transformados em uma imensa fogueira: seus pais e a livraria da família estavam em perigo. O garoto sabia que precisava voltar para casa para ajudá-los. Assim começa a jornada de Felix por um país tomado por soldados nazistas, vizinhos delatores, mas também por pessoas dispostas a ajudar. A incrível imaginação do garoto é sua melhor companhia para compreender a terrível realidade que o cerca. Este é um livro especial, que nos faz testemunhas do horror do Holocausto pelo olhar inocente. Para crianças a partir dos 10 anos. Tradução de Marília Garcia. (Paz & Terra, 160 págs., R$ 54,90)
11. 'Então', de Morris Gleitzman
A história de Felix começou a ser contada no livro Uma Vez, ao descobrir que foi deixado pelos pais em um orfanato e resolve fugir, na tentativa de reencontrar a família. No meio do caminho, além de muitos sustos e perigos, Felix encontra Zelda, uma menina de 6 anos, que ele salva de um incêndio. Em Então, Felix e Zelda, depois de fugirem de um trem que levava judeus para um campo de concentração na Polônia, precisam de muita coragem, criatividade e sorte para não serem pegos pelos nazistas nem morrerem de fome ou frio. O livro evoca emoção e ternura ao narrar, do ponto de vista infantil, as dificuldades de quem lutou para sobreviver ao horror do Holocausto. Tradução de Marília Garcia. (Paz & Terra, 192 págs., R$ 41,17)
12. 'Pássaro Branco: Uma História de Extraordinário', de R. J. Palacio
Em Extraordinário, milhões de leitores se apaixonaram por Auggie, um menino com deformidade facial que decide ir à escola e enfrentar o olhar julgador do mundo. Escrito e ilustrado por R. J. Palacio, Pássaro Branco é a estreia da autora no universo dos quadrinhos e revela um novo lado de Julian, um colega de turma que fazia questão de que Auggie não fosse tratado como um garoto comum. Durante uma tarefa de casa, Julian conhece o passado comovente de Grandmère, sua avó. Ainda criança, ela precisou se esconder dos nazistas na França, durante a Segunda Guerra Mundial. Pelos olhos da pequena Sara, vemos a escalada do nazismo e também a força de uma relação de acolhimento e afeto. Com belas ilustrações e trechos poéticos, R. J. Palacio retorna ao universo de Extraordinário para recontar um capítulo terrível da história da humanidade. Tradução de Rachel Agavino. (Intrínseca, 224 págs., R$ 46,90)
13. 'Maus', de Art Spiegelman
Indicado para leitores a partir dos 13 anos, Maus é um relato forte e comovente sobre Auschwitz e um acerto de contas do artista com o próprio pai. É a única história em quadrinhos a receber o Prêmio Pulitzer e, desde que foi lançada, tem sido objeto de estudos e análises de especialistas de diversas áreas - história, literatura, artes e psicologia. Nas tiras de Spiegelman, os judeus são desenhados como ratos e os nazistas ganham feições de gatos; poloneses não judeus são porcos e americanos, cachorros. Esse recurso, aliado à ausência de cor dos quadrinhos, reflete o espírito do livro: trata-se de um relato incisivo e perturbador, que evidencia a brutalidade da catástrofe do Holocausto. Tradução de Antonio de Macedo Soares. (Quadrinhos na Cia., 296 págs., R$ 94,90)
14.'Meu Nome', de Marilda Castanha
Nomes carregam nossas origens e nossa memória. E, em tempos difíceis, nos lembram de quem somos, de onde viemos e nos ajudam a resistir. Esta história cuidadosamente elaborada pela premiada Marilda Castanha não é só sobre um nome. Nem apenas sobre o menino que o carrega. Mas, sim, um convite para refletirmos sobre os impactos da guerra na vida das crianças, a esperança que nutrimos por um mundo de paz e a importância de não abrirmos mão de nossa identidade e de nossas origens. Indicado para leitores a partir de 6 anos. (Companhia das Letrinhas, 48 págs., R$ 64,90)
15. 'Mexique', de Maria José Ferrada
No dia 27 de maio de 1937, um grupo de 456 meninas e meninos embarcou no transatlântico Mexique, que partiu de Bordeaux, na França, para o México. Eles deveriam permanecer lá por três ou quatro meses, mas não contavam com a derrota republicana ou o início da Segunda Guerra Mundial, dois episódios que tornaram definitivo o seu exílio. As "crianças de Morelia" nunca mais voltaram para a sua pátria e, se o fizessem, várias décadas depois, encontrariam um país, irmãos e paisagens que já não reconheciam. Este livro conta a história de um navio, sabendo que não há registro de todos aqueles que cruzam o oceano todos os dias, transferindo seres humanos que têm direito a uma vida digna sem que a terra se desintegre sob seus pés. Indicado para leitores a partir de 8 anos. (Pallas Mini, 32 págs., R$ 56).
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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