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ENTRE PRATELEIRAS

O Brasil quer minerais críticos. Mas quer o quê deles?

Especialista alerta que o verdadeiro valor dos minerais críticos está na capacidade de transformá-los em tecnologia, indústria e inovação

Jaques Paes | 22/06/2026, 13:11 h | Atualizado em 22/06/2026, 13:11
Entre Prateleiras

Jaques Paes

Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV


          Imagem ilustrativa da imagem O Brasil quer minerais críticos. Mas quer o quê deles?
Jaques Paes é executivo, mestre em gestão empresarial, palestrante, consultor, pesquisador e professor de MBA na Fundação Getulio Vargas |  Foto: Divulgação

Os minerais críticos entraram definitivamente na agenda brasileira. Projetos de lei avançam, governos estaduais anunciam programas específicos, investidores procuram oportunidades e novas reservas ganham espaço no debate público.

O País parece convencido de que ocupa uma posição privilegiada em uma das grandes disputas econômicas deste século.

A parte mais interessante do debate brasileiro não está nas reservas, mas na convicção de que elas bastam. A palavra mais repetida nessa discussão é “crítico”. Talvez seja também a menos compreendida.

Um mineral é considerado crítico quando sua disponibilidade influencia cadeias produtivas consideradas estratégicas. Baterias, eletrônicos, sistemas de defesa, data centers, redes elétricas, inteligência artificial e uma longa lista de tecnologias dependem, em maior ou menor grau, desses insumos.

Ao redor deles organizam-se cadeias produtivas capazes de influenciar competitividade, inovação, investimento e segurança econômica.

Quando observamos as cadeias globais associadas aos minerais críticos, percebemos que a mineração ocupa apenas uma parte da equação. Refino, separação química, desenvolvimento tecnológico, fabricação de componentes, propriedade intelectual e capacidade industrial costumam concentrar parcelas muito maiores do valor gerado.

É justamente nesse ponto que o debate brasileiro ainda parece incompleto. Fala-se sobre reservas, produção, licenciamento e investimentos em mineração, mas pouco sobre aquilo que transforma recursos em posição econômica. O raciocínio parece lógico, mas desconsidera uma dinâmica elementar dos mercados.

Quanto mais países classificam determinados minerais como estratégicos, menos estratégico se torna simplesmente possuí-los.

O adjetivo “crítico” descreve o mineral. Nunca garantiu relevância a quem o possui. O diferencial migra para aquilo que é construído ao redor dele.

A relevância econômica dos minerais críticos não está contida na rocha. Está na capacidade de transformar aquele recurso em tecnologia, indústria, conhecimento e influência econômica.

Uma das características mais curiosas do debate atual é a facilidade com que a existência do recurso é confundida com a existência da vantagem. A posse de uma condição favorável nunca eliminou a necessidade de decidir o que fazer com ela.

O histórico brasileiro mostra que oportunidades econômicas raramente foram escassas. Mais raro tem sido transformá-las em posições duradouras de competitividade.

O mundo não está disputando minerais críticos. Está disputando a capacidade de transformar minerais críticos em influência econômica. O valor desses minerais decorre da utilidade econômica que a tecnologia lhes atribui.

Quando esta corrida terminar, as reservas continuarão onde sempre estiveram. A diferença estará naquilo que tiver sido construído ao redor delas.

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Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.