A economia das enchentes
El Ninõ expõe precariedades urbanas e necessidade de um planejamento preventivo
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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El Niño não cria fragilidades. Realiza uma auditoria não contratada das cidades e da economia. Revela onde a infraestrutura foi insuficiente, onde a ocupação urbana ignorou a geografia e onde a política pública preferiu improvisar. O fenômeno climático passa; a vulnerabilidade fica. Reorganiza custos. E custo é uma linguagem que a economia entende muito bem.
Existe uma tendência de tratarmos fenômenos climáticos como acidentes. Choveu demais. Fez calor demais. O rio subiu além do esperado. A safra quebrou. O tomate disparou. Tudo aparece como uma sucessão de episódios desconectados, quando a conexão está justamente no que insistimos em tratar como exceção.
Quando a chuva desaparece, a produção agrícola sente. Quando ela vem em excesso, a infraestrutura logística e o sistema elétrico sentem. E quando tudo isso acontece ao mesmo tempo, quem sente é o consumidor, ainda que nem sempre saiba de onde veio a conta.
Há, no entanto, um equívoco recorrente nessa narrativa. O clima acaba responsabilizado por problemas que já estavam contratados.
As imagens se repetem com uma regularidade quase burocrática: bairros alagados, deslizamentos, escolas fechadas, comércio interrompido, alimentos mais caros, rodovias interditadas.
Depois vêm os decretos de emergência, os recursos extraordinários e as promessas de reconstrução. Meses mais tarde, tudo volta ao normal, até que o próximo ciclo climático revele que nada estava normal.
As bordas das cidades são o encontro entre duas precariedades: a climática e a urbana. Nelas, infraestrutura insuficiente e ocupação desordenada transformam um evento previsível em uma crise social.
O mesmo volume de chuva que provoca um congestionamento em um bairro pode significar perda de renda, destruição de patrimônio e ruptura da rotina em outro.
Durante décadas, cidades foram pensadas para o crescimento populacional e o aumento da frota. O clima aparecia apenas como pano de fundo.
A discussão, no fim, é sobre planejamento. Gostamos mais da resposta emergencial do que da prevenção. Gastamos com facilidade em reconstrução. Temos muito mais dificuldade em evitá-la.
O clima não foi desenhado para obedecer ao calendário da política. O próximo mandato, a próxima licitação ou a revisão do plano diretor são problemas nossos, não dele. Cidades resilientes dizem mais sobre escolhas do que sobre o clima.
Enquanto grandes conferências internacionais discutem bilhões em financiamento climático, mercados de carbono e metas de longo prazo, o efeito mais concreto do aquecimento global continua aparecendo na rua que alaga todos os anos e na feira onde o preço dos alimentos muda antes de os indicadores oficiais.
É curioso que boa parte do debate sobre adaptação climática seja apresentada como uma agenda ambiental, quando se trata de urbanismo, engenharia e desenvolvimento econômico.
Plantar árvores é importante. Mas impedir que milhares de pessoas sejam empurradas para a borda social talvez importe mais.
O El Niño não anuncia o futuro. Expõe decisões tomadas antes da primeira alteração na temperatura do Pacífico. As nuvens mudam de lugar. A conta quase sempre continua chegando ao mesmo endereço.
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PÁGINA DO AUTOREntre Prateleiras
Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.