Professores explicam as mudanças na correção da Redação do Enem
Uma delas envolve o repertório cultural, antes avaliado na competência 2 e que agora pode resultar em punição também na 3
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Após candidatos estranharem a queda nas notas da Redação da última edição do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), documentos obtidos por um portal de notícias apontam mudanças nos critérios de correção. A pedido de A Tribuna, professores explicam como esses parâmetros passaram a funcionar.
Uma das mudanças envolve o repertório cultural, conhecimentos de outras áreas que ajudam a sustentar a tese, antes avaliado apenas na competência 2.
Segundo o professor de Redação do Centro Educacional Leonardo da Vinci, Lúcio Manga, o uso de repertórios genéricos ou sem relação com o tema agora também pode resultar em punição na competência 3.
“Muitos alunos copiavam citações ou referências de forma aleatória, sem relação direta com o tema. A partir dessa regra, ficou claro que o repertório precisa ter conexão temática”, explicou.
O professor disse que essas competências podem ser avaliadas em conjunto porque se relacionam.
“Se o repertório é mal selecionado, a coerência do texto também vai ficar comprometida”.
Outra mudança ocorreu na competência 4, que avalia o uso de conectivos. Antes, a correção seguia um critério numérico, com exigência mínima desses recursos ao longo do texto.
Agora, segundo a professora de Redação e ex-corretora do Enem Raquel Frontelmo, a análise passou a ser mais subjetiva. “Os corretores observam o 'nível das expressões', e não mais a presença e organização dos conectivos”.
Já na competência 5, que avalia a proposta de intervenção, a penalização ficou mais rígida. Antes, a ausência de cada elemento obrigatório – ação, agente, finalidade, meio e detalhamento – gerava perda de 40 pontos. Agora, a falta da ação, que diz o que será feito, resulta em um desconto de 120 pontos.
“Mesmo que os outros elementos estivessem corretos, essa falha isolada poderia derrubar bastante a nota final”, diz Raquel.
Até o momento, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) não confirmou as mudanças. Porém, os professores orientam os alunos a irem se adaptando aos critérios.
“A orientação é estudar de forma integrada, para absorver temas de diversas áreas. Isso dá segurança na hora de formular argumentos na Redação”, conclui Lúcio.
Entenda
A avaliação
A redação do Enem é avaliada em cinco critérios específicos.
Cada um vale até 200 pontos, totalizando a nota 1000.
Competência 1
Avalia o domínio da norma culta (padrão) da língua portuguesa.
O candidato pode alcançar nota máxima mesmo com até dois desvios gramaticais, desde que a estrutura do texto seja excelente.
Competência 2
Avalia se o candidato compreende a proposta de redação e se consegue aplicar conceitos de várias áreas do conhecimento para desenvolver o tema.
A cartilha do Participante da última edição alerta que repertórios decorados ou sem relação direta com o tema prejudicam a nota.
Competência 3
Avalia a capacidade de selecionar, organizar e relacionar ideias, informações e argumentos de forma lógica e coerente em defesa do ponto de vista defendido.
Competência 4
Avalia o uso de mecanismos linguísticos, como conectivos, pronomes e sinônimos, para ligar ideias e parágrafos.
Assim, o aluno precisava usar esses recursos em pelo menos dois momentos do texto, com ao menos um elemento coesivo por parágrafo.
Competência 5
Avalia a elaboração de uma proposta de solução para o problema apresentado, respeitando os Direitos Humanos.
A proposta deve conter cinco elementos obrigatórios: ação, agente, finalidade, meio e detalhamento.
A ausência de um desses itens poderia gerar perda de até 40 pontos.
O que mudou
Competências 2 e 3
Os documentos mostraram que os repertórios culturais considerados genéricos, decorados ou sem relação direta com o tema são punidos nas duas competências.
Isso significa que eles comprometem não só a compreensão da proposta, mas também a coerência e a organização dos argumentos.
Competência 4
Não há mais uma contagem numérica. Agora, o corretor observa como os mecanismos linguísticos de coesão e coerência funcionam ao longo de todo o texto.
É avaliado se esses recursos aparecem de forma regular, constante ou expressiva e se contribuem, de fato, para a progressão das ideias.
Competência 5
Agora, a ausência do elemento “ação”, que diz o que será feito para resolver o problema na proposta de intervenção, faz com que o candidato perca 120 pontos, não mais só 40.
Dicas dos professores
Estudar temas variados para adquirir repertórios culturais ao invés de decorar.
Ficar atento a comunicados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) ou do MEC sobre as mudanças.
Treinar a redação ao longo do ano para aprender o modelo.
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