“Professor sempre vai ser melhor do que a IA”, diz Carpinejar
O escritor Fabrício Carpinejar ressalta que o educador consegue detectar onde o aluno precisa evoluir para acompanhar e orientar
Na era marcada pela presença da tecnologia e da Inteligência Artificial (IA), o professor cumpre o papel de ser agente de transformação na vida dos alunos e, por isso, nunca será substituído por um robô.
Essa é a mensagem principal defendida por Fabrício Carpinejar, escritor premiado e palestrante no 14º Congresso Educacional das Escolas Particulares do Espírito Santo.
O influenciador digital, detentor da Ordem Nacional do Mérito Educativo, condecorado com a Medalha da Inconfidência e também jornalista com experiência em rádio e televisão ministrou a palestra “Transformação pelo afeto: que ninguém seja invisível ao seu lado”.
A apresentação foi a última atração do congresso, que contou com a participação de autoridades, professores, educadores e representantes de escolas.
A Tribuna: Como o professor pode ser a chave de transformação na sala de aula?
Fabrício Carpinejar: Enquanto a Inteligência Artificial quer agradar, oferecendo todas as respostas e dizendo coisas agradáveis, o professor quer que os alunos se preparem para o mundo. Ele traz à tona os defeitos do estudante a partir de avaliações periódicas, para que seja possível superar obstáculos e encontrar a melhor versão daquela pessoa.
A máquina bajula. O professor, não. Ele consegue detectar onde o aluno precisa evoluir, acompanhá-lo e orientá-lo. E, além disso, o professor tem sensibilidade, e é por isso mesmo que ele nunca será substituído pela tecnologia. Não existe IA que consiga traduzir a empatia. Essa capacidade é o potencial transformador na vida dos alunos.
A Tribuna: Então, a interação humana também faz parte da prática educacional?
Fabrício Carpinejar: Absolutamente. Estamos vivendo um excesso digital. O mundo virou pelo avesso e os avatares, ou seja, os perfis digitais, são mais presentes que a própria pessoa. Nesse contexto, a educação presencial se tornou absolutamente transgressora.
Porque aquela interação humana que acontece ali, aquelas experiências, não existem em nenhum outro lugar. Aquilo que era considerado arcaico e defasado, agora, trouxe uma potência de contato, onde o aluno vai encontrar trabalho coletivo, atenção exclusiva para ele. E isso o estudante só encontra na sala de aula. Nada é mais revolucionário do que o olho no olho.
A Tribuna: Essas experiências despertam algo nos estudantes que contribui para o aprendizado?
Fabrício Carpinejar: Essas experiências despertam emoção, e nada é mais importante para a preservação da memória do que a emoção. Quando você escreve o conteúdo em sala de aula, você guarda na memória aquele momento, o que você estava sentindo, se estava com frio ou com calor, se choveu naquele dia ou não, com quem você conversou antes de escrever.
Você vai se lembrar de tudo, e isso faz com que você memorize o conteúdo que escreveu. Tudo que não é vivido com emoção e afeto cai no esquecimento, e nós estamos acometidos de um 'Alzheimer digital'. E é por isso que é importante valorizar a escrita no caderno, a leitura no livro de papel, que ensejam experiências. Há quem diga que não há mais sentido em utilizar livros e cadernos, mas há sim, e estimular a memória é a justificativa.
A Tribuna: Como é possível melhorar e aprimorar a atenção dos alunos em sala de aula?
Fabrício Carpinejar: A maior mentira que nos contaram é que conseguimos ser multifocais, ou seja, que temos a capacidade de focar em várias coisas ao mesmo tempo. Nós somos monotemáticos. Eu não tenho capacidade de participar dessa entrevista e mexer no celular ao mesmo tempo.
Eu vou fazer as duas atividades de forma precária, malfeitas. Nós precisamos do capricho que é se dedicar a uma tarefa. E se você se dedica, se você registra aquele momento, você terá saudade. E se você tem saudade, você tem afeto, e isso vai fazê-lo guardar melhor aquilo na memória.
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