Riquezas naturais: aposta em investimentos nos minerais “do futuro”
Produtos na B3 ampliam o acesso a uma tese estrutural, mas especialistas ressaltam volatilidade e choques geopolíticos
Investimentos em minerais “do futuro”, estratégicos para a transição energética, digitalização, defesa e reindustrialização, são avaliados como uma aposta com cautela pelos especialistas.
Com o destaque da cadeia de minerais críticos nas discussões políticas, o interesse popular por esse segmento cresceu nos últimos meses.
Corretoras de investimentos passaram a oferecer produtos ligados ao setor para investidores brasileiros, inclusive os não qualificados.
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A corrida pelos minerais críticos têm ganhado cada vez mais tração, não somente pelo seu uso crucial em indústrias do setor de tecnologia, mas também como uma ferramenta de barganha nas trocas comerciais globais.
Esse último fator, porém, é uma faca de dois gumes para o investidor: os choques externos são um dos principais riscos associados ao investimento no ramo, conforme especialistas ouvidos pela reportagem.
O caminho para o investidor se expor a esse mercado é por meio de ETFs — fundos de investimento negociados na bolsa de valores que buscam replicar a performance de um índice de referência — negociados na B3, ações de mineradoras, BDRs, que são recibos de ações estrangeiras, ou fundos de investimento especializados.
Os minerais críticos parecem ser o “novo petróleo” do século 21, mas cautela é sempre uma aliada dos investidores, destacou Marcel Lima, head de dados e tendências macroeconômicas do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo (Ibef-ES).
O primeiro ETF de minerais críticos começou a ser negociado na bolsa brasileira no fim do mês passado, em um momento em que esses ativos ganham cada vez mais valor estratégico nas transações internacionais.
O RARA11 (primeiro ETF listado na B3), da Investo, estreou na B3 no fim de junho como o primeiro ativo destinado à classe de minerais críticos na bolsa brasileira. O ETF replica o VanEck Rare Earth/Strategic Metals ETF (REMX), negociado na bolsa de Nova Iorque.
“Hoje há um movimento de transição energética e descarbonização, então, olhando isoladamente esse aspecto, há sim um grande potencial de valorização. Mas há outros fatores importantes, como as tensões geopolíticas, que fazem com que haja uma volatilidade enorme nesse mercado. Portanto, há de ter muito cuidado e cautela”, afirmou Eduardo Cardoso, sócio da gestora Ore Investment.
Novos ETFs chegam à bolsa brasileira
Dois novos fundos de investimento internacionais — Brazilian Depositary Receipts de ETFs estrangeiros (BDR de ETF) — ganham uma versão para serem comprados direto na bolsa brasileira (B3) na próxima sexta-feira (17). Eles funcionam como “recibos” de fundos estrangeiros e são geridos pela empresa Global X.
O primeiro deles é o CHPX39. Ele permite investir em empresas que criam chips (semicondutores) e tecnologias que servem de base para a Inteligência Artificial e a computação quântica.
Esse fundo estreia num momento de disputa global por esses componentes, necessários para aumentar o poder dos computadores atuais. Entre as principais empresas do fundo estão Broadcom, Micron Technology, Nvidia e TSMC. A taxa cobrada do investidor é de 0,50% ao ano.
O segundo é o EART39. Ele foca em empresas que extraem minerais como níquel, lítio, cobre, cobalto e terras raras e são fundamentais para criar novas tecnologias e ajudar na transição para energias mais limpas.
A procura por eles está em alta devido ao crescimento de carros elétricos, baterias, centrais de dados e redes de energia. Entre as principais empresas do fundo estão Anglo American, Antofagasta Minerals e Freeport-McMoRan
Projetada valorização no curto prazo
Uma alta no curto prazo nos preços de minerais críticos como cobre, alumínio e lítio, é projetada pela Fitch Ratings, conforme relatório divulgado no mês passado.
Os preços são impulsionados pela demanda e por preocupações relacionadas a eventuais novas disrupções, como o impacto da Guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz por meses, o que afetou as cadeias logísticas do minério de ferro e níquel.
Nos EUA, há uma série desses fundos que se especializaram em comprar apenas ativos ligados à mineração, e alguns apresentam variação de cerca de 100% nos últimos 12 meses. Um exemplo é o Bura39, um BDR que representa papéis de um fundo americano especializado em comprar ações de empresas da cadeia do urânio.
Em meio ao aumento da procura por esse mineral —associado à geração de energia nuclear—, o certificado valorizou mais de 95% nos últimos 12 meses.
O papel foi criado pela Global X, uma das principais gestoras do mundo especializadas em fundos temáticos.
É possível investir diretamente nos ETFs americanos, sem necessariamente comprar um BDR, segundo Leonardo Laport, chefe de Equities Global para a América Latina no banco Jefferies.
Nesse caso, investidores podem adquiri-los por meio de corretoras que permitem a compra de ações no mercado financeiro americano — algo comum entre as mais populares do País, como XP, BTG, Inter e Avenue Itaú.
Análise
“Minerais críticos são tendência estrutural”
“Durante a recente escalada das tensões no Oriente Médio, observou-se um comportamento típico dos mercados financeiros: a migração de recursos para ativos considerados defensivos ou diretamente beneficiados pelo conflito, como o ouro e o petróleo.
À medida que a percepção de risco de uma escalada mais ampla diminuiu, muitos investidores optaram pela realização de lucros. Esse movimento de venda, natural após uma forte valorização, contribuiu para a acomodação dos preços.
Tal dinâmica reforça um princípio fundamental dos mercados: o capital é fluido e tende a ser direcionado aos setores que apresentam melhores perspectivas em cada ciclo econômico e geopolítico.
Nesse contexto, um tema que ganha destaque é o investimento em minerais críticos. Diferente de um movimento ligado a um conflito específico, trata-se de uma tendência estrutural e de longo prazo.
Enquanto o preço do petróleo reflete movimentos de curto prazo, os minerais críticos sustentam uma tese baseada na transformação estrutural da economia global. Ambos podem integrar um portfólio, desde que alinhados ao perfil de risco e aos objetivos de cada investidor”.
Saiba Mais
Minerais críticos
- Os minerais críticos são estratégicos para a transição energética, digitalização, defesa e reindustrialização. A projeção é que a demanda quadruplique até 2040.
- Alguns desses minerais são terras raras, níquel, lítio, cobalto, nióbio, cobre, manganês e grafite.
- Com o destaque da cadeia de minerais críticos nas discussões políticas, o interesse popular por esse segmento cresceu nos últimos meses. Agora, até corretoras de investimentos passaram a oferecer produtos ligados ao setor para investidores brasileiros, inclusive aqueles não qualificados.
- Ao contrário do ouro, no entanto, esses minerais não têm um preço único no mercado internacional – são negociados em contratos, não em bolsa.
- É um mercado de difícil acesso e ligado a grandes empresas, mas algumas delas são listadas em Bolsa, principalmente no exterior. Há também um índice nos Estados Unidos, o VanEck Rare Earth & Strategic Metals (REMX), que é replicado por alguns ETFs, inclusive no Brasil.
Cautela
- Cautela é sempre uma aliada dos investidores. Mais indicado do que investir diretamente nas commodities é alocar em empresas produtoras, já que existe valor intrínseco nesses ativos (fruto dos lucros gerados).
- Entretanto, é sempre importante contar com analistas profissionais para avaliarem a solidez financeira dessas empresas, bem como o preço de compra das suas ações.
- O perfil de investidor deve ser sempre respeitado e contar com profissionais do mercado é sempre indicado.
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