Receita afetiva ganhou nome e marca e chega a 13 cidades capixabas
Farofa da Kelly transformou uma ideia que nasceu num encontro de família em negócio com apoio do Sebrae
A ideia surgiu de uma lembrança simples, daquelas que costumam ficar guardadas na memória afetiva. Ao experimentar uma farofa industrializada na casa dos pais, em Santa Teresa, Região Serrana do Espírito Santo, a contadora Kelly Silene Porchera, de 48 anos, teve a sensação de que havia encontrado uma oportunidade.
“Foi como se tivesse acendido uma lâmpada na minha mente. Logo pensei: ‘Vou fazer para vender’”. O que começou com testes e degustações entre amigos e conhecidos transformou-se na Farofa da Kelly, marca que hoje abastece cerca de 85 clientes pessoa jurídica em 13, dos 78 municípios do Espírito Santo.
A empreendedora iniciou a produção em 2021, em Jaguaré, Norte do Estado, onde mora. Mas foi somente em setembro de 2024 que decidiu apostar integralmente no negócio.
A mudança marcou o início de uma nova fase, em que a receita artesanal precisou ser acompanhada por estratégias de mercado, identidade visual e planejamento comercial.
“A história da Kelly é um exemplo brilhante e muito representativo da jornada da maioria das mulheres que decidem empreender. Quase sempre o negócio nasce de uma paixão ou de uma habilidade pessoal muito forte”, observa Juliana Castro, gestora estadual do Programa Plural do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae)/ES.
Segundo Juliana, o desafio dos pequenos empreendedores está justamente em compreender que a qualidade do produto é apenas uma parte da equação.
“Quando a empreendedora inicia as capacitações e recebe a consultoria dos especialistas, ela passa por uma virada de chave. Percebe que o sucesso não depende apenas do sabor da farofa, mas de toda a experiência que envolve o produto.”
Essa transformação foi vivida na prática por Kelly. A farofa, produzida com proteína de soja, farinha baiana, óleo de algodão, cebola, alho e sal, preserva características que ela considera fundamentais.
“Faço questão de usar temperos de verdade. A farofa não tem conservantes nem adição de sabores artificiais.” O produto também passou por acompanhamento técnico e conta com tabela nutricional, sendo zero lactose, sem glúten e com baixo teor de sódio e açúcares.
A preocupação com a qualidade ajudou a conquistar consumidores que passaram a incluir a farofa em diferentes momentos do cotidiano.
“Ela foi além do churrasco. Hoje faz parte das refeições do dia a dia e também de ocasiões especiais, como Natal e Ano-Novo”, conta a empreendedora.
Mas fazer um bom produto não significou, automaticamente, conquistar espaço nas prateleiras. Kelly lembra que a aceitação nos comércios locais foi um dos principais desafios enfrentados no início.
“O mais difícil foi fazer aquela farofinha ser aceita pelos comerciantes. Depois, quando decidi me dedicar totalmente ao negócio, o desafio passou a ser conquistar espaço em outros municípios.”
Para Sarah Kretzschmar, analista do Sebrae/ES do escritório de São Mateus, responsável pelo município de Jaguaré, essa é uma dificuldade comum entre pequenos empreendedores.
“O principal erro do empreendedor é quando ele está com a atenção focada no seu negócio produtivo e não consegue focar na prospecção de novos negócios e, consequentemente, não consegue escalonar seu negócio, perdendo oportunidade de mercado.”
Foi justamente nesse momento que a parceria entre Prefeitura de Jaguaré e Sebrae ajudou a impulsionar o crescimento da marca. A partir das consultorias, Kelly passou a identificar novos mercados, traçar metas e fortalecer sua presença comercial.
“O consultor veio até meu estabelecimento, passou várias instruções para expandir as vendas. Através de pesquisas captamos novos clientes e juntos traçamos metas”, conta a empreendedora.
Entre as orientações recebidas, uma chamou atenção pela simplicidade e pelos resultados. Durante uma visita a um supermercado, o consultor observou que a Farofa da Kelly estava posicionada em um expositor improvisado, compartilhado com outro produto.
“Ele percebeu que a farofa estava escondida e me mostrou a necessidade de investir em um expositor próprio. Antes ela ficava em um expositor de outra marca”, lembra Kelly.
Sarah Kretzschmar explica que a exposição correta é uma das questões mais recorrentes observadas pelo Sebrae entre pequenos negócios do setor alimentício.
“Uma vez que é aberto o mercado, aberto um cliente novo, um supermercado, uma mercearia, uma loja, o principal ponto de atenção é em continuar a fazer a gestão do relacionamento com o ponto de venda. Fazer uma boa gestão do relacionamento no ponto de venda vai permitir alcançar melhores lugares numa gôndola do supermercado, melhorar a exposição. Por isso, é importante fazer uma visita ao cliente, fazer uma degustação, conversar constantemente com o gerente de compras, com o repositor.”
Para a gestora Estadual do Programa Plural do Sebrae/ES, Juliana Castro, o novo display representa algo maior do que uma simples mudança visual.
“A evolução do display, saindo de um expositor improvisado de outra marca para uma identidade própria nos pontos de venda, materializa perfeitamente o amadurecimento do negócio.”
Esse amadurecimento também envolveu outros aspectos da gestão. “Com o apoio técnico, o olhar do negócio se expande para as boas práticas de manipulação de alimentos, escolha da embalagem ideal, desenvolvimento de rótulo e logotipo, informações nutricionais obrigatórias, posicionamento estratégico nas redes sociais e cuidado com o pós-venda”, destaca Juliana.
A gestora Estadual do Programa Plural do Sebrae/ES destaca que o empreendedorismo feminino transforma realidades.
“E a Kelly ilustra como a construção de uma jornada de conhecimento contínuo junto ao Sebrae se reflete diretamente na melhoria do produto, na experiência do cliente e, consequentemente, no aumento das vendas e na sustentabilidade do negócio".
A construção da marca também aconteceu de forma natural. Kelly decidiu utilizar o próprio nome no produto e acabou criando uma identidade que ultrapassou a embalagem.
“Achei interessante colocar meu nome. Hoje muita gente já me conhece como a Kelly da Farofa”, afirma.
Nas redes sociais, a marca ganhou visibilidade e ampliou seu alcance. O reconhecimento dos consumidores, porém, continua sendo a maior recompensa para a empreendedora.
“A minha maior conquista é a fidelidade dos clientes. É ouvir que a farofa é deliciosa, que virou parte da rotina da família, que os filhos só fazem as refeições se tiver a Farofa da Kelly. Esse retorno é o que mais me emociona.”
Para Juliana, histórias como essa mostram como o empreendedorismo pode transformar trajetórias pessoais e econômicas.
“O empreendedorismo feminino transforma realidades, e a Kelly ilustra como a construção de uma jornada de conhecimento contínuo junto ao Sebrae se reflete diretamente na melhoria do produto, na experiência do cliente e, consequentemente, no aumento das vendas e na sustentabilidade do negócio.”
Cinco anos depois de nascer de uma ideia, durante um encontro com os pais da empreendedora, a farofa ganhou nome, identidade e mercado.
Hoje, presente em 13 cidades capixabas, entre elas, Jaguaré, São Mateus, Nova Venécia, Santa Teresa e Linhares, a Farofa da Kelly carrega na embalagem não apenas ingredientes, mas a prova de que uma lembrança afetiva pode se transformar em oportunidade de negócio.
Consultorias para empreendedores
A analista do Sebrae/ES, do escritório de São Mateus, Norte do Estado, Sarah Kretzschmar explica a importância da consultoria e acompanhamento para o sucesso dos negócios.
Ela conta que o Sebrae/ES dispõe de diversas consultorias que auxiliam o empreendedor desde a criação e registro da sua marca, até o fortalecimento da identidade, posicionamento e presença digital.
Tribuna Online - A Farofa da Kelly é um exemplo de negócio que saiu da produção artesanal para alcançar 13 municípios. Quais são os principais erros e acertos que o Sebrae identifica em empreendedores que tentam fazer essa mesma transição de escala?
Sarah Kretzschmar - O principal erro do empreendedor é quando ele está com a atenção focada no seu negócio produtivo e não consegue focar na prospecção de novos negócios e, consequentemente, não consegue escalonar seu negócio, perdendo oportunidade de mercado.
Tribuna Online - A consultoria do Sebrae ajudou a identificar problemas de exposição do produto nos pontos de venda. Quais são as demandas mais recorrentes que o Sebrae encontra entre pequenos empreendedores do setor alimentício no Espírito Santo?
Sarah Kretzschmar - Uma vez que é aberto o mercado, aberto um cliente novo, um supermercado, uma mercearia, uma loja, o principal ponto de atenção é em continuar a fazer a gestão do relacionamento com o ponto de venda.
Fazer uma boa gestão do relacionamento no ponto de venda vai permitir alcançar melhores lugares numa gôndola do supermercado, melhorar a exposição. Por isso, é importante fazer uma visita ao cliente, fazer uma degustação, conversar constantemente com o gerente de compras, com o repositor.
Ir ao mercado e observar o comportamento de compra do consumidor no ponto de venda também é muito importante. Associar o seu produto a outro produto que estimule o desejo como, por exemplo, a exposição de um café próximo à padaria, associar a venda de uma farofa próximo ao açougue, são estratégias importantes que mitigam problemas de exposição do produto no ponto de venda.
Tribuna Online - Quantos empreendedores capixabas foram atendidos pelo Sebrae nos últimos anos e quais resultados concretos têm sido observados em termos de aumento de faturamento, geração de empregos ou expansão de mercado?
Sarah Kretzschmar - Em 2025, o Programa Agente de Mercado foi executado no modelo piloto no Estado do Espírito Santo nas regiões Central, Serrana e Sul, atendendo 36 empresas e foi registrado uma média de aumento de faturamento de 20,91% das empresas participantes.
Em 2026, o projeto foi estendido para outras regiões. Em Jaguaré estão sendo atendidas 08 empresas, com ações em andamento e as medições serão contabilizadas ao final do programa.
Tribuna Online - Muitos empreendedores têm um bom produto, mas dificuldade para transformá-lo em marca. Que tipo de orientação o Sebrae oferece para fortalecer identidade, posicionamento e presença digital dos pequenos negócios?
Sarah Kretzschmar - O Sebrae/ES dispõe de diversas consultorias que auxiliam o empreendedor desde a criação e registro da sua marca, até o fortalecimento da identidade, posicionamento e presença digital como por exemplo consultoria de branding, consultorias de planejamento para presença digital, comunicação visual, criação (ou redesign) de marca com manual de identidade visual, dentre tantas outras.
Além das consultorias já existentes no portfólio do Sebrae, é possível, durante os nossos atendimentos, identificarmos a real necessidade do cliente e assim desenvolver algo personalizado de acordo com a solução que o cliente busca.
Tribuna Online - O caso da Farofa da Kelly mostra a importância da parceria entre Sebrae e prefeitura municipal. Como o Sebrae tem trabalhado com os municípios capixabas para identificar e desenvolver empreendimentos com potencial de crescimento, especialmente no interior do Estado?
Sarah Kretzschmar - Falando especificamente do município de Jaguaré, desde 2024 o Escritório Regional do Sebrae em São Mateus tem atuado junto à Prefeitura de Jaguaré para desenvolver as agroindústrias da região por meio de Programas como Agente Local de Inovação Rural (ALI RURAL), nos anos de 2024 e 2025, e Agente de Mercado, em 2026.
Agora em 2026, os objetivos do Programa desenvolvido são: conectar as Micro e Pequenas Empresas (MPEs) a novos compradores; acelerar a expansão comercial das MPEs; viabilizar oportunidades reais de negócios; e aumentar o faturamento das MPEs.
Com isso os clientes participantes recebem suporte especializado para aprimorar suas habilidades de gestão comercial e estratégias de negócios; Maior visibilidade de seus produtos no mercado; Apoio no processo de comercialização; e Oportunidades exclusivas para expandir sua base de negócios e aumentar suas vendas.
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