NR-01: empresas adotam o modelo híbrido para o reduzir estresse
Modelo híbrido se consolida no pós-pandemia ao unir flexibilidade, produtividade e ganhos comprovados para a saúde mental dos trabalhadores
O trabalho remoto se popularizou no Brasil durante a pandemia e, após a ela, segue presente na vida dos trabalhadores por meio do modelo híbrido, que tem se consolidado tanto pela eficiência quanto pela redução de problemas de saúde mental dos trabalhadores, segundo estudos e relatos de profissionais da área de Recursos Humanos.
O modelo híbrido é elogiado por especialistas por trazer a autonomia do trabalho remoto e a interação social e fortalecimento da cultura organizacional do presencial.
Gisélia Freitas, psicóloga e diretora de Liderança, Cultura e Diversidade do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do (Ibef-ES), explica que na prática, o modelo híbrido tem cumprido um papel relevante para a saúde mental porque responde a uma demanda real das pessoas por mais autonomia e equilíbrio.
Ela cita pesquisas recentes da Microsoft Work Trend Index e da Gartner que mostram que profissionais com algum grau de flexibilidade tendem a relatar menores níveis de estresse, mais sensação de controle sobre a rotina e maior engajamento.
“Trabalhar alguns dias em casa reduz tempo de deslocamento, fadiga e sobrecarga cotidiana. Ao mesmo tempo, a presença física mantém algo que é fundamental para o ser humano e para as organizações: a troca, o vínculo e o sentimento de pertencimento. Essa combinação, quando bem estruturada, tende a diminuir o desgaste emocional e não a aumentar o isolamento”.
Estudo recente realizado em conjunto por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade de Brasília (UnB) entre 2021 e 2025 também mostra essa realidade.
Segundo 78% dos entrevistados pelo levantamento, a economia de tempo e energia decorrente da ausência de deslocamentos contribuiu para a redução de estresse e cansaço.
A melhora na saúde mental também acaba por impactar positivamente na produtividade. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), empresas que adotaram o home office entre 2020 e 2023 relataram melhorias na produtividade.
“Não tem volta. O trabalho remoto, ainda que parcial durante a semana, veio para ficar, e o modelo híbrido parece ser o que mais traz equilíbrio, tanto aos trabalhadores quanto às empresas”, afirmou o vice-presidente da Federação do Comércio do Espírito Santo (Fecomércio-ES), José Carlos Bergamin.
“Trabalho remoto exige disciplina e foco”
Assistente na unidade de Integridade Corporativa do Sebrae, Christiane Rufino conta que o trabalho híbrido adotado pela empresa desde o fim da pandemia lhe trouxe conforto, flexibilidade e menos estresse.
“Eu perdia muitas horas no trânsito, fora o gasto com refeições fora de casa. Sinto que o modelo híbrido de trabalho me faz produzir melhor, porque acabo tendo menos distrações”, detalha.
Ela ressalta que o trabalho híbrido só funciona se houver comprometimento do trabalhador.
“É fundamental manter a disciplina e ser responsável, para não perder o foco, a produtividade e a confiança que a empresa lhe depositou”, afirma Christiane.
Flexibilidade ajuda a reter talentos
Empresas que mantêm o modelo exclusivamente presencial relatam maior dificuldade em atrair e reter talentos, especialmente nas áreas de tecnologia, marketing e recursos humanos, segundo pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV), divulgada no ano passado.
O levantamento foi realizado com executivos de diversos setores e indica que a flexibilidade conquistada durante a pandemia transformou-se em uma exigência permanente para profissionais e organizações. Além disso, mostrou que 85% das empresas do País devem adotar o modelo híbrido até o ano que vem.
“Para alguns setores, como por exemplo de tecnologia da informação, existe mais demanda do que oferta de profissionais. Se começarmos a restringir o modelo de trabalho que esses trabalhadores preferem, vão procurar outras empresas”, afirma o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Estado (ABIH-ES), Fernando Otávio Campos.
Segundo a psicóloga e especialista em gestão de pessoas e carreiras, Gisélia Freitas, o padrão tem sido convocar funcionários até a empresa para desenvolver projetos, e deixar os outros dias em trabalho remoto, para permitir foco no que foi planejado durante o presencial.
Saiba mais
Estudos
Uma série de levantamentos nacionais e internacionais têm relatado que o trabalho híbrido contribui positivamente para a saúde mental dos trabalhadores e também os torna mais produtivos.
Saúde mental
No Brasil, um Estudo feito em conjunto por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade de Brasília (UnB), entre 2021 e 2025, mostrou que a maioria dos trabalhadores considera que a economia de tempo e energia decorrente da ausência de deslocamentos contribui para a redução de estresse e cansaço.
66% dos trabalhadores brasileiros relataram melhora na saúde mental após a adoção do trabalho híbrido, segundo um estudo de 2025 publicado pelo site Empresas & Negócios.
Produtividade
69% dos profissionais reconhecem que seu desempenho está diretamente ligado ao seu estado emocional, mostra dados da SPC Brasil.
Um estudo do Instituto para Produtividade Corporativa e da empresa de cibersegurança Akamai Technologies mostram que impressionantes 83% das empresas com políticas de trabalho amigáveis ao remoto relatam alta produtividade dos funcionários. 21% desse grupo de empresas relatou que a produtividade é “muito alta” e 62%, “alta”.
Complementando esse cenário, uma análise do Great Place to Work apontou que colaboradores de empresas que incentivam o modelo remoto ou híbrido apresentam produtividade até 42% maior que a média.
O aumento no engajamento dos colaboradores que atuam no modelo de trabalho híbrido pode estar diretamente ligado à busca por mais conexão com os colegas de trabalho e com a sua liderança.
Segundo o Engaja S/A, os trabalhadores que atuam no modelo híbrido apresentaram maior engajamento na dimensão de Confiança na Liderança que chegou a um patamar expressivo neste modelo, passando de 51% para 62%, seguida pelo modelo remoto, que cresceu de 47% para 58%.
Trata-se da dimensão que mais move o ponteiro do engajamento no Brasil, de acordo com o estudo.
Análise
“Requisito para as organizações”
“Em meio a intensas transformações, o trabalho passou a impor maiores exigências cognitivas, emocionais e relacionais, ampliando os riscos de adoecimento psíquico. Esses fatores já estão entre as principais causas de afastamento, com reflexos diretos na produtividade, no absenteísmo e no presenteísmo.
Ignorar esse cenário impõe custos elevados. Estimativas apontam perdas bilionárias associadas à depressão e à ansiedade, enquanto investimentos em saúde mental mostram retornos consistentes. Reconhecer o tema como essencial exige ir além de medidas pontuais, integrando-o à estratégia organizacional, à formação de lideranças e à construção de ambientes seguros, empáticos e inclusivos.
Promover a prevenção, combater o estigma e assegurar apoio aos trabalhadores não é só imperativo ético, mas requisito para organizações responsáveis, produtivas e preparadas.”
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