Mais de 14 mil imóveis do ES em oferta no Airbnb
Locação de curta temporada pressiona aluguéis, reduz oferta para moradores e já força famílias a buscar outra moradia
O Espírito Santo já conta com 14.095 imóveis com anúncios ativos no Airbnb, segundo a GuestFavorites, plataforma de análises de anúncios. Somado a outros fatores, faz até com que famílias que moram de aluguel tenham de se mudar.
O crescimento de imóveis para a locação de curta temporada reduz a oferta de moradias tradicionais, eleva o preço dos aluguéis de longo prazo, tem disputa com o setor hoteleiro e altera a dinâmica de trânsito e circulação nos centros urbanos, segundo os especialistas.
O dado mostra que a locação de curta duração deixou de ser uma atividade eventual e se tornou uma atividade econômica relevante no cenário do turismo capixaba, segundo Fernando Otávio Campos, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Estado (ABIH-ES).
Mas afirmou que há concorrência direta com os hotéis, que possuem obrigações que imóveis de temporada não têm. “A ABIH-ES não quer impedir essa concorrência. Quer equilíbrio concorrencial”, disse.
Já o presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário do Espírito Santo (Ademi-ES), Alexandre Schubert, destacou que a locação na modalidade tem sido impulsionada pela expectativa do usuário por uma experiência diferente e pela escassez de alternativas de hotelaria que atendam a demanda.
As locações rápidas podem pressionar os preços dos aluguéis em algumas regiões, com a redução de imóveis de locação tradicional, disse o economista-chefe do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef-ES), Felipe Storch.
Em algumas regiões, como em Vitória, há proprietário que prefere pedir a desocupação do imóvel de anos por entender a defasagem do valor do aluguel, e anunciar para locações com preço ajustado ao mercado atual, apontou o presidente do Sindicato dos Corretores de Imóveis do Estado (Sindimóveis-ES), Erivelton Moreira.
A empresária do ramo de auto-escola Maria Isabel Lopes da Costa, 57 anos, tem um apartamento na Praia de Itaparica, em Vila Velha, que aluga pelo Airbnb há cerca de 1 ano, e pretende transformar a atividade em sua principal fonte de renda.
“Comprei o imóvel especificamente para esta finalidade, sem intenção de utilizá-lo como residência”. O Airbnb informou em nota que empresa e setor hoteleiro atendem a diferentes perfis de hóspedes e necessidades de viagem, atuando de forma complementar e que incentiva boas práticas em condomínios: “Que anfitriões compartilhem, de forma clara e antecipada, as regras com os seus hóspedes”.
“Gentrificação”
O avanço global da gentrificação ganhou uma perspectiva crítica e histórica na fala do ator e publicitário Antonio Tabet, que classifica o fenômeno como uma nova e silenciosa forma de “colonização imobiliária”.
Ele comentou em um vídeo que a especulação imobiliária e o avanço de plataformas de aluguel por temporada forçam a expulsão indireta de moradores antigos para regiões periféricas e citou o caso de Lisboa, onde o aluguel médio superou o salário médio local.
Mudou para Airbnb
O empresário Hamilton Ramos, 32, contou que já trabalha com aluguel por temporada há alguns anos, com o imóvel que fica na Praia do Morro, em Guarapari. E chegou a trabalhar com locação tradicional, por outros meios, antes do Airbnb. “O objetivo é ter renda extra. Já recebi pelos aplicativos famílias de Hamilton Ramos aluga imóvel na Praia do Morro, em Guarapari, por temporada.estados como Paraná, Mato Grosso e São Paulo, e países como a Holanda”.
Anúncios de Airbnb no ES
A plataforma Airbnb contabiliza 14.095 imóveis com anúncios ativos no Espírito Santo , segundo a GuestFavorites, plataforma de análises de anúncios. Alguns anúncios podem estar duplicados. Imóveis ativos no Airbnb no Estado faturam em média R$ 69.377 por ano, com taxa de ocupação típica de 46% e diária média de R$ 414.
Ao todo, o IBGE registra mais de 144 mil imóveis de uso ocasional no Espírito Santo, sendo que nem todo imóvel de uso ocasional é alugado.
Mobilidade urbana
- À medida que o aluguel de curta temporada se expande, o estoque de moradias convencionais pode acabar reduzido, pressionando os preços em determinadas regiões.
- Esse fenômeno, conhecido como “gentrificação”, faz com que os moradores tenham de realizar deslocamentos diários muito mais longos e demorados para chegar ao trabalho, sobrecarregando os sistemas que conectam os extremos da cidade aos centros urbanos, segundo os especialistas.
Saiba Mais
Impactos nas cidades
Esses negócios criam impactos econômicos nas cidades, no setor hoteleiro e no mercado imobiliário.
Proprietários retiram imóveis da locação residencial de longo prazo para focar em plataformas digitais de locação de curta duração.
A menor oferta de imóveis residenciais tradicionais pressiona e encarece o custo do aluguel residenciais de longo prazo nas cidades. Dados de julho do FipeZap mostraram que Vitória registrou 11,94% de alta dos aluguéis. As plataformas são apontadas como um dos fatores, ao lado do crescimento da renda, da oferta de novos imóveis, juros, valorização de bairros e demanda residencial.
Esse modelo de negócio, embora legítimo, tem criado intensos debates sobre seus impactos na economia das cidades. Tanto que diversas cidades pelo mundo – como Barcelona, Paris e Nova Iorque – vêm buscando medidas legais mais restritivas para locações por plataformas digitais.
No Brasil, o caminho é o mesmo. Para se ter ideia, em junho, a cidade do Rio tinha 48.193 anúncios no Airbnb. O bairro de Copacabana concentra a maior densidade de anúncios de aluguel por temporada por quilômetro quadrado do mundo, com 13.174 imóveis cadastrados.
Supervalorização
O valor do metro quadrado para compra em bairros com mais anúncios e procura por Airbnb infla artificialmente, pois o preço passa a ser calculado com base no potencial de lucro do imóvel no Airbnb, e não no poder de compra dos salários. Esse fator chama atenção de investidores e pode criar em determinadas regiões ou bairros essa espécie de “bolha”.
Setor imobiliário
Para o setor imobiliário, é notória uma mudança considerável no perfil do investidor de modo geral, que passou a enxergar o imóvel não apenas para valorização do bem, mas como um ativo rentável, que por muitas vezes sua locação paga o seu próprio financiamento.
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