Gestão do Casino e mudança de comportamento do consumidor: entenda a crise do GPA
Grupo Pão de Açucar fez pedido de recuperação extrajudicial e divulgou dívidas de R$ 4,5 bilhões
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O pedido de recuperação extrajudicial do GPA (Grupo Pão de Açúcar) é resultado de uma série de fatores, que passa pela entrada do Casino no negócio, decisões equivocadas e disputas entre acionistas, além de altas taxas de juros e mudanças relevantes no comportamento de consumo.
Em comunicado divulgado nesta terça-feira (10), a rede informou os acionistas que o plano abrange obrigações de pagamento sem garantia no montante total de aproximadamente R$ 4,5 bilhões.
O balanço do quarto trimestre de 2025 também indicou cerca de R$ 16 bilhões em disputas tributárias, classificadas como "perdas possíveis" e, portanto, não provisionadas. A companhia tem R$ 1,7 bilhão em dívidas com vencimento em 2026, e o capital de giro líquido estava negativo em R$ 1,2 bilhão.
Entenda em cinco pontos o que forçou o GPA, um dos maiores e mais tradicionais grupos varejistas do país, a tomar a decisão de pedir recuperação extrajudicial.
1 - QUEDA EM INVESTIMENTOS E VENDA DE ATIVOS
Analistas apontam que a entrada do grupo francês Casino como controlador do negócio em 2012 é uma das razões para a deterioração da situação financeira do GPA. O último ano dos franceses como controladores foi 2023.
O Casino deixou de investir no negócio ao longo dos anos e usou o capital para reduzir o endividamento do grupo, fruto de uma expansão mal calculada. Depois de se tornarem donos do GPA, os franceses compraram a totalidade da rede Monoprix, também francesa, e expandiram sua presença na América do Sul.
Consultores apontam que o dinheiro da venda da participação do GPA na Casas Bahia em 2019, por exemplo, foi usado na rede Êxito, varejista colombiana controlada pelo Casino e que chegou a ser sócia do GPA, além de ter negócios no Uruguai e na Argentina. Mas o próprio Êxito acabou vendido em 2024, ano em que o Casino também deixou de ser controlador do GPA, após um aumento de capital do grupo.
Como mostrou reportagem da Folha de S.Paulo, analistas e consultores avaliam que o Casino se desfez de diversos ativos do GPA, como redes de farmácias e postos de combustíveis, mas deixou a dívida dessas empresas com o grupo.
2- O ANTES E DEPOIS DO CASINO
Em 2012, o GPA era um grupo com receita bruta de R$ 57 bilhões, sendo R$ 31 bilhões apenas no segmento alimentar. Além do Pão de Açúcar, o grupo era dono das bandeiras Extra e Assaí, sócio de Casas Bahia e Ponto Frio —com as quais também operava no comércio eletrônico— e tinha ainda os sites Barateiro, E-Hub e Partiu Viagens. Aos negócios, se somavam uma rede de drogarias e postos de combustíveis.
Ao todo, eram 1.882 lojas, com área bruta de vendas de 2,9 milhões m² e 151 mil funcionários. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) somava R$ 3,6 bilhões, e o lucro líquido havia atingido R$ 1,1 bilhão. No ano, foram investidos R$ 700 milhões para abrir 101 lojas.
Ao fim de 2023, o cenário era diferente. O GPA registrou receita bruta de R$ 20,6 bilhões, queda de 64% sobre 2012. Hoje o grupo é dedicado apenas ao varejo alimentar, com Pão de Açúcar e Extra.
Em relação a 2012, a rede de lojas caiu mais da metade, para 728, com área de vendas de 548 mil m². Em 2025, foram abertas 23 lojas e fechadas 20. Como resultado, a receita bruta somou R$ 20,6 bilhões —ou seja, 33% inferior às vendas de 2012, considerando apenas o segmento alimentar. O Ebitda foi de R$ 1,7 bilhão e o prejuízo atingiu R$ 824 milhões. Hoje são 37 mil colaboradores.
3- BRIGA DE ACIONISTAS
O Pão de Açúcar foi palco de um embate envolvendo o antigo controlador, o empresário Abilio Diniz (morto em 2024), e Jean-Charles Naouri.
Em 2011, Abilio propôs uma fusão com o Carrefour, arquirrival do Casino, para continuar no comando executivo do GPA. O plano criaria um gigante avaliado em US$ 41,9 bilhões. Mas o Casino vetou o acordo e Naouri acabou assumindo a presidência do Pão de Açúcar.
Entre 2024 e o início de 2025, o Casino foi abrindo mão da sua participação no GPA e saiu do controle da rede, mas continuou como principal acionista.
Essa posição mudou em maio do ano passado, quando a família Coelho Diniz, dedicada ao varejo no interior de Minas Gerais, se tornou o acionista mais relevante do grupo, somando 24,6% de participação.
4- JUROS ELEVADOS E MUDANÇA DE COMPORTAMENTO
Contam ainda para a crise da rede varejista a taxa básica de juros (Selic) em patamar elevado —hoje em 15% ao ano— por tempo prolongado, que aumenta a dívida líquida das varejistas em geral.
Mudanças no comportamento do consumidor, que passou a variar mais entre os diversos canais —atacarejo, farmácia, varejinho de bairro, ecommerce— também contribuíram para um ambiente muito mais competitivo.
5- REDES REGIONAIS GANHANDO PESO
Para agravar um cenário já complexo para o GPA, redes regionais de varejo começaram a ganhar mais musculatura no mercado. No ano passado, o mineiro Supermercados BH ultrapassou o Pão de Açúcar e se tornou a quarta maior rede varejista do país, atrás de Carrefour, Assaí e Grupo Mateus (este último também regional, com sede no Maranhão).
ANALISTAS VEEM PONTOS POSITIVOS NO GPA
Apesar da conjuntura ruim para o GPA, a avaliação de analistas é que o grupo tem uma marca forte, com um amplo programa de relacionamento (Cliente Mais), marca própria consolidada (Qualitá), lojas em pontos estratégicos de 11 capitais e no Distrito Federal, além de uma operação online lucrativa.
No fim do ano passado, o GPA anunciou um plano de corte de custos, despesas e investimentos para 2026, prevendo redução dos desembolsos para entre R$ 300 milhões e R$ 350 milhões. No terceiro trimestre, a empresa concluiu a segunda etapa de um processo de simplificação da estrutura administrativa, que resultou no corte de 700 empregos.
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