Falta de profissionais qualificados ameaça crescimento do mercado de games no ES
Insuficiência de profissionais especializados preocupa empresários do setor, que alertam para o risco de um apagão de mão de obra qualificada
Se não houver formação, nos próximos anos estaremos diante de um apagão de mão de obra qualificada no setor de jogos do Estado. É o que avalia Victor Hugo Körting, desenvolvedor de jogos e vice-presidente da Associação Gamedev-ES.
“Acredito que hoje a maior deficiência do Estado no setor de jogos é falta de formação de mão de obra qualificada. Estamos vendo um apagão se não tivermos um curso superior. As empresas já têm um programa para criação porque falta uma instituição que abrace”.
Ele explica que no Estado há o curso de Programação de Jogos Digitais no Centro Estadual de Educação Técnica Vasco Coutinho, em Vila Velha, que tem Saulo Caliman como coordenador matutino. Já o Salesiano - Centro Universitário Católico acaba de abrir uma turma para 2027.
Para Victor, o Marco Legal, além de gerar empregos e vagas de trabalho, vai fortalecer o argumento perante instituições educacionais públicas da necessidade de formação.
Fabiano de Paula, que atua no mercado há 15 anos, é fundador do Quimera Game Studio e do Punk Crush Games, e avalia que encontrar profissionais em áreas específicas a exemplo de especialista em marketing digital para jogos é difícil.
“Se você me perguntar: 'um que você coloca, contrata e ele vai conseguir fazer a publicidade do seu jogo'. Isso não consigo achar no Estado. Isso você vai ter que ir para São Paulo, para Brasília para encontrar”.
Sobre programadores e artistas, acredita que não falta. Porém, há um ponto a considerar: “Os melhores profissionais não estão trabalhando para o Estado, mas para fora. Ás vezes, você tem um programador e artista muito bom, mas ele está recebendo em dólar trabalhando de casa”.
O mercado de games pode impulsionar a economia capixaba com a formação de profissionais para outras áreas da tecnologia. É o que avalia Bruno Ross, CEO e fundador da startup Prisma, que atua com educação tecnológica, eventos de eSports e desenvolvimento de sistemas.
“Um desenvolvedor ou um programador não aprendem somente jogos, não fica limitado a uma área de conhecimento. Desenvolve um jogo e desenvolve também um sistema”, afirma.
Na avaliação do empresário, esse conhecimento pode ser aproveitado por empresas de outros setores como indústria, logística e comércio. “A gente vai formar pessoas que podem, no futuro, até não ir diretamente para os games e podem abastecer esse mercado, que está faltando mão de obra”, explica.
Desenvolvedora de jogos
Jessica Duque já sabia desde os 12 anos que queria ser desenvolvedora. Mas foi no curso do Vasco Coutinho que descobriu um caminho para por em andamento o sonho. Hoje, aos 22 anos, está prestes a lançar sua demo, cujo protótipo foi feito com os R$ 100 mil de um edital do Funcultura. O recurso lhe ajudou a contratar outros profissionais, como a artista Jennifer Duque e o programador Rafael Leão, e formar seu estúdio, a Amara. Seu jogo, homônimo, é uma simulação de cafeteria em um mundo de gatos. O conhecimento sobre editais, conta Jessica, adquiriu no curso.
“Estúdios talentosos e projetos de qualidade”
Lucas Dalcolmo, fundador da Dallm Games, enxerga o Marco Legal com otimismo e como uma grande oportunidade para o mercado capixaba. “Temos estúdios talentosos, projetos de qualidade e um ecossistema que vem amadurecendo”, diz. Ressalta que também é preciso avançar em outros pontos, como criar mecanismos que aproximem patrocinadores dos pequenos desenvolvedores. “Um banco de potenciais patrocinadores ou uma plataforma que facilite a apresentação de projetos e a solicitação de patrocínio já faria uma diferença enorme. Caso contrário, corremos o risco de criar novos mecanismos de incentivo, mas manter o mesmo gargalo na captação”, diz.
Lançamentos capixabas com alcance internacional
Se criar um estúdio de jogos já é difícil, captar recursos para desenvolvê-lo também não é uma tarefa muito fácil. Mas torná-lo internacional parece uma tarefa hercúlea para uma empresa capixaba.
A Mito Games conseguiu ambos em seus 10 anos de existência: está atuando no mercado internacional fazendo a portabilidade de um jogo da Bélgica, e foi a única empresa brasileira a ser contemplada no Programa Horizon Europe, de Pesquisa e Inovação, da União Europeia.
Atualmente, um dos sócios fundadores, o Rafael Lontra, está na Bélgica. É ele quem está organizando a portabilidade do Blood Bar Tycon, um jogo belga para PC, onde o jogador é dono de um bar de vampiros. Mas o que significa portar? Na prática, a Mito Games vai adaptar o jogo para videogames como Xbox e Playstation.
“Eu vi jogos lá (na Bélgica) que estavam sendo lançados para computador. Depois tem um trabalho para adaptar para o videogame. Precisa de um hardware específicio. A Mito Games conseguiu os kits de desenvolvimento para publicar”, afirma. “É bem exclusivo”, completa.
Já o projeto que a Mito Games vai realizar se chama “Medidas de adaptação e mitigação da perda de biodiversidade: políticas, governança e ferramentas para promover mudanças transformadoras”.
7 dicas para entrar no mundo dos gamers
1 - Comece pequeno, mas mostre seu potencial
Não espere ter um jogo completo para apresentar seu trabalho. Monte um portfólio com desenhos, códigos, animações ou pequenos projetos. Ele ajuda a demonstrar suas habilidades, inclusive para quem pretende concorrer a editais.
2 - Conheça os caminhos para conseguir financiamento
Editais públicos podem ajudar a transformar uma ideia em jogo, financiar a criação de protótipos e permitir que projetos avancem para outras etapas. No Espírito Santo, acompanhe as seleções da Secretaria da Cultura (Secult-ES).
3 - Não espere ter um jogo pronto para concorrer
Alguns editais financiam justamente a criação de um protótipo. Por isso, confira em que estágio o projeto precisa estar e quais materiais são exigidos. Em uma seleção mencionada por um dos entrevistados, havia uma linha de
R$ 50 mil para protótipos e outra de R$ 200 mil para projetos que já tinham essa versão inicial.
4 - Mostre o que seu jogo tem de diferente
Uma proposta precisa ter identidade. Pode ser uma mecânica inovadora, um tema pouco explorado ou uma forma original de contar uma história.
5 - Escolha bem a equipe e planeje os gastos
Desenvolver um jogo envolve diferentes profissionais, como programadores, artistas e responsáveis pela narrativa e divulgação. Defina as funções de cada integrante e formalize a participação da equipe conforme as regras do edital. Planeje também como o dinheiro será distribuído entre as etapas do projeto.
6 - Faça contatos e aprenda com quem já está no mercado
Participe de eventos, acompanhe estúdios e se aproxime de associações e comunidades de desenvolvedores. Além de trocar experiências, esses contatos podem ajudar a encontrar parceiros e conhecer oportunidades. Cursos e tutoriais também são caminhos para descobrir as diferentes funções da indústria e escolher por onde começar.
7 - Persista e pense além da aprovação
Uma proposta recusada não precisa ser o fim do caminho. Uma desenvolvedora capixaba tentou se inscrever em editais duas ou três vezes antes de conseguir R$ 100 mil para desenvolver o protótipo de seu jogo. E, mesmo depois de receber o recurso, é preciso planejar os próximos passos: testar, aprimorar, divulgar e buscar caminhos para chegar ao público.
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