Falta de incentivos ameaça investimentos na região Sul
Superintendente do Banco do Nordeste defende levar crédito com juros de 6% a 7% ao ano e revela procura da GWM pela instituição
Investimentos anunciados para o Sul capixaba correm o risco de ir para outras regiões por falta de incentivos fiscais. O alerta é do superintendente estadual do Banco do Nordeste (BNB), Lourenzo de Oliveira, que relata essa preocupação de empresários e lideranças políticas.
Natural de Itapemirim, ele vê sinais de estagnação econômica no Sul em comparação com o Norte do Estado. Ao videocast Histórias Empresariais, Lourenzo defendeu ampliar a todo o Espírito Santo o acesso aos recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), hoje disponíveis em parte dos municípios capixabas.
Ele citou financiamentos com juros de 6% a 7% ao ano, dois anos de carência e prazo de 12 anos para pagamento. A expansão territorial depende da aprovação de um projeto de lei, mas essas condições de crédito já existem nas áreas atendidas pelo fundo.
O executivo revelou ainda que a montadora chinesa GWM já procurou o banco e falou sobre financiamento de projetos de energia solar e uso de inteligência artificial. A perspectiva de abertura de uma agência em Aracruz também foi mencionada na conversa.
A Tribuna – O Espírito Santo tem a possibilidade de ter todo o território incluído na Sudene. É um projeto de lei, e já ouvi opiniões divididas. O senhor acredita que ele pode ser aprovado?
Lourenzo de Oliveira – É preciso sensibilizar a bancada. Sempre se focou na Sudene, mas a preocupação da bancada nordestina é com o FNE, com o dinheiro. Existe uma máxima de que cada estado tem direito a, no mínimo, 5%. Nós só estamos utilizando 1,9%. Se com 1,9% estou emprestando bem para o Norte do Espírito Santo, com 5% empresto para o Estado todo. A ideia é um projeto que limite a 5% e inclua o Estado inteiro. Pelo que converso com deputados, tem tido boa aceitação na bancada nordestina.
Ouço de empresários do Sul, autoridades e lideranças políticas que a região está ficando desguarnecida. Há grandes investimentos anunciados, que não convém citar, e receio de que se percam, que vão para outras regiões por falta de incentivos fiscais. Eu sou do Sul, nasci em Itapemirim. Quando saí do Espírito Santo, em 1995, o Sul era mais desenvolvido que o Norte.
Hoje vemos uma estagnação do Sul. Acredito que o setor de rochas ainda segura mais a região. Estive recentemente no Caparaó e observei diferenças na agricultura. No Norte, há propriedades mecanizadas, com os filhos assumindo os negócios. No Sul, ainda vejo pessoas mais idosas à frente e menos mecanização.
Acredito que isso tenha relação com o crédito. Imagine juros de 6% a 7% ao ano, dois anos de carência e prestações anuais durante 12 anos. Isso dá condições de investir, produzir e pagar.
Qual é o papel da Selic, em níveis tão altos (13,75% ao ano), para o empreendedor? Como o Banco do Nordeste, que é um banco de fomento, ajuda?
Não somos indexados pela Selic. Nós somos metade da Selic. Para uma pequena empresa, ninguém vai emprestar à taxa Selic, vai ser acima dela. Imagine 24%, 25%. A agricultura não paga isso. Para capital de giro, temos taxas de 0,9% ao mês, às vezes 0,8%.
Quando misturamos recursos do FNE com recursos internos, conseguimos reduzir a taxa. Mas há diferença entre pegar crédito para comprar mercadoria com desconto e pagar depois das vendas e pegar para cobrir o que não está conseguindo pagar. Nesse caso, a dívida vai virando uma bola de neve.
O Estado tem anúncios da GWM e da E-Motors. Como o Banco do Nordeste vê esse desenvolvimento? Está de portas abertas para financiar esses grandes projetos?
Já fomos procurados pela GWM, em São Paulo. Ela entrou em contato com nossa agência de captação de investimentos. Como não temos agências bancárias em São Paulo e no Rio de Janeiro, temos essas agências de captação. Nós temos o recurso e o prazo.
Acredito que, quando começarem as obras, seremos procurados. Toda indústria que vem para o Espírito Santo nos procura.
As dificuldades na geração de energia solar têm travado projetos, devido a sobrecargas no sistema. Como o banco vê esse desafio? Isso tem atrapalhado a oferta de crédito, sendo que o BNB tem uma linha específica para esse tipo de projeto?
Para as empresas e os grandes projetos de geração, precisamos analisar de forma diferente. Acho que o setor precisa de uma regulamentação melhor. Uma das soluções são as baterias. Também temos pedido para priorizar o financiamento de linhas de transmissão.
Um dos problemas da energia solar, assim como da eólica, é a transmissão. Às vezes, a energia é gerada, mas não chega ao sistema.
O senhor tem geração solar em casa, certo? A economia chega a quanto?
Tenho seis aparelhos de ar-condicionado, uso o dia inteiro e pago R$ 120 ao mês. Dois aparelhos de 24 mil BTUs ficam ligados o dia todo, fora os quartos à noite. Acho que, sem energia solar, pagaria uns R$ 2 mil por mês.
Com tantos bancos digitais, o BNB pretende digitalizar mais os serviços ou manter o atendimento pessoal?
Não temos como fugir da Inteligência Artificial. Já usamos em processos de análise de escrituras e certidões. Os documentos são digitalizados e temos agências sem papel. Mas o público com que trabalhamos ainda precisa, às vezes, do olho no olho. Você precisa visitar a empresa.
Já existem sistemas que permitem usar fotos georreferenciadas e imagens de satélite para acompanhar propriedades. Essas mudanças estão acontecendo.
O senhor nasceu em Itapemirim e iniciou carreira na Bahia. Conte-nos essa história? E o que gosta de fazer nas horas vagas?
Fui estudar Engenharia Civil em São Paulo e depois me transferi para uma universidade em Feira de Santana. Fiz o concurso do banco em 2004 e tomei posse em fevereiro de 2005, em Paulo Afonso. Depois trabalhei em Luís Eduardo Magalhães, Conceição do Coité e outras cidades da Bahia.
Minha carreira toda foi feita lá. Nem pensava mais em voltar para o Espírito Santo. Quando surgiu o convite, aceitei. Voltei em junho de 2023 e hoje não penso mais em sair. Gosto de ler, ver filmes e estar com a família. Sou muito caseiro.
Perfil
Lourenzo de Oliveira, superintendente estadual do Banco do Nordeste, tem 51 anos e nasceu em Itapemirim.
Formação: estudou engenharia civil em São Paulo e na Bahia. Aprovado em concurso no BNB, tomou posse em fevereiro de 2005.
Trabalhou em Paulo Afonso, Luís Eduardo Magalhães, Conceição do Coité e outras cidades baianas.
Passatempos: leitura, cinema e convivência com a família.
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