“ES tem tudo para virar uma potência no turismo”, diz Rony Stefano
Rony Stefano aponta o litoral e as montanhas como locais para novos projetos e prevê que a IA ameace Booking, Expedia e Airbnb
Praias, montanhas, localização estratégica, grandes projetos industriais e mercado imobiliário em expansão. Para o diretor financeiro da Adit Brasil, Rony Stefano, o Espírito Santo reúne praticamente todos os elementos para se consolidar entre os principais destinos turísticos do País.
O desafio, segundo ele, é transformar esse potencial em projetos capazes de atrair grandes investimentos privados. A combinação entre infraestrutura, políticas públicas e atuação da iniciativa privada pode colocar o Espírito Santo em um novo patamar de desenvolvimento, repetindo experiências bem-sucedidas observadas em outras regiões do País, disse ele.
Esses temas estarão no centro do Adit Invest, que será realizado na próxima quinta-feira (13) e sexta-feira (14), no Centro de Convenções de Vitória.
O evento reunirá investidores, incorporadores, operadores hoteleiros, instituições financeiras e especialistas em desenvolvimento imobiliário e turístico.
Na entrevista ao Histórias Empresariais, Stefano fez uma previsão ousada: a inteligência artificial tende a mudar profundamente o setor e poderá tornar desnecessárias plataformas hoje dominantes, como Booking, Expedia e Airbnb.
A Tribuna — O Estado entrou no radar da Adit por quê?
Rony Stefano — O Estado vive forte valorização imobiliária e recebe grandes investimentos em petróleo, mineração, energia e outras commodities. Eu diria até que esse boom demorou para chegar. Além disso, tem praias, montanhas, gastronomia fantástica e localização privilegiada. Escolhemos Vitória para apresentar a associação e aproximar empresários e investidores.
Como funciona o evento?
A Adit reúne empresários para trocar experiências, além de bancos, fundos e instituições financeiras, que mostram como captar recursos e estruturar projetos. No segundo dia, um workshop ensinará a preparar projetos para receber investimentos.
O Espírito Santo tem atrativos suficientes para se tornar um grande destino turístico?
Sempre me perguntei por que um Estado com tanta beleza natural ainda recebe poucos turistas. Passei parte da infância aqui e conheço o potencial. O empresariado é dinâmico, o governo incentiva o setor e há oportunidades no litoral e nas montanhas, além da proximidade dos grandes centros consumidores.
O voo direto previsto entre Vitória e Buenos Aires, programado para outubro, pode acelerar esse desenvolvimento?
Sem dúvida. Os argentinos são o principal grupo de turistas estrangeiros do Brasil e, em vários destinos, também compram imóveis e investem. Um voo direto amplia esse fluxo.
Temos associados que vendem empreendimentos em Buenos Aires, então vejo enorme potencial para o Espírito Santo.
Há algum novo projeto imobiliário ou hoteleiro perto de se tornar concreto no Estado?
Que eu possa divulgar, não. Mas conheço projetos de residenciais para idosos, segmento que tende a crescer com o envelhecimento da população e para o qual o Espírito Santo tem características favoráveis. Há também o desenvolvimento de Vila Velha e projetos logísticos em Ubu, Aracruz e Linhares. O Estado tem uma infraestrutura logística fantástica.
Além do turismo de lazer, o Estado tem uma vocação forte para o turismo de negócios?
Sem dúvida. O Espírito Santo tem vocação para grandes empresas e negócios, com Vale, ArcelorMittal, Petrobras e uma infraestrutura logística que atende ao País.
Enquanto esse setor avança, o turismo de lazer ainda é pouco explorado e tem potencial exponencial. Para crescer, precisa de boa malha aérea e hotéis. Simpatia, culinária e beleza já temos. É questão de tempo para o Estado estar entre os primeiros do ranking brasileiro.
A escolha do Espírito Santo para sediar o evento já indica um olhar diferenciado para o Estado no turismo?
Com certeza. O potencial é absurdo. Com a reforma tributária, o consumo ganha relevância para estados produtores como o Espírito Santo. O Rio Grande do Sul, por exemplo, prevê investimentos elevados em turismo nos próximos anos. Uma discussão semelhante faz sentido aqui. O potencial existe, mas é preciso executar bem e acelerar os processos.
O que falta para o Estado atingir esse potencial e se tornar um dos principais polos turísticos do Brasil?
É preciso criar uma ponte entre poder público e iniciativa privada. No Polo Cabo Branco, na Paraíba, leis e incentivos ajudaram a atrair cerca de R$ 30 bilhões em hotéis, parque aquático, restaurantes e outros projetos. Em Olímpia (SP), o alinhamento entre empresas, Estado e prefeitura levou a cerca de 7 mil quartos de hotel e até investimento em aeroporto internacional.
E quais regiões capixabas se destacam nesse potencial?
Sou apaixonado por Anchieta, Iriri e Guarapari. Domingos Martins é muito charmosa, e há grande potencial no norte, além de Itaúnas e Santa Teresa.
Os atributos estão aqui: beleza, gastronomia e um povo acolhedor. Falta coordenação entre iniciativa privada e poder público.
Qual é o efeito de plataformas como Airbnb e Booking sobre o setor hoteleiro?
Booking, Expedia e Airbnb são grandes casos de sucesso e, hoje, essenciais. Antes era preciso ligar para o hotel, mandar e-mail e até comprovante por fax. Hoje tudo é rápido. Quanto mais simples reservar, fazer check-in e check-out, maior tende a ser a ocupação.
O problema é que uma posição muito forte pode levar a abusos, como aumento de comissões.
Mas a Inteligência Artificial pode mudar esse cenário?
Completamente. Em breve, o próprio assistente de inteligência artificial, como ChatGPT ou Gemini, poderá fazer a reserva diretamente. Se os hotéis conectarem sistemas a esses assistentes, Booking, Expedia e Airbnb correm um risco muito alto de desaparecer.
Então essas empresas podem realmente desaparecer?
Mudanças tecnológicas podem provocar isso. Por isso, essas plataformas precisam investir em pagamento e fidelização ou correm o risco de desaparecer. Com a IA, todo intermediário enfrenta esse risco. É uma grande revolução para os próximos anos.
Como seria na prática?
Você dirá ao agente: “Preciso de um hotel no Rio, nessa região e com este orçamento”. Ele conhecerá suas preferências, pesquisará e indicará a melhor opção. Fiz isso recentemente nos Estados Unidos: pedi que comparasse hotéis e mostrasse a forma mais barata de reservar. Ele indicou o site do hotel, e reservei diretamente. No futuro, meu cartão estará no agente e ele fará até o pagamento.
Perfil
Rony Stefano
Diretor financeiro da Adit Brasil.
Executivo do mercado financeiro e atuante no mercado de ações.
Trabalha com novas tecnologias, inteligência artificial, compra e venda de ativos e tem mandato de um grande grupo para aquisição de hotéis. Fez mestrado em Singapura.
Família: Casado com uma lituana, tem duas filhas, que falam lituano. Uma delas tem uma banda de rock.
Rock n'roll é um de seus hobbies.
Curiosidades
Rock na veia!
O rock'n'roll é uma das grandes paixões de Rony Stefano, que mantém em casa livros sobre o gênero, incluindo um sobre Paul Stanley, do Kiss. Nas horas vagas, promove shows com amigos e, no ano passado, participou da vinda de Marky Ramone (foto) ao Brasil. Uma das filhas canta na banda High Locks.
Conexão lituana
Os anos vividos no exterior também marcaram a vida pessoal de Rony. Ele se casou com uma lituana e o casal tem duas filhas, que falam o idioma da mãe. A ligação com o país continua forte: o executivo conta que costuma passar períodos na Lituânia e brinca que enfrenta até o rigoroso inverno de lá.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários