Ter mais de uma carreira será cada vez mais comum, dizem especialistas
Tendência deve se tornar cada vez mais comum nos próximos anos, com cada vez mais profissionais apostando em uma segunda ou até terceira carreira
Ter uma única profissão durante toda a vida está deixando de ser a regra. Impulsionados pelas transformações do mercado de trabalho, pelo aumento da expectativa de vida e pela necessidade de atualização constante, cada vez mais profissionais têm apostado em uma segunda ou até terceira carreira. Para especialistas, essa tendência deve se tornar cada vez mais comum nos próximos anos.
“Hoje, é comum que uma pessoa tenha várias carreiras ao longo da vida. Isso significa que a requalificação deixará de ser uma exceção para se tornar parte natural da trajetória profissional. Quem desenvolver o hábito de aprender continuamente terá mais condições de se adaptar às mudanças e aproveitar novas oportunidades no mercado de trabalho”, afirma o professor e doutor Rafael Galvêas, orientador de carreira.
Ele aponta que a velocidade das mudanças tecnológicas, a transformação digital e o aumento da expectativa de vida fazem com que a aprendizagem contínua seja uma necessidade.
Outra ideia que ficou no passado é de estudar apenas no início da carreira. “Hoje, aprender continuamente deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade”, ressalta a psicóloga especialista em Pessoas e Carreiras Gisélia Freitas.
“Independentemente da idade, quem mantém uma postura de aprendizado contínuo tende a permanecer mais competitivo e preparado para aproveitar novas oportunidades”, destaca.
E não adianta usar como desculpa a falta de dinheiro ou tempo, segundo a especialista. “Hoje existe uma variedade enorme de opções baratas e acessíveis, como o modelo online. A educação ao longo da vida será cada vez mais uma característica dos profissionais que desejam construir carreiras sustentáveis”.
O economista Ricardo Paixão, presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon- ES), analisa ainda que a parcela da população com 60 anos ou mais passou de 8,7%, em 2000, para 15,6%, em 2023.
“Segundo o IBGE, pode chegar a 37,8% em 2070. Ao mesmo tempo, a expectativa de vida aumenta. Isso significa que teremos pessoas permanecendo economicamente ativas por mais tempo”.
“Nesse contexto, chegar aos 40 ou 50 anos já não significa estar próximo do fim da trajetória profissional. Pelo contrário, muitas pessoas ainda terão 15, 20 ou até 25 anos de vida laboral pela frente. Por isso, o curso técnico passa a cumprir também uma função de requalificação e reconversão profissional”, destaca.
Vale lembrar que a educação profissional alcançou 3,1 milhões de matrículas em cursos técnicos em 2025, o maior número da série histórica.
Mais conhecimento
Com 45 anos, Ronaldo Perini já tem algumas formações em seu currículo: bacharel em Direito, técnico em Mecatrônica, técnico em instalação e manutenção em refrigeração (cursado na Argentina) e agora cursa técnico em Refrigeração, além de estar fazendo faculdade de Engenharia Elétrica.
“Hoje, pessoas com um pouco mais de idade e sem experiência não têm muitas oportunidades. Estou buscando me especializar e buscar mais conhecimento para poder trabalhar como autônomo”, afirmou Ronaldo.
Sonho realizado
O sonho de cursar o técnico em Enfermagem foi o principal motivador para que Maria de Fátima Souza, de 46 anos (em pé), voltasse para a sala de aula em 2022 e concluísse o ensino fundamental e médio. Hoje, ela se prepara para a conclusão do curso. “Espero muito com esse curso poder ter a oportunidade de entrar para a área, colocar em prática o meu aprendizado e ajudar as pessoas”.
Já Flávia Pestana, 48, busca no curso uma profissão e melhor condição de vida. “Sempre gostei da área da saúde, mas não tive a oportunidade de fazer o curso”.
Valorização da experiência
Em um momento em que mais profissionais acima dos 40 anos voltam a estudar, eles ainda enfrentam um obstáculo: o preconceito etário. Apesar disso, especialistas observam uma mudança gradual no mercado, que começa a valorizar a experiência e as habilidades desenvolvidas ao longo da carreira.
“Quando o profissional soma sua vivência a uma qualificação atualizada, ele passa a oferecer algo muito difícil de encontrar: conhecimento técnico, maturidade, responsabilidade e capacidade de resolver problemas. O mercado, cada vez mais, busca profissionais que levem resultados”, afirma a psicóloga especialista em Pessoas e Carreiras Gisélia Freitas.
Rafael Galvêas, orientador de carreira, analisa que a receptividade do mercado a esses profissionais tem sido positiva, especialmente em áreas com déficit de mão de obra qualificada.
“Muitos profissionais maduros conseguem se destacar justamente porque unem conhecimento técnico recém-adquirido com anos de vivência prática, algo que profissionais mais jovens ainda estão construindo”.
Quanto à procura por mão de obra qualificada, o economista Ricardo Paixão, presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon- ES), aponta que o Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027 mostra que somente cinco áreas – logística e transporte, construção, operação industrial, metalmecânica e manutenção e reparação – deverão concentrar 52% da demanda futura por formação profissional. “Com certeza existe espaço para profissionais com mais de 40 anos”.
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