Desistência e mobilização contra importação africana de cacau para o ES
Produtores enfrentam risco de abandonar plantações e reduzir investimentos devido à concorrência com amêndoas importadas
Afetados pela disseminação da vassoura-de-bruxa em décadas passadas, produtores de cacau do Espírito Santo e da Bahia agora enfrentam risco de abandonar plantações e reduzir investimentos devido à concorrência com amêndoas de cacau importadas de países da África.
É o que conta o secretário-executivo da Associação dos Cacauicultores do Espírito Santo (Acau), André Luiz Scampini, que aponta para um setor em recuperação, animado com a alta dos preços em 2024 e 2025, mas que se mostra preocupado com a atual circunstância.
Uma remessa de amêndoas de cacau que chegou na semana passada no porto de Ilhéus, na Bahia, vinda de países da África, foi o estopim para uma série de protestos de produtores da Bahia e agora do Espírito Santo.
Uma manifestação de produtores foi agendada para ocorrer no pátio de uma empresa no próximo sábado, em Linhares, como reivindicação para mudança nas regras que permitem a importação da commodity agrícola.
O produtor Emir Gomes Filho, de Linhares, relata que o preço da tonelada da amêndoa chegou a cair 200%, influenciado pela concorrência com o produto importado.
“Em 2025, nós chegamos a comercializar por 12 mil dólares a tonelada. Chegou a dar R$ 4 mil a saca. Hoje está dando 4,1 mil dólares a tonelada, que as indústrias estão pagando em torno de R$ 1 mil a saca. E o nosso custo de produção está chegando a quase R$ 20 o quilo”, comenta.
Para o empresário, o ideal é a não comercialização das amêndoas do cacau. “Os preços praticados estão abaixo do nosso custo de produção. Hoje nós estamos pensando não mais em investir para produzir, mas em administrar para diminuir os prejuízos”, diz.
Um movimento está sendo feito no Congresso para pressionar o governo a adotar medidas para impedir que o cacau importado prejudique os produtores brasileiros.
“Nós estamos fazendo um movimento de vários deputados de estados produtores de cacau para poder resolver a questão da Instrução Normativa 125, para ter uma redução na importação do cacau africano para o Brasil”, afirma o deputado federal Gilson Daniel.
Repasse de mudas para enfrentar prejuízos
Para lidar com a dificuldade dos produtores, Linhares tem adotado estratégias como distribuição de mudas subsidiadas, apoio à secagem e fermentação e promovido concursos de qualidade, conta o vice-prefeito e secretário de Desenvolvimento, Franco Fiorot.
Em 2025, cerca de 30 mil mudas foram distribuídas, principalmente para agricultores familiares.
A gestão reconhece, porém, que o apoio ainda precisa ser ampliado. “O nosso parque de produção de cacau é bem extenso. A gente precisa e vamos potencializar isso”, afirma.
Fioroti defende uma política clara para estoque e identificação da necessidade real de importação. “A gente não tem estimativas adequadas de safras, não tem uma política que defina qual a necessidade dessa importação. Nós temos uma produção significativa no País. Precisa ter clareza de qual é essa necessidade”, pontua.
O cacau é o segundo produto mais importante para o Produto Interno Bruto (PIB) de Linhares, perdendo apenas para o café. Isso reforça, segundo o vice-prefeito, o apoio da gestão à manifestação dos produtores.
Segundo ele, o foco da manifestação é chamar a atenção e pressionar o governo federal para revisar a instrução normativa que flexibiliza regras sanitárias.
Em 2021, o Ministério da Agricultura e Pesca publicou a IN nº 125 que suspendeu a fumigação das amêndoas de cacau importadas da África com a substância “brometo de metila” no pré-embarque — mas manteve no pós-embarque, ou seja, no Brasil.
O produto combate insetos, evitando que pragas e doenças venham junto com as amêndoas.
O que o setor reivindica
1) Falta de regras claras para a precificação
Os produtores afirmam que não há transparência na formação de preços do cacau. Segundo o setor, sempre foi informado que a remuneração seguiria a cotação da Bolsa de Nova Iorque, mas atualmente o valor pago no mercado interno está abaixo da referência internacional, sem critérios claros para essa diferença.
2) Revogação da Instrução Normativa nº 125
O setor defende a revogação da Instrução Normativa nº 125 por considerar que a medida aumenta o risco de entrada de pragas e doenças no País por meio das amêndoas importadas. A preocupação é reforçada pelo histórico da vassoura-de-bruxa, doença que provocou forte queda na produção nacional.
3) Criação de uma janela de importação
Os cacauicultores propõem a criação de uma janela de importação concentrada no período de entressafra brasileira, especialmente entre junho e julho. A medida permitiria a entrada do produto sem pressionar os preços durante o pico da safra nacional.
4) Padrões equivalentes de produção
O setor pede que as importações considerem critérios equivalentes aos exigidos dos produtores brasileiros, incluindo regras ambientais, trabalhistas e fiscais. A avaliação é que a concorrência com países que não seguem os mesmos padrões gera desigualdade de custos e competitividade.
5) Deságios sem critério técnico transparente
Produtores questionam a redução recente nos preços pagos pela indústria, apontando ausência de critérios técnicos transparentes para o deságio. O argumento é que a demanda interna segue elevada, o que não justificaria a queda acentuada dos valores pagos ao produtor.
6) Riscos fitossanitários nas importações
O setor reforça a necessidade de rigor nos controles fitossanitários, destacando que as amêndoas de cacau continuam sendo um produto orgânico e podem transportar doenças ou pragas capazes de afetar a produção nacional.
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