De loja popular a gigante do varejo em crise, veja a trajetória da Casas Bahia
Grupo atravessa crise financeira e pediu recuperação judicial neste domingo
Crédito facilitado, pagamentos a longo prazo e foco no setor popular estão entre as principais marcas do Grupo Casas Bahia, que atravessa crise financeira e pediu recuperação judicial neste domingo (16), para renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas.
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Presente em 22 estados e no Distrito Federal, o grupo Casas Bahia foi fundado pelo polonês Samuel Klein (1923-2014). De família judia, Samuel passou dois anos no campo de concentração de Madjanek durante a Segunda Guerra Mundial.
Terminada a guerra, juntou o dinheiro que ganhava vendendo vodca e cigarro a soldados russos e americanos e deixou a Alemanha. Em 1951, partiu para a América do Sul com a mulher, Anna, e Michael, o primeiro de quatro filhos. Chegaram ao Brasil em 1952 e se estabeleceram em São Caetano do Sul (SP).
Começou, então, a revender cobertores e toalhas aos nordestinos que chegavam à região do ABC para trabalhar na indústria automobilística.
Os fregueses foram a inspiração para o nome da primeira loja, inaugurada em 1957. Quem vinha do Nordeste para São Paulo era chamado de baiano. Baseado nisso, Samuel Klein decidiu batizar seu negócio de Casa Bahia.
Nas seis décadas seguintes, a empresa se consolidou como vendedora de móveis e eletrodomésticos voltada ao setor popular. Famosa por slogans como "compre agora, pague depois" e "dedicação total a você", a loja se notabilizou por oferecer maiores prazos de pagamento e melhores condições de crédito aos clientes.
Nos anos 1990 ocorreu o momento de maior expansão. Com a redução da hiperinflação, consolidada após o plano Real, o poder de compra da população cresceu. Isso aumentou o consumo e a segurança de comprar produtos em mais parcelas.
Em 2009, foi anunciada a fusão com o Ponto Frio, que pertencia ao Grupo Pão de Açúcar. Antes concorrentes, as empresas passaram a fazer parte do mesmo grupo econômico, posteriormente batizado de Via Varejo.
A oferta de produtos foi ampliada com a expansão do marketplace, mas reduzida com o início da crise financeira da empresa. Artigos para festa, decoração, perfumaria e cosméticos, pet shop, alimentos e bebidas deixaram de ser vendidos diretamente pelas Casas Bahia e o centro do negócio voltou a ser a venda de móveis e eletrodomésticos.
Em abril de 2024, entrou em recuperação extrajudicial para negociar R$ 4,1 bilhões em dívidas. Antes da renegociação, a empresa teria de desembolsar R$ 4,8 bilhões até 2027. O acordo, à época, reduziu o valor para cerca de R$ 500 milhões no mesmo prazo, com início de pagamento a partir de 2026.
Segundo o documento apresentado pelo grupo com o pedido de recuperação judicial, a Casas Bahia possui mais de 700 lojas físicas, e o Ponto Frio, mais de 65. O grupo também engloba o site Extra.com.br, a fabricante de móveis Bartira e o banco digital Casas Bahia PaPay, além de subsidiárias de logística e tecnologia.
Após a fusão com o Pão de Açúcar, a família Klein perdeu o controle acionário da companhia. Com cerca de 10% de participação, Michael Klein, filho Samuel e presidente do conselho administrativo até 2020, tenta recuperar espaço na empresa.
Em dezembro de 2025, disse à Folha de S. Paulo ter a pretensão de comprar mais ações, caso Mapa Capital, atual controladora, tenha intenção de vendê-las. Raphael Klein, filho de Michael e ex-CEO do grupo, representa a família na atual composição do conselho.
Os herdeiros de Samuel Klein brigam pela herança do pai há anos e trocam acusações mútuas em público e na Justiça. Além de Michael, Saul e Eva Klein também são filhos do fundador da Casas Bahia.
Saul Klein se tornou, em maio deste ano, réu sob acusação de exploração sexual, tráfico de pessoas e organização criminosa. À época, a defesa do empresário afirmou, em nota, que "permanece confiante de que, ao final do processo, todas as acusações serão integralmente rejeitadas".
A representação de Saul também afirmou que a relação com as mulheres que o denunciaram era consensual e destacou a rejeição, pela Justiça, das acusações de estupro e cárcere privado.
O patriarca da família, morto em 2014, foi acusado por supostas vítimas de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes. A reportagem tentou contato com a defesa de Samuel Klein nesta segunda-feira (17) desde o início da tarde, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.
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