Canetas emagrecedoras leva novo público para as academias
Fundador da Razões do Corpo analisa avanço da IA, pressão no setor pelas grandes redes, falta de professores e novas oportunidades
Mounjaro, Ozempic e afins: as canetas emagrecedoras estão levando às academias pessoas que antes não se viam como parte desse público. Após perder peso com os medicamentos, esse público passa a buscar exercícios para fortalecer a musculatura, o que já faz as empresas se prepararem para recebê-los.
A Inteligência Artificial também já começa a mudar o atendimento e a montagem de treinos. Para Marcus Frizzera, diretor da Razões do Corpo, porém, a tecnologia deve auxiliar o professor de Educação Física, que seguirá responsável por acompanhar o aluno e interpretar as informações.
O crescimento do mercado ocorre em meio ao avanço dos grandes grupos, que pressionam as pequenas academias. Ao Histórias Empresariais, Frizzera disse que 90% das empresas do setor têm entre uma e três unidades e enfrentam concorrentes com investimentos de R$ 10 milhões a R$ 15 milhões.
Para esses negócios, a saída está no atendimento próximo, no acolhimento e na capacidade de orientar o aluno e resolver suas necessidades. “Academia não pode ser só equipamento e parede. Tem que ter alma”, afirma o empresário, que atua há quase quatro décadas no mercado fitness capixaba.
A Tribuna — As canetas emagrecedoras têm mexido com o mercado fitness? Como?
Marcus Frizzera — Tem, sim, com certeza. Isso está revolucionando. Há um mercado enorme de pessoas que usam essas canetas e estão indo para as academias, que já começam a se preparar para recebê-las. É gente que antes não se via como público de academia por ser muito obesa, perdeu peso com a caneta e agora precisa tonificar a musculatura. É um mercado muito grande para o setor fitness, assim como o 60+.
Tenho visto muitas pessoas acima de 60 anos nas academias. Antigamente, havia algumas, mas era outro perfil. Hoje, é um 60+ com alma jovem, que cuida da saúde e da aparência e às vezes faz exercícios com mais carga. Há essa mudança?
A autonomia que o exercício físico dá é fundamental. Envelhecer de forma saudável passou a ser uma preocupação maior. As pessoas perceberam a importância de conseguir caminhar, tomar banho, abaixar e levantar com segurança aos 60, 66 ou 70 anos.
O mercado de academias tem oportunidades grandes nesse público. A musculação é fundamental, assim como o pilates, que muitos pensam ser atividade leve, que não trabalha força. Não é assim.
O pilates também pode ser pesado, dependendo da orientação do fisioterapeuta ou profissional de Educação Física. É um mercado grande que ainda pode ser explorado.
Percebo, pelo seu modo de falar dos concorrentes, que a concorrência no ramo de academias não parece ser tão agressiva. É isso mesmo ou é algo pessoal?
A concorrência é fundamental para movimentar e fazer você criar. Em 2015, o Brasil tinha 22 mil academias. Hoje são 62 mil. No Espírito Santo, são 1.800 CNPJs e 18 mil professores de Educação Física registrados, segundo dados da associação. Só 7% da população brasileira frequenta academias. No Estado, esse percentual é maior, de 8% a 10%.
O mercado ficou muito segmentado. Cerca de 90% são academias pequenas, com até três unidades. As de grandes grupos escalam e acabam sufocando um pouco as pequenas, mas não têm a mesma agilidade para atender o cliente.
As pequenas conseguem sobreviver com acolhimento, orientação, proximidade e solução do problema do aluno na hora. É gente cuidando de gente.
A Razões do Corpo foi criada em 1987. De lá para cá, o mercado fitness mudou muito. Qual foi a maior mudança? E que revolução pode estar por vir?
A Razões do Corpo acompanhou mudanças como novos equipamentos e Inteligência Artificial. O que não pode mudar é a identidade e a cultura do negócio. O futuro está muito ligado à IA. Hoje, equipamentos estabelecem metas e fazem avaliações, mas o professor ainda precisa ler os dados.
Qualificação, reciclagem e orientação do professor não podem mudar. Há academias premium, low cost, butique e com ampla cartela de serviços. Sempre haverá mercado para diferentes modelos.
Você acha que a Inteligência Artificial vai provocar uma revolução no setor de academias?
Já está acontecendo no atendimento e na montagem dos exercícios. Na Razões do Corpo, usamos a tecnologia para inscrição, escolha das atividades e atendimento, além do aplicativo da academia.
Nos exercícios, sempre será necessário o professor de Educação Física para interpretar as informações e corrigir eventuais equívocos. A inteligência artificial vem para agregar ao trabalho do professor. Não vejo uma academia dispensando o profissional porque passou a usar a tecnologia.
Como é hoje a oferta de profissionais nessa área?
A escassez é geral. Dificilmente quem se forma em Educação Física quer permanecer em uma academia pelo valor da hora. Fica seis meses ou um ano, conhece as pessoas, forma sua carteira de clientes e vira personal trainer.
Se recebe determinado valor como professor, ganha quatro vezes mais como personal. Por outro lado, há quem prefira carteira assinada, segurança. Nem todos querem empreender ou montar estúdio.
Você é dirigente da Associação das Academias de Ginástica do Espírito Santo. Queria que falasse um pouco sobre esse papel.
Sou vice-presidente, e o presidente é Carlos Andreão. Assumimos novamente a gestão em novembro. O objetivo é fortalecer as academias, com apoio jurídico, orientação e formação em gestão, principalmente porque a maioria tem de uma a três unidades.
Conseguimos taxas menores de cartão, 15% de desconto em energia solar e não cobramos dos associados. Muitos donos são professores de Educação Física que abriram uma academia e fazem um bom trabalho, mas não tiveram formação em gestão.
Noticiamos um projeto relacionado à assistência no exercício físico. Como ficou isso?
O projeto Academia Segura foi discutido na Câmara de Vitória e passou por alterações. O ponto mais debatido era a proporção entre alunos e professores. Retiramos isso porque poderia elevar o custo de pessoal e das mensalidades.
O projeto ficou baseado na segurança, orientação aos exercícios, qualificação e valorização dos profissionais e melhoria da gestão. O objetivo é dar segurança ao aluno e aos donos das academias.
Curiosidades
Seleção de ouro
A Razões do Corpo recebeu para treinamentos a geração da seleção brasileira masculina de vôlei que conquistou o ouro olímpico em Barcelona. Com nomes como Tande, Giovane e Marcelo, o time atraiu tantos fãs que a academia precisou reforçar a segurança porque havia quem pulasse o muro para ver os atletas.
Livro inspirou nome
A academia quase se chamou Oficina do Corpo, mas Marcus descobriu que o nome já era usado por um amigo. A solução veio de uma professora de atletismo na Ufes, que lhe apresentou o livro “O Corpo Tem Suas Razões”. Da obra nasceu o nome Razões do Corpo, adotado desde 1987 e mantido até hoje.
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