Banco Master: “Falha grave” em 250 mil empréstimos consignados
INSS aponta falhas em contratos de crédito com desconto em benefícios; maioria sem prova de consentimento dos aposentados
Um relatório técnico elaborado pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) detectou “falhas graves” e “insanáveis” em mais de 250 mil contratos de crédito consignado concedidos a aposentados e pensionistas do órgão pelo Banco Master.
As operações eram feitas por meio de um acordo de cooperação técnica (ACT) assinado entre a instituição financeira e o instituto, que expirou em setembro de 2025 e não foi renovado em função das possíveis irregularidades.
Segundo técnicos do INSS, a maioria dos contratos não tinha “qualquer comprovação idônea da assinatura ou do consentimento do segurado, seja por meio físico ou por validação biométrica segura e auditável”, o que levantou suspeitas de que o crédito estava sendo concedido sem o conhecimento do aposentado ou pensionista.
O consignado é uma modalidade de empréstimo na qual as parcelas são descontadas diretamente da aposentadoria do tomador antes que o dinheiro caia na conta.
Os 251.718 contratos em que foram identificadas a ausência de documentos representam 74,3% do total de acordos, de 338.608 firmados pelo Banco Master entre outubro de 2021 e setembro de 2025. Procurado, o Master não se posicionou. Já o INSS informou que o Master tentou firmar um termo de compromisso para regularizar a situação no segundo semestre do ano passado.
A direção da autarquia, então, cobrou documentos que comprovassem que as assinaturas digitais eram mesmo dos beneficiários por meio de um QR Code — o que não foi feito e o termo não foi assinado. Depois, o Master foi liquidado por um decreto do Banco Central.
No Espírito Santo, 6.209 queixas ao Procon-ES sobre fraudes relacionadas ao empréstimo consignado foram contabilizadas em 2025.
Empréstimos feitos sem autorização ocorrem muitas vezes a partir de dados vazados, ligações enganosas ou falsas portabilidades, algumas das práticas usadas para fraudar o consignado, destaca o economista-chefe do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças no Estado (Ibef-ES), Felipe Storch.
Já a advogada e coordenadora estadual adjunta do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP), Renata Prado ressalta que vítimas de fraudes em consignados podem pedir na Justiça indenização por danos morais.
Banco Central impõe sigilo a registros de Moraes
O Banco Central colocou sob sigilo os registros das comunicações entre autoridades do órgão e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes a respeito do processo de liquidação do Banco Master.
A situação ocorreu após a colunista do Jornal Metrópoles, Andreza Matais, ter pedido, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), todos os registros de reuniões e comunicações que digam respeito ao caso do Banco Master. O Banco Central negou o acesso total aos registros, alegando a proteção de dados patrimoniais e informações pessoais.
Ao fazê-lo, o Banco Central colocou sob sigilo informações básicas, como trocas de mensagens, datas e registros de reuniões. Em geral, a prática dos órgãos públicos é tarjar as informações sensíveis ou protegidas por lei, que possam expor dados pessoais. O restante é fornecido.
Recentemente, o ministro do STF Dias Toffoli foi criticado por colocar em sigilo o processo do Master no Supremo.
Moraes teria pressionado o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em favor do Banco Master. Segundo revelado pela imprensa, os dois teriam conversado ao menos seis vezes sobre o assunto. Ambos negam. O Master contratou o escritório de advocacia da mulher de Moraes, Viviane Barci de Moraes, por R$ 129 milhões.
QUEM É QUEM NO CASO MASTER
A origem
> O crescimento acelerado do Banco Master desde 2019 levantou suspeitas no mercado devido a práticas agressivas de captação e investimentos arriscados.
> Após o Banco Central rejeitar, em setembro de 2025, a oferta de compra de parte do banco pelo BRB, a instituição foi colocada em liquidação em novembro, decisão agora questionada em tribunais e alvo de um intenso jogo de forças políticas.
Contexto
> O caso envolve questionamentos à liquidação do Banco Master, denúncias de fraudes em bilhões de reais e tensões entre Banco Central, TCU e STF. A operação revela um complexo jogo de forças políticas e institucionais em Brasília.
Principais envolvidos
> Daniel Vorcaro: Dono e fundador do Banco Master. Chegou a ser preso por 12 dias na Operação Compliance Zero, acusado de fraude em R$ 12,2 bilhões em créditos consignados vendidos ao BRB.
> Gabriel Galípolo: presidente do Banco Central. Evita declarações públicas, mas teria orientado sua equipe a seguir decisões técnicas. Diz que todos os documentos sobre o caso estão disponíveis para o STF.
> Ailton de Aquino: diretor de Fiscalização do BC. Recomendou a liquidação ao colegiado do Banco Central. Foi convocado pelo STF para acareação, mas o depoimento acabou sendo separado.
> Renato Dias Gomes: ex-diretor do BC. Responsável pela análise da venda de parte do Master ao BRB e recomendou sua reprovação. Foi alvo de ataques nas redes sociais.
> Dias Toffoli: Ministro do STF e relator do caso Master desde dezembro. Decretou sigilo e adotou medidas polêmicas, incluindo a convocação de Ailton de Aquino para depor.
> Alexandre de Moraes: Ministro do STF. Envolvido devido a suposto contrato da mulher com o Master. Teve conversas com Galípolo, mas negou ter sido sobre a operação.
> Jhonatan de Jesus: Ministro do TCU, relator do processo. Questionou a liquidação do Master e determinou inspeção no BC. Tem histórico político no Centrão.
> Vital do Rêgo: Presidente do TCUDeu respaldo a Jhonatan para investigar o BC, reafirmando competência do TCU na fiscalização.
> Paulo Henrique Costa: Ex-presidente do BRB. Assumiu em 2019, afastado em novembro de 2025 após descoberta de fraudes envolvendo R$ 12,2 bilhões do Master.
> Janaína Palazzo: delegada da Polícia Federal, principal investigadora da Operação Compliance Zero, responsável por pedidos de prisão e condução de depoimentos no STF.
> Paulo Gonet: procurador-Geral da República, afirma não haver provas de pressão de Alexandre de Moraes sobre o BC. Seu pedido para suspender acareação no STF foi negado.
Fonte: Agência Estado.
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