X

Olá, faça o seu cadastro para ter acesso a este conteúdo

*Você não será cobrado

Login

Esqueci minha senha

Não tem conta? Acesse e saiba como!

Atualize seus dados

Por uma Educação contra o ódio

| 03/06/2020 11:49 h

Aristóteles afirmava que cada coisa tinha uma finalidade no mundo. O fim era a realização plena da natureza de cada coisa. O nosso fim, como animais que pensam, era alcançar a excelência da razão, por meio de uma vida voltada para esse fim. E para chegarmos lá, precisávamos praticar, desenvolver o hábito, condicionar nossas atividades para que elas não se perdessem em outras atividades que não eram propriamente ruins, como as paixões, mas que estavam longe de ser tudo o que poderíamos alcançar e que Aristóteles chamou de “estado de graça” (eudaimonia).

No entanto, esse estado de graça que uma vida voltada para o desenvolvimento do espírito poderia atingir não era uma tarefa que se realizaria solitariamente. Somos seres sociais e a polis é a nossa natureza a priori, isto é, anterior à nossa percepção de que somos indivíduos. Assim, o bem comum, a felicidade geral, eram o verdadeiro fim da jornada humana. Alcançar esse estágio era a realização. Depois disso, bastava contemplar essa beleza toda. Nada mais seria tão perfeito.

Aristóteles disse tudo isso ao seu filho, Nicômaco, em um esforço de pai que busca orientar, guiar, indicar o caminho para uma vida plena. O preço disso era o que o filósofo chamou de “virtude”, que consistia em manter o equilíbrio das atitudes, evitar tanto os excessos quanto às faltas, e também, como já dito, o hábito, a prática, o exercício diário dessa virtude, que não é rígida, nem única. Cada um sabe os limites e a capacidade que tem e, por isso, o excesso e a falta dependerão desses parâmetros. O conceito virtuoso de coragem, por exemplo, era um só, traduzido por um meio termo entre não fazer o que um cidadão poderia ter feito e fazer algo que não estava ao seu alcance. A régua da coragem ia, assim, variando de acordo com o amadurecimento de cada um, até atingir aquele momento que, com nosso esforço diário, podemos chamar de sabedoria.

Tudo isso foi pensado e dito há mais de dois mil anos. Hoje, diante do descalabro das paixões que se avolumam por todos os lados, sem peias, martelando nossos ouvidos com palavrões e ameaças, gritos e gestos cheios de fúria, sentimos a falta de as escolas não terem incluído, para os jovens, a leitura, a reflexão e a prática desses conselhos de Aristóteles ao seu filho e aos jovens de sua época. Afinal, como ele asseverou, lembrando que fazer a coisa certa é muito mais simples e fácil e, principalmente, ainda possível: “Os homens são bons de um modo apenas, porém são maus de muitos modos”.

Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo.

Quer receber as últimas notícias do Tribuna online? Entre agora em um de nossos grupos de Whatsapp

Quer receber as últimas notícias do Tribuna online? Entre agora em nosso grupo do Telegram

MATÉRIAS RELACIONADAS