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“O Estado não se preparou para avanço do coronavírus”, diz médico

| 14/06/2020 18:44 h | Atualizado em 14/06/2020, 18:59

Carlos Magno: “O hospital de campanha deveria ter sido a prioridade, mas deixaram como ação final. Erraram”
Carlos Magno: “O hospital de campanha deveria ter sido a prioridade, mas deixaram como ação final. Erraram” |  Foto: Leone Iglesias/AT

À espera da ocupação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) chegar a 91% para decretar “lockdown” (fechamento total), o Estado vive assombrado por um colapso na rede de saúde.

Para o médico Carlos Magno Pretti Dalapicola, membro do Conselho Federal de Medicina (CFM) no Espírito Santo , o colapso não vai demorar a acontecer. Na sua avaliação, o governo do Estado falhou na estratégia de combater a pandemia e não se preparou corretamente para evitar o pior.

Segundo Carlos Magno, que já foi presidente do CRM-ES, são três as principais falhas de gestão e enfrentamento, como detalha na entrevista ao jornal A Tribuna.

A Tribuna – O Estado chegou a 86,23% dos leitos de UTI ocupados (na sexta-feira). As medidas extremas vão chegar logo?
Carlos Magno Dalapicola – Eu vejo que um lockdown deve chegar na semana que vem. É preciso dizer que a estratégia inicial do Estado, de comprar leitos na rede privada, foi equivocada.
Apesar da compra de leitos na saúde suplementar e da ampliação de leitos do SUS, vamos chegar num ponto em que não vai ter mais vaga de UTI. Por isso, essa possível decisão de fechar tudo será necessária, para que possamos suportar os atendimentos para os pacientes que vão chegar.

O Estado relutou até agora em construir hospital de campanha, alegando que é mais viável comprar leitos na saúde suplementar. A estratégia é boa?
Não. É uma estratégia ruim e deu errado. Ter construído um hospital de campanha lá atrás ajudaria hoje a evitar um lockdown e um colapso na rede.
O Estado não se preparou para o avanço do coronavírus. Nós sabemos que a estratégia de comprar leitos na saúde suplementar tem um limite. Uma hora eles não vão ter mais leitos para vender. Por isso, o hospital de campanha deveria ter sido a prioridade, mas deixaram como ação final. Fizeram o contrário, e erraram.

O secretário da Saúde, Nésio Fernandes, disse que o hospital de campanha resolve problemas de leitos de enfermaria, e não os de UTI – que são o gargalo. Concorda com a justificativa?

Não. Num hospital de campanha que já tem o leito, é questão de adaptar o ventilador que chega, para ampliar o número de unidades com assistência respiratória – esse, sim, o grande gargalo.
Existe uma diferença entre os leitos com ventilação nos hospitais de campanha e os de UTI propriamente dito.

No de UTI, além da assistência ventilatória, o paciente precisa de outros cuidados intensivos. Enquanto no leito de campanha, abriga-se um paciente que precisa somente da assistência respiratória, sem precisar de diálise ou traqueostomia, por exemplo.

O hospital de campanha resolveria, sim, porque serviria para o paciente de média complexidade contaminado. E mais: leitos de enfermaria são facilmente transformados em leitos de assistência ventilatória.

É só o secretário pesquisar hospitais de campanha em outros estados. Neles, há leitos de internação, de observação e, se o paciente complica, vai para unidade de ventilação. O hospital de campanha serve para dois tipos de pacientes serem atendidos debaixo de uma única estrutura, e poderia, sim, evitar colapso e lockdown.

Até agora, o Estado lançou mão da estratégia de contratar leitos de UTI em hospitais privados por R$ 1.600 por dia. É um paliativo com prazo de validade?

Foi um paliativo. Quanto desses leitos comprados na saúde privada poderia ter sido investido em hospitais de campanha, com assistência em custo menor? Quando faz hospital de campanha, se faz para usar no caso de necessidade. Aí sim, se ocupá-lo, você parte para comprar leitos na saúde suplementar. Ou seja: o governo do Estado fez o caminho reverso.

Os hospitais privados também têm limites para vender leitos. Não podemos esquecer que a pandemia atinge a todos e o hospital privado tem compromisso prioritário com seu paciente. Os públicos vão ter sua prioridade, mas haverá um limite que não aconteceria se tivesse esse fôlego do hospital de campanha prioritariamente.

Em relação aos profissionais da saúde infectados, a estratégia de atendimento e cuidado com o servidor poderia ter sido diferente?
Os hospitais deveriam, desde o princípio, serem exclusivos para Covid-19. O que se observa é que estão misturando as demandas de atendimento. O paciente entra com uma patologia, mas sai com outra – no caso, a Covid-19 – e morre com outra.

O hospital de campanha, aliás, tem essa característica de atendimento exclusivo. Você interna os pacientes, dota os profissionais de saúde dos equipamento de proteção individuais necessários, para minimizar contaminação, e treina esse pessoal.

Hoje, acabam contaminando profissionais em muitos locais, com vários atendimentos, já que é uma doença diferenciada, para a qual é preciso ter um treinamento constante.

Se o Estado proporciona um local de atendimento mais centralizado, com pessoal qualificado, as chances de contaminar seriam muito menores – o Hospital Dório Silva seguia atendendo traumas e Covid-19. O Hospital Estadual de Urgência e Emergência também. Atualmente, quem entra com trauma tem risco de se contaminar com Covid. Essa contaminação é cruzada.

Dá tempo de construir um hospital de campanha?

É preciso saber como está a estrutura do Estado em relação a insumos (em nota, o governo afirmou ter dificuldade em comprar sedativos e fármacos de entubação). Não é um hospital difícil de ser feito. Tem que ter divisórias, rede de encanamento, oxigênio, aspiração e, principalmente, assistência ventilatória.

Uma vez que o colapso chega, qual é a alternativa?
A única saída dessa situação é não internar mais gente em hospital, já que a rede está colapsada. E, para você não internar, é preciso não contaminar mais gente. O ultimato de solução é o lockdown, para restringir a disseminação do vírus, embora não seja suspensa.

Assim, confere uma folga para o sistema de saúde, de 15 a 20 dias. Dá tempo para o paciente já internado ter alta. É como se “segurasse o tempo”. No lockdown, os doentes vão se contaminar com menor intensidade. Aí dá tempo para serem liberados os leitos ocupados.

Mas o paciente de Covid-19 fica mais tempo na UTI que o de outras doenças...
O doente da Covid-19 pode ficar até 15 dias com assistência ventilatória, o que não é comum nas outras doenças. Isso gera ocupação por mais tempo e diminui a oferta de vagas. Depois, tem que ir para a enfermaria. Dependendo da evolução do caso, pode ficar de uma semana a 10 dias.

O secretário de Estado de Governo, Tyago Hoffmann, disse que “médicos vão ter de escolher quem vai morrer e quem vai viver”. Como recebeu a fala?
Não entendo como um secretário de Governo diz isso. É uma fala inoportuna e irresponsável. Gera atrito e tensão entre médicos e familiares de pacientes em meio à pandemia. Coloca o parente contra o médico, que “é quem decide”.
O médico usa a estrutura que o governo lhe concede. E, tecnicamente, de fato, o médico pode decidir prioridade, mas a partir de um protocolo. É bom lembrar que a situação de falta de leitos é antiga no Estado.

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