Coveiros se recusam a encostar em caixão durante pandemia em Cariacica
Após passar pela dor de perder um parente, o soldador Marílio Mendonça da Silva, de 36 anos, ainda precisou brigar para que enterrassem o corpo do irmão, um taxista de 39 anos, que morreu na tarde dessa quarta-feira (13), vítima do novo coronavírus (Covid-19).
Logo que chegaram ao cemitério Jardim da Saudade, em Cariacica, na manhã desta quinta (14), o agente funerário explicou que Marílio e seus familiares precisariam carregar o caixão do irmão e colocá-lo dentro do túmulo, porque os coveiros estavam se recusando a encostar na urna. Segundo Marílio, a justificativa foi que aquela era uma ordem direta da prefeitura do município, em função da pandemia da Covid-19.
"Eu ainda estou sem entender. Se eles estivessem sem os EPIs - Equipamento de proteção individual - , eu iria questionar a prefeitura por estar colocando a vida daqueles trabalhadores em risco, mas não. Eles estavam protegidos da cabeça aos pés contra o vírus e queriam que minha família, que estava sem proteção, fizesse o trabalho deles", disse Marílio.
Em um vídeo gravado pela irmã de Marílio (assista abaixo), o agente funerário aparece ao lado de três coveiros (todos equipados com EPIs), que se recusam a encostar no caixão. Depois de muita discussão, um dos profissionais supultadores acaba abandonando o enterro, o que causa revolta nos familiares.
Para evitar que a família precisasse encostar no caixão sem proteção, o próprio agente funerário oferece ajuda aos dois coveiros e carrega a urna até o túmulo.
De acordo com o soldador, a maioria dos parentes ficaram em casa, para não aumentar o risco de contaminação entre eles. "Eu dei graças a Deus que não tinha mais gente da minha família lá. Primeiro porque eu não queria que passassem por aquilo e segundo, porque a confusão seria maior".
Marílio também afirma que se sentiu lesado e, por isso, vai registrar um Boletim de Ocorrência na Delegacia, para que alguém seja punido pelo que passou. "Foram duas dores. A perda do meu irmão e essa humilhação e constrangimento pelo qual nos fizeram passar", lamentou.
Secretaria considera "inadmissível" comportamento de coveiros
A Secretaria Municipal de Serviços (Semserv) afirma que não existe nenhuma orientação aos coveiros nesse sentido e que vai abrir um processo administrativo para apurar o comportamento dos profissionais envolvidos.
"A Semserv lamenta que a família passe por tal constrangimento em um momento tão triste e delicado e pede desculpas por tal atitude desrespeitosa. Informa que disponibilizou, desde o final de março, equipamentos de proteção individual (EPI) aos 21 profissionais sepultadores de todos os oito cemitérios administrados pela Prefeitura de Cariacica".
Confira a nota na íntegra:
A Secretaria Municipal de Serviços (Semserv) irá abrir um processo administrativo a respeito do comportamento inaceitável do profissional sepultador em questão e tomará as medidas cabíveis, a partir da denúncia feita pela família. A Semserv lamenta que a família passe por tal constrangimento em um momento tão triste e delicado e pede desculpas por tal atitude desrespeitosa. Informa que disponibilizou, desde o final de março, equipamentos de proteção individual (EPI) aos 21 profissionais sepultadores de todos os oito cemitérios administrados pela Prefeitura de Cariacica. Eles têm à disposição o macacão protetor de corpo inteiro na cor branca, máscara facial e luvas para realizar a sua função.
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