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Coroavírus, o bullying
Fonte Grande
Luiz Trevisan

Luiz Trevisan


Coroavírus, o bullying

 (Ilustração: Andre Felix)
(Ilustração: Andre Felix)

Cabelos grisalhos, pele vincada, passos mais lentos, certa proeminência abdominal, perfeito. Está desenhando mais um bullying com o “Coroavírus-20”, seja no shopping, supermercado, sala de cinema, ônibus, nas ruas. Passou dos 50, na aparência, inevitavelmente a pessoa agora ganha olhares atravessados, alguns mal dissimulados. E uma pergunta contida, que a expressão ao redor faz saltar aos olhos: “O que esse cara tá fazendo aqui, que não cumpre quarentena”? Se ele espirrar, é princípio de pânico.

Em tempo de Covid-19, não é só o bullying que muda de alvo. Todo cotidiano, a etiqueta, as relações, o ir e vir são subitamente alterados. E não se trata de peça de ficção, como naqueles livros e filmes de vírus mortais. Aulas, campeonatos esportivos e shows suspensos, cinemas fechados, restaurantes vazios, televisão oferecendo overdose noticiosa do vírus. Empresas iniciam o trabalho remoto, companhias aéreas abrem temporada de voos em parafuso, o setor turístico à deriva e os transatlânticos fantasmas vagando.

Uma pandemia pode expressar o que há de pior e melhor no humano. E suscitar todo tipo de especulação sem pudor: bolsas de valores caem, o dólar sobe. Indústrias paralisam e o nosso PIB, que já não era grande coisa, encolhe. Pessoas estocam comida, máscara e álcool gel. Há quem veja alarmismo, histeria. Outros temem que a situação seja inversa, que o contágio e letalidade sejam ainda maiores do que se propala. Além de lavar bem as mãos, o que necessitamos agora é: maior transparência, serenidade e informação responsável, em vez de fakes, bravatas, descaso e bullying.

Num ponto, o “Coroavírus” não anda sozinho. Tem o bloco do “Tô nem aí”, que lota as praias e barzinhos; o bloco do puro-poder, do andar de cima, que segue realizando reuniões concorridas e promovendo eventos compartilhados em redes, meio assim, “esse vírus não entra aqui”. Nas redes, há também uma invasão de filosofia autoajuda para confortar nesse cenário nebuloso da pandemia. Mas nem sempre filosofia barata ajuda. O fato é que, para muitos, esse isolamento proposto ainda “não é com a gente”. O Presidente mesmo parece pensar assim.

Precisamos, mais do que nunca, de uma boa dose de razoabilidade acompanhando, sempre. Em uma dessas postagens, nas redes, a alta mortalidade registrada na Itália e China foi atribuída ao fato de serem países “espiritualmente doentes”. Mas logo a Itália, tão religiosa, e os chineses milenarmente tão sábios? No último domingo, com as praias lotadas, ouvi de banhistas – fugi do isolamento social, confesso – elegias ao álcool como aliado na guerra ao vírus. Um deles apontou a Rússia, aparentemente com poucos registros do Covid-19, como exemplo de barreira eficaz. No caso, usando uma velha aliada de guerra, a vodca. Além da mão de ferro do Putin, que tudo controla, até informação.

O cantor sertanejo Leonardo, que é meio chegado a umas biritas, contou: “Trinta milhões de brasileiros estão com HIV” e, por isso, comparou que é melhor morrer fazendo aquilo do que fenecer tossindo. Mesmo na piada, o cantor perdeu a oportunidade de alertar para o uso de preservativos. De resto, rir, mesmo nervosamente, pode até servir de antídoto para esses dias de amor em tempos de cólera. Porém, soa inconveniente – macaco em casa de louça – enquanto a turma da terceira idade faz exercício e caminhada na beira do vulcão.

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