O perigo de confiar demais na Inteligência Artificial
Automação acelera processos, mas decisões críticas exigem supervisão qualificada, transparência e quem responda pelos erros
Tasso Lugon
Tasso Lugon é CEO da Banestes DTVM e especialista em tecnologia, inovação e transformação digital. Reconhecido nacionalmente, lidera projetos que unem setor público e financeiro para gerar impacto e inclusão. Sua trajetória inclui passagens pelo Tribunal de Justiça do ES, Ministério Público Estadual, Prefeitura de Vila Velha e Governo do Estado, sempre promovendo modernização e resultados.
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A inteligência artificial já faz parte da vida de muita gente, mesmo quando isso passa despercebido. Ela ajuda bancos a identificar fraudes, empresas a analisar documentos, aplicativos a sugerir rotas e plataformas a decidir o que aparece na nossa tela.
Até aí, tudo parece muito útil. E é.O problema começa quando a máquina deixa de apenas ajudar e passa a influenciar decisões que afetam pessoas de verdade.
Imagine um sistema que bloqueia uma compra, recusa um cadastro, considera uma movimentação suspeita ou nega o acesso a um serviço. Se ele errar, quem explica? Quem corrige? E, principalmente, quem assume a responsabilidade?
É fácil dizer que “foi o sistema”. Mas nenhum sistema aparece sozinho. Alguém escolheu os dados, definiu as regras, comprou a tecnologia e autorizou seu uso. Por isso, a inteligência artificial pode até participar da decisão, mas não pode servir de desculpa para ninguém.
No mercado financeiro, a IA já tem um papel importante. Ela pode encontrar padrões que uma pessoa demoraria muito mais tempo para perceber, reforçar a segurança, reduzir fraudes e melhorar o atendimento. Ignorar esse avanço seria um erro. Mas confiar cegamente também seria.
Quanto mais séria for a decisão, maior precisa ser o cuidado. Uma coisa é usar IA para organizar documentos ou responder perguntas simples. Outra bem diferente é deixar que ela tome decisões sobre dinheiro, crédito, segurança ou acesso a serviços sem supervisão de verdade.
E supervisão não é apenas colocar uma pessoa para apertar “confirmar”. Essa pessoa precisa entender o que está acontecendo, ter tempo para analisar e poder discordar da máquina.
As empresas costumam perguntar quanto tempo a tecnologia vai economizar e quanto dinheiro ela pode reduzir em custos. Também deveriam perguntar quanto custa um erro, quanto tempo leva para corrigi-lo e quem será capaz de interromper o sistema quando algo sair do controle.
Isso não é ser contra a inovação. É usar a inovação com responsabilidade.
A Inteligência Artificial pode ser mais rápida do que nós em muitas tarefas. Pode analisar milhares de dados em segundos e enxergar padrões difíceis de perceber. Mas ela não sente as consequências de uma decisão errada. Ela não pede desculpas, não repara o dano e não responde diante de um cliente, de uma família ou da sociedade.
Essa responsabilidade continua sendo humana. Talvez a melhor empresa do futuro não seja a que automatiza tudo primeiro, mas a que sabe exatamente o que pode entregar à máquina e o que precisa continuar nas mãos das pessoas.
Porque, quando a tecnologia erra, alguém sempre paga a conta.
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