Quem decide quando você para?
Rolagem infinita, reprodução automática e notificações são estratégias usadas por plataformas digitais para manter usuários conectados por mais tempo
Tasso Lugon
Tasso Lugon é CEO da Banestes DTVM e especialista em tecnologia, inovação e transformação digital. Reconhecido nacionalmente, lidera projetos que unem setor público e financeiro para gerar impacto e inclusão. Sua trajetória inclui passagens pelo Tribunal de Justiça do ES, Ministério Público Estadual, Prefeitura de Vila Velha e Governo do Estado, sempre promovendo modernização e resultados.
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Você pega o celular para assistir a um vídeo. Quando percebe, já viu dez, vinte, trinta. O tempo passou, e você nem notou. Parece apenas um hábito, mas existe muita tecnologia por trás dessa experiência.
Recursos como rolagem infinita, vídeos que começam automaticamente e notificações constantes não surgiram por acaso. Foram desenvolvidos para tornar os aplicativos mais envolventes e manter nossa atenção por mais tempo. E nisso a indústria de tecnologia se tornou extremamente eficiente.
Mas será que passar mais tempo conectado significa ter uma experiência melhor?
No mercado de tecnologia, existe um indicador chamado retenção, que mede a capacidade de um produto de manter seus usuários. É uma informação importante para qualquer negócio digital. O problema começa quando o tempo de permanência passa a valer mais do que a qualidade do serviço oferecido.
Essa discussão ganhou força em 2026. A Comissão Europeia apresentou questionamentos preliminares sobre funcionalidades potencialmente viciantes de plataformas como TikTok, Instagram e Facebook.
No Brasil, um projeto de lei propõe interromper temporariamente a rolagem após 30 vídeos consecutivos. Vejo essas iniciativas como um sinal de que precisamos amadurecer nossa relação com a tecnologia. Entretanto, tenho ressalvas quanto à ideia de resolver problemas tão complexos apenas com limites impostos por lei.
Acredito que a responsabilidade precisa começar também com as empresas que desenvolvem essas ferramentas. Pense em um aplicativo bancário. Se você consegue pagar uma conta em poucos segundos, com facilidade e segurança, teve uma boa experiência. Não foi necessário passar uma hora navegando.
Por que, então, associamos tanto o sucesso de um produto digital ao tempo que ele consegue prender nossa atenção? Como profissional de tecnologia e inovação, acredito que precisamos ampliar essa visão. Uma boa ferramenta não deve apenas atrair usuários, mas facilitar suas vidas, respeitar suas escolhas e oferecer liberdade para decidir quando continuar ou parar.
Não sou contra aplicativos envolventes. Pelo contrário, experiências agradáveis são fundamentais para a inovação. O que questiono é quando manter alguém conectado se torna mais importante do que entregar algo realmente útil.
A tecnologia já aprendeu a conquistar nossa atenção. Talvez o próximo grande avanço seja aprender a respeitar nossa decisão de ir embora.
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