Antes de atender
Novos recursos em celulares ajudam a identificar chamadas suspeitas e criam uma pausa antes de decisões que podem levar a golpes
Tasso Lugon
Tasso Lugon é CEO da Banestes DTVM e especialista em tecnologia, inovação e transformação digital. Reconhecido nacionalmente, lidera projetos que unem setor público e financeiro para gerar impacto e inclusão. Sua trajetória inclui passagens pelo Tribunal de Justiça do ES, Ministério Público Estadual, Prefeitura de Vila Velha e Governo do Estado, sempre promovendo modernização e resultados.
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Durante muito tempo, falar em segurança digital significava falar em antivírus, senhas e programas de proteção. A lógica era relativamente simples: criar barreiras para impedir que alguém chegasse aos nossos dados.
Só que os golpes mudaram. E talvez a maneira de nos protegermos também precise mudar. Um exemplo interessante está no próprio telefone. Desde o iOS 26, o iPhone conta com um recurso capaz de filtrar ligações de números desconhecidos.
Antes de o aparelho tocar, quem está do outro lado pode ser solicitado a informar o nome e o motivo da chamada. Só então o usuário decide se quer atender.
Parece uma pequena comodidade. Para mim, existe algo mais importante acontecendo ali.A tecnologia criou uma pausa.E isso importa porque muitos golpes dependem exatamente da ausência dela.
“Foi realizada uma compra no seu cartão.” “Sua conta será bloqueada.” “Preciso que faça uma transferência agora.” A estratégia é conhecida: criar urgência suficiente para que a reação aconteça antes do raciocínio.
Quanto menos tempo temos para pensar, mais vulneráveis podemos ficar. E essa preocupação não está restrita à Apple. Em 2026, o Android avançou em recursos capazes de identificar situações suspeitas durante chamadas e alertar o usuário sobre possíveis golpes.
Há inclusive tecnologia sendo desenvolvida para identificar quando alguém tenta fazer uma ligação parecer vir de um contato conhecido. Perceba a mudança: a tecnologia não está apenas tentando impedir que algo chegue até nós. Está começando a nos ajudar a interpretar o que chegou.
É o banco que interrompe uma transação fora do padrão e pede uma confirmação adicional. É a autenticação em duas etapas antes de liberar um acesso. É o celular que filtra uma ligação ou identifica sinais de uma tentativa de golpe.
Eu costumo pensar nisso como camadas de decisão. Em todos esses casos, existe uma lógica parecida: introduzir algum atrito justamente quando agir rápido demais pode representar um risco. Isso também muda a forma como devemos olhar para nossos dispositivos.
Em vez de perguntar apenas “qual ferramenta me protege?”, talvez valha uma pergunta diferente: “que recursos este aparelho oferece para me ajudar a perceber algo estranho antes de tomar uma decisão?”
Durante anos, a segurança digital se concentrou em proteger sistemas, redes e dispositivos. Tudo isso continua indispensável. Mas, à medida que os golpes se tornam mais convincentes e exploram cada vez melhor o comportamento humano, proteger apenas a máquina já não basta.
A boa tecnologia também precisa proteger o instante em que decidimos. Porque, em segurança digital, alguns segundos de dúvida podem ser uma excelente ferramenta de proteção.
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