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CONVERGÊNCIA

E se a chave estivesse na mão?

Implantes prometem praticidade, mas levantam questões sobre dados, autonomia e usos que realmente transformam vidas

Tasso Lugon | 25/06/2026, 13:29 h | Atualizado em 25/06/2026, 13:29
Convergência

Tasso Lugon

Tasso Lugon é CEO da Banestes DTVM e especialista em tecnologia, inovação e transformação digital. Reconhecido nacionalmente, lidera projetos que unem setor público e financeiro para gerar impacto e inclusão. Sua trajetória inclui passagens pelo Tribunal de Justiça do ES, Ministério Público Estadual, Prefeitura de Vila Velha e Governo do Estado, sempre promovendo modernização e resultados.


          Imagem ilustrativa da imagem E se a chave estivesse na mão?
Tasso Lugon |  Foto: Divulgação

Imagine sair de casa sem carteira, chave, cartão ou crachá. Para abrir uma porta, entrar no trabalho ou se identificar, bastaria aproximar a mão de um leitor. Parece cena de filme, mas já há pessoas usando pequenos chips implantados sob a pele para fazer exatamente isso.

Antes que a imaginação vá longe demais, vale esclarecer: esses chips não são aparelhos que rastreiam alguém o tempo todo, nem têm GPS ou “leem pensamentos”.

Em geral, funcionam como um cartão de acesso por aproximação. São pequenos, não têm bateria e só respondem quando estão perto de um leitor.

A ideia pode causar estranhamento e é natural. Afinal, uma coisa é carregar tecnologia no bolso. Outra é colocá-la no corpo.

Mas a tecnologia costuma chegar assim: primeiro assusta, depois desperta curiosidade e, quando percebemos, já virou parte da rotina. Foi assim com o celular, com o pagamento por aproximação e até com a biometria para desbloquear o telefone.

Ainda assim, nem toda novidade precisa virar obrigação. Trocar um crachá ou uma chave por um chip pode ser prático, mas será que vale a pena para todo mundo? Hoje, o celular já resolve boa parte dessas tarefas. Conveniência, por si só, não deveria ser o único motivo para atravessar essa fronteira.

A conversa fica bem mais séria quando saímos da mão e chegamos ao cérebro. Pesquisas com interfaces cérebro-computador vêm mostrando que pessoas com paralisia podem movimentar um cursor, escrever em uma tela e até se comunicar com ajuda de sinais neurais. Nesse caso, não se trata de modernidade ou conforto. Trata-se de devolver autonomia a quem perdeu movimentos ou fala.

É aí que a tecnologia revela seu lado mais bonito: ajudar alguém a voltar a conversar com a família, estudar, trabalhar ou tomar decisões com mais independência.

Mas há uma pergunta que precisa acompanhar cada avanço: quem ficará com os dados produzidos por esse corpo conectado? Informações sobre saúde, movimentos, comunicação e até padrões do cérebro são íntimas demais para serem tratadas como simples mercadoria.

Também não podemos aceitar que um implante vire uma exigência disfarçada. Ninguém deveria ter menos oportunidades no trabalho, no acesso a serviços ou a benefícios por escolher não usar tecnologia no próprio corpo.

Não sou contra chips implantáveis. Pelo contrário: quando eles devolvem mobilidade, comunicação e qualidade de vida, seu potencial é enorme. Mas inovação não pode ser medida apenas pelo que conseguimos criar. Ela também precisa ser medida pelos limites que somos capazes de respeitar.

O futuro pode até caber na palma da mão. A questão é não deixar que ele ultrapasse, sem cuidado, a nossa liberdade de escolha.

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