Dinheiro mudando de novo
Stablecoins e tokenização mostram como a tecnologia pode transformar pagamentos, investimentos e contratos
Tasso Lugon
Tasso Lugon é CEO da Banestes DTVM e especialista em tecnologia, inovação e transformação digital. Reconhecido nacionalmente, lidera projetos que unem setor público e financeiro para gerar impacto e inclusão. Sua trajetória inclui passagens pelo Tribunal de Justiça do ES, Ministério Público Estadual, Prefeitura de Vila Velha e Governo do Estado, sempre promovendo modernização e resultados.
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Fazer um Pix em segundos se tornou tão comum que quase não pensamos na tecnologia por trás dele. Agora, outra transformação começa a entrar na vida real.
Criptomoeda é algo que tem valor, mas existe apenas no ambiente digital. Pode ser comprada, vendida ou transferida pela internet. O Bitcoin é o exemplo mais conhecido. Embora tenha ficado famosa como investimento, essa tecnologia pode ter outros usos.
Em janeiro de 2022, o Rio de Janeiro anunciou que pretendia investir 1% do Tesouro municipal em criptomoedas. A prefeitura também estudava criar uma moeda digital carioca e permitir o pagamento do IPTU com esses ativos.
Na época, a proposta tinha cara de futuro. Bitcoin estava em alta e empresas corriam para colocar a palavra “blockchain” em suas apresentações. Parecia que inovar era comprar uma criptomoeda antes de todo mundo.
Quatro anos depois, boa parte da promessa não saiu do anúncio. O pagamento do IPTU chegou a ser autorizado, mas uma empresa faria a conversão e entregaria reais à prefeitura. O investimento do Tesouro e a moeda própria não se consolidaram.
É tentador concluir que a moda passou. Só que aconteceu algo mais interessante: essa tecnologia deixou o palco e começou a trabalhar nos bastidores.
Um exemplo são as stablecoins, moedas digitais que acompanham o valor do dólar. Segundo o presidente do Banco Central, cerca de 90% da movimentação de criptoativos no Brasil já estava ligada a elas em 2025. Muita gente não usa essa tecnologia apenas para apostar em valorização. Usa para guardar valor, enviar recursos e acessar o dólar de forma digital.
Outra mudança é a tokenização. O nome parece complicado, mas a ideia é simples: transformar o direito sobre um bem ou investimento em um registro digital. Isso já acontece com títulos, fundos, imóveis e operações de crédito.
E por que isso importa para quem nunca comprou Bitcoin? Porque a tecnologia pode reduzir papelada e demora. Em uma compra, o pagamento e a transferência do bem podem acontecer juntos. Se uma parte falhar, a outra também não é concluída. É menos espaço para erro e retrabalho.
Desde fevereiro de 2026, empresas que prestam serviços com ativos virtuais no Brasil também precisam seguir regras do Banco Central sobre segurança, proteção do cliente e responsabilidade.
Na minha avaliação, o Rio percebeu uma mudança importante, mas olhou para o lugar errado. A inovação não estava em uma prefeitura comprar Bitcoin para parecer moderna. Estava em usar a tecnologia para tornar pagamentos, investimentos e contratos mais simples e seguros.
As criptomoedas não desapareceram. Estão deixando de ser apenas uma aposta sobre preços para integrar o sistema financeiro.
Esse talvez seja o melhor sinal de que uma tecnologia amadureceu: ela para de pedir aplausos e começa a resolver problemas, inclusive para quem nunca ouviu falar dela.
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