A Guerra e o Agro
Conflito no Oriente Médio pressiona fretes, fertilizantes e custos de produção, exigindo mais gestão de risco no campo
Marcus e Matheus Magalhães
Marcus e Matheus Magalhães são Analistas do Mercado Agro
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A guerra aparece primeiro no insumo, depois no produto.
O mundo costuma medir guerra pelo barril. Há quem prefira — ou precise — medi-la pelo frete e pelo adubo. Desde o fim de fevereiro, quando EUA e Israel abriram uma ofensiva direta contra o Irã, o Estreito de Ormuz voltou a ser mais do que um mapa na televisão: virou gargalo de custo.
A Reuters registrou, na madrugada de 9 de março, um salto de cerca de 20% no petróleo. Isso é barulho de mercado. O sinal estrutural está no que vem junto: navios evitando rotas, seguros mais caros, prazos mais longos. E a conta começa a não fechar muito antes de qualquer movimento mercadológico.
Para nós, a primeira reação é pensar em diesel e inflação. Faz sentido. Só que a lavoura brasileira não roda apenas a combustível. Ela roda a molécula. O IFPRI lembra que a queda da navegação por Ormuz pressiona os fertilizantes, porque reduz o fluxo de gás natural e de produtos do Golfo que viram ureia, amônia e fosfatados. Ou seja: a guerra mexe no motor químico da produtividade.
Aqui entra uma leitura crítica que ainda pode passar despercebida. Em ano de safra cheia no Hemisfério Sul, os preços podem até demorar a reagir. Mas o custo reage na hora. Em tempos assim, a logística de guerra cria semanas extras de trânsito e um prêmio persistente no frete, castigando justamente grãos e insumos, que têm baixo valor por tonelada.
Há ainda o canal do comércio. O Brasil fechou 2025 com superávit de US$ 2,9 bilhões com o Irã, puxado por milho e soja. Numa escalada, o risco não é apenas vender menos. É vender com mais incerteza de crédito, embarque e destino final.
E o fertilizante? A Reuters aponta que o Brasil importou 7,7 milhões de toneladas de ureia em 2025, e o Irã representou menos de 2,5% desse total. Parece pouco. Mas guerra não precisa cortar grande volume para mexer no preço. Basta travar a referência e aumentar o prêmio de risco. O produtor sente isso na reposição, e a margem encolhe sem pedir licença.
Essa guerra não ameaça a oferta de comida no curtíssimo prazo. Mas ameaça a capacidade de produzir barato na próxima safra, porque ataca custo e previsibilidade do pacote tecnológico.
A decisão prática é tratar insumo e logística como gestão de risco: calendário de compra, diversificação de origem, disciplina de caixa e atenção redobrada a frete e seguro.
No horizonte, o Brasil continua sendo solução como fornecedor. Mas só vai transformar cenário em resultado quem defender custo e prazo. Em guerra, quem entrega bem vale mais do que quem apenas produz muito.
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