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TRIBUNA LIVRE

Tarifas de importação e o gargalo da produtividade

Resolução do Gecex eleva tarifas e reacende debate sobre produtividade e competitividade no Brasil

Marcilio R. Machado | 04/03/2026, 13:17 h | Atualizado em 04/03/2026, 13:17
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          Imagem ilustrativa da imagem Tarifas de importação e o gargalo da produtividade
Marcilio R. Machado é ex-presidente do Sindiex e doutor em Administração de Empresas |  Foto: Divulgação

Em fevereiro de 2026, o Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior — Gecex, órgão da Camex — publicou a Resolução nº 852/2026, elevando o Imposto de Importação sobre cerca de 1.200 produtos, muitos deles bens de capital, equipamentos de tecnologia e insumos estratégicos.

A justificativa oficial é conhecida: proteger a indústria nacional, reduzir dependência externa e estimular a produção local. A pergunta incômoda é outra: o que realmente está sendo protegido?

O Brasil convive, há décadas, com um problema estrutural muito mais profundo do que a concorrência estrangeira: baixa produtividade. Nossa produtividade do trabalho permanece significativamente inferior à dos países com os quais competimos — não apenas Estados Unidos, Europa ou Ásia, mas também diversas economias emergentes. Produzimos menos por hora trabalhada e inovamos menos por real investido.

Diante desse quadro, elevar tarifas sobre máquinas, semicondutores, equipamentos de rede, servidores e componentes tecnológicos não parece atacar a raiz do problema. Ao contrário: encarece exatamente os instrumentos que poderiam ampliar eficiência, digitalização e ganho de escala.

A experiência internacional mostra que competitividade sustentável nasce de três vetores: acesso a tecnologia de ponta; integração às cadeias globais de valor; pressão concorrencial que estimule inovação contínua.

Quando tarifas elevadas reduzem a concorrência e encarecem insumos estratégicos, o risco é cristalizar ineficiências. Empresas menos expostas à competição tendem a investir menos em produtividade. O consumidor paga mais. A economia cresce menos. Essa atitude esbarra em um dilema econômico que podemos chamar de paradoxo da proteção: ao tentar proteger setores por meio de tarifas, o Estado pode, paradoxalmente, enfraquecê-los ao encarecer insumos, reduzir competitividade e desencorajar investimentos.

Entidades do setor de tecnologia, como a Associação Brasileira das Empresas de Software, já alertaram para o desalinhamento entre a política tarifária e a ambição declarada de transformar o Brasil em hub digital e destino relevante para data centers, inteligência artificial e serviços em nuvem. Não se constrói soberania tecnológica dificultando o acesso à própria tecnologia.

O debate não é ideológico; é estratégico. Se o problema central é a baixa produtividade, então o foco deveria ser: ambiente regulatório mais simples; redução do custo sistêmico Brasil; investimento em capital humano; inserção competitiva no comércio internacional. Proteção tarifária pode ser instrumento legítimo quando temporária, seletiva e vinculada a metas claras de ganho de eficiência. Fora disso, corre o risco de se tornar uma cortina que esconde fragilidades estruturais.

Essa recente Resolução traz à tona uma questão maior: queremos uma economia protegida ou uma economia produtiva? Porque, no longo prazo, apenas a segunda sustenta crescimento real, renda mais alta e protagonismo internacional.

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