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TRIBUNA LIVRE

O Conselho Final

Júlio Cezar Costa narra o impacto do ato publicado no Diário Oficial e afirma que o procedimento prescreveu sem a formação do colegiado

Júlio Cezar Costa | 08/06/2026, 12:46 h | Atualizado em 08/06/2026, 12:46
Tribuna Livre

Leitores do Jornal A Tribuna


          Imagem ilustrativa da imagem O Conselho Final
Júlio Cezar Costa é coronel da Polícia Militar do Espírito Santo |  Foto: Divulgação

Balzac, ao citar Napoleão Bonaparte, registrou que o êxito nasce de duas virtudes: a audácia e a paciência. Audácia para vencer os obstáculos; paciência para suportar e vencer as injustiças. De fato, ninguém promove mudanças históricas e alcança conquistas relevantes sem atravessar as provações que se interpõem no caminho da vitória.

Retorno, então, ao amanhecer de 2 de fevereiro de 2011, dia em que minha mãe completava 74 anos. Em férias da PMES, participei do culto matinal da Igreja Cristã Maranata. A aurora surgia sob um céu límpido, enquanto os primeiros raios solares anunciavam um novo dia. Ao final daquele período de oração, a leitura do Salmo 119 trouxe uma palavra que marcou profundamente aquele momento: “Antecipo-me ao alvorecer do dia e clamo; na tua palavra espero confiante”.

Naquele início de ano, a Polícia Militar do Espírito Santo encontrava-se sob novo comando, e o Estado vivia os primeiros dias de uma nova administração. Pouco antes, em 14 de dezembro de 2010, um oficial que mais tarde ocuparia o Comando-Geral da Corporação procurou-me para transmitir uma informação objetiva: eu seria submetido a um Conselho de Justificação. À época, compreendi a notícia como decorrência de divergências conceituais acumuladas ao longo de uma trajetória profissional marcada por posicionamentos independentes e disruptivos.

Na manhã daquele mesmo 2 de fevereiro, recebi a ligação do então decano da PMES. Após perguntar se eu havia lido o Diário Oficial, informou-me que o ato de submissão ao Conselho fora publicado e manifestou sua solidariedade diante da situação.

A notícia produziu profundo impacto. Tratava-se de um episódio que alcançava uma trajetória construída ao longo de décadas de dedicação ao serviço público, pautada pela disciplina, pela observância dos deveres funcionais e pelo compromisso institucional. O fato repercutiu entre companheiros de farda, lideranças comunitárias, políticos e pessoas que acompanhavam aquela trajetória profissional evolutiva, inspirada em um ideário democrático, inovador e participativo.

Entretanto, o desfecho revelou-se singular. Passados dois anos, o ato administrativo prescreveu sem que houvesse sequer a constituição do Conselho, a designação de seus membros ou a realização de qualquer reunião. Posteriormente, em 2017, durante um encontro casual em Vitória, um oficial da Corporação relatou que haviam ocorrido tentativas de formação do colegiado, mas que estas não prosperaram, pois não contavam com a concordância do governador à época.

Assim, o Conselho de Justificação anunciado jamais chegou a existir de fato. A vida, contudo, seguiu seu curso. Novos desafios foram enfrentados, novas oportunidades surgiram, e um ciclo fecundo se abriu no Nordeste brasileiro, com a implantação do Método Interativo de Segurança Cidadã em diversos municípios.

Ao revisitar esse episódio, permanece a convicção de que o tempo é um julgador sereno dos acontecimentos e de que a honra, quando edificada sobre princípios, resiste às circunstâncias. A história, muitas vezes, encontra por si mesma o seu desfecho mais justo.

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