Caso Banco Master: governança, fraude e confiança institucional
Crise envolvendo Banco Master expõe choque de confiança no sistema financeiro e testa governança, supervisão e integridade institucional
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O caso Banco Master e seus desdobramentos, com decisões regulatórias atingindo estruturas associadas como REAG e Will Bank e com efeitos potenciais envolvendo o BRB, deve ser lido como um choque de confiança que opera em várias frentes ao mesmo tempo. Não se trata apenas de uma instituição que falhou, mas de relações e práticas sob investigação que colocaram em dúvida informações, controles e decisões que sustentam a intermediação financeira.
A primeira frente é financeira. Quando surgem dúvidas sobre solvência, liquidez e, sobretudo, sobre a qualidade e a mensuração de ativos e operações, o impacto recai imediatamente sobre credores e investidores e pressiona os mecanismos de proteção desenhados para preservar estabilidade. Nesses momentos, o mercado reavalia risco, encurta prazos, endurece critérios de crédito e exige remuneração maior.
A segunda frente é de governança privada. Fragilidades de controles internos, auditoria e gestão de risco, combinadas com modelos de originação e distribuição, podem ter permitido que risco elevado fosse apresentado como adequado a perfis mais conservadores. O efeito econômico é ampliar a assimetria de informação, elevar perdas e litígios, aumentar custos de compliance e corroer a confiança na esteira que transforma risco em produto investível.
A terceira frente é institucional e, por isso, mais sensível. Ao tocar banco público, recursos previdenciários e o canal do consignado ligado ao INSS, o episódio deixa de ser apenas um evento corporativo e passa a testar a qualidade do Estado. O debate migra para a integridade dos processos decisórios, a fiscalização efetiva, a capacidade de supervisão e a responsabilização em tempo razoável. Além disso, reportagens têm destacado a capilaridade política de lideranças associadas ao caso e sua interlocução em ambientes dos três Poderes, o que amplia o questionamento ético sobre o uso de influência para benefício privado em detrimento do bem-estar coletivo. Quando a fronteira entre acesso político e captura institucional fica nebulosa, a teoria de agência no setor público se materializa.
Há ainda um efeito sistêmico via recomposição do FGC. A garantia de depósitos reduz o risco de corridas bancárias, mas é financiada pelo próprio setor. Grandes desembolsos exigem recomposição e, mesmo sem tarifa explícita, tendem a entrar na formação de spreads, condições de crédito e remuneração de produtos. O custo aparece como um imposto invisível associado à perda de confiança.
A resposta adequada tem três pilares. Apuração integral e tecnicamente rigorosa, com rastreabilidade de fluxos e decisões e responsabilização proporcional. Correção de arquitetura, elevando padrões de supervisão, diligência e transparência na cadeia de originação e distribuição. E a reafirmação de que ética não é slogan, mas infraestrutura econômica. Sem integridade, o crédito encarece, o Estado perde eficiência e a sociedade fica mais vulnerável.
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