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Passagens bíblicas e a luta pela inclusão social

| 02/02/2020, 05:00 05:00 h | Atualizado em 02/02/2020, 16:29

Imagem ilustrativa da imagem Passagens bíblicas e a luta pela inclusão social
Depois do sistema tribal da época dos juízes, constituiu-se o sistema monárquico sob a unção sacerdotal, que fazia o rei ser servo de Deus. No entanto, o processo histórico é eivado de ambiguidades.

Os reis Saul, Davi e Salomão banem e matam seus rivais, perdendo a legitimidade dada por Deus.

O não cumprimento das promessas dos reis de reforma agrária e perdão das dívidas pela Lei do Jubileu, gerou violência, riquezas e vassalagem pela monarquia e fez surgir Jeremias e Habacuque. Ambos eram contemporâneos entre si e denunciavam essa iniquidade e deslegitimação da monarquia.

Nesse contexto de denúncia, Nabucodonosor II, no ano de 598 a.C., conquista e saqueia o Templo de Jerusalém, e efetiva a grande deportação da elite dos hebreus para a Babilônia.

O Edito de Ciro II, rei persa que conquistou a Babilônia em 538 a.C., permite, dois anos depois, o regresso dos exilados para reconstruir o Templo de Jerusalém; no entanto, muitos continuam na Babilônia por se sentirem bem vivendo lá.

Por isso, após Ciro II, Artaxerxes I (465-424 a.C.), que ocupa a Babilônia e muda a capital de Persépolis para lá, publicou um decreto para que os judeus retornassem a Jerusalém.

O escriba Esdras foi indicado pelo rei para a reconstrução de Jerusalém. Esdras, no ano de 450 a.C., retoma tradições orais, mitos mesopotâmicos, como o da Epopeia de Gilgamesh, escritos sumérios e vários manuscritos para redigir narrativa que estimulasse o retorno dos judeus para o lugar de origem de seus ancestrais.

Nessa busca de fidelidade a uma tradição, Esdras denuncia a transgressão do povo aos desígnios de Deus por se casarem com mulheres estrangeiras – transgressão que gerara também a incitação de Sara pela expulsão de Agar e de seu filho Ismael por Abraão.

Vemos nessa expulsão o risco de isolamento étnico na busca de uma pureza ritual como fidelidade à tradição, contudo, a exclusão de “impuros” não acontece sem resistência e oposição, isso se constata em Esdras 10, 15, cujo versículo registra o nome de quatro pessoas contrárias a tal expulsão.

Essa ambiguidade por justiça se apresenta no Apocalipse. A palavra “apocalipse” significa a revelação do sentido num contexto de perseguição aos cristãos, em que apenas esses seriam capazes de compreenderem suas imagens e palavras cifradas, ao inverso dos agentes do Império romano.

Nesse livro, dois modelos eclesiais são apresentados: as igrejas de Filadélfia e Laodiceia. A perseverança da comunidade de Filadélfia diante de seus desafios tornou a vida de seus membros um fiel testemunho da Boa Nova, em contraposição aos poderosos e satisfeitos em sua riqueza, os laodiceianos, que foram denunciados como “infelizes, pobres, cegos, nus e miseráveis”.

Nessa mesma dinâmica de ambiguidade, temos os capítulos 18 e 21 do Apocalipse. O capítulo 18 evoca a destruição de Roma, sede do Império e intitulada como a “Babilônia”, de forte memória para os judeus, destruição que atinge especialmente seus reis, mercadores e navegantes.

O capítulo 21 mostra o oposto: a inclusão e a fartura da Jerusalém celeste e messiânica como “um novo céu e uma nova terra”. No entanto, esse “novo”, desde o profeta Esdras, não é algo distante, mas algo que se faz presente na luta por inclusão social.

MARCELO BARREIRA é professor do Departamento de Filosofia da Ufes.

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