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Redação A Tribuna

Esperança em tempos de desesperança é fundamental

| 12/06/2020, 08:14 08:14 h | Atualizado em 12/06/2020, 08:19

A esperança apresenta uma dimensão pessoal e coletiva que se desdobra no plano do possível e do impossível. O possível é o futuro previsível e planejável; na expectativa de confirmação de algo em nossa vida ou sociedade.

O otimismo ou pessimismo de nossa esperança ordinária se alicerça nessa confiança pelo sucesso ou não do resultado de nossas ações. No entanto, a surpresa do acontecimento inesperado subverte nosso ritmo diário de vida e nossa expectativa, a exemplo da pandemia atual da Covid-19.

O deslocamento trazido pelo caráter disruptivo de um tempo que advém de modo não linear e cronológico. Afinal: o novo surge sem permissão.

Seria possível prepararmo-nos para a emergência inesperada do novo? Seria essa preparação, por sua vez, um âmbito do possível em vista do “impossível” acontecimento como se nos preparássemos para um futuro terremoto a fim de que ele não nos traga muitos danos?

Vidas e sociedades não são como prédios preparados para um terremoto e nem como a pandemia, que veio como algo espantoso e trágico. Embora não saibamos quando a vacina virá, cedo ou tarde seremos vacinados. O que dizer, porém, diante de um acontecimento como a morte inesperada de um jovem saudável ou como outra catástrofe qualquer, como o surgimento do neofascismo entre nós? O que fazer diante de um impossível que se torna possível e se efetiva em uma vida pessoal ou em nossa sociedade?

O absurdo impossível, que se torna possível, interrompe a ordem do possível, como nossa democracia, alterando completamente nossas vidas e nossa visão histórica de sociedade. É preciso que tal impossível, destruidor de um mundo, geste uma esperança a partir da própria frustração de uma expectativa, como era nossa então “esperança” de maior democracia, inclusão social e diversidade cultural. A questão que se coloca, sem subterfúgios e escapismos, é sobre a possibilidade de uma nova esperança, uma esperança que surja não como ilusão fantasiosa ou como negação do desespero e da tragicidade absurda ao nosso redor.

A impossível esperança rompe com sensatez possível e favorece a irrupção do acontecimento. O acontecimento exige uma atitude-limite entre o possível e o impossível, como uma abertura do possível ao impossível ou como o impossível se tornando possível.

Nesse caso, o impossível nos mobiliza como uma paixão avassaladora que nos arrasta revolucionariamente para um caminho ainda não traçado. Há de se afirmar: há caminho a se fazer! Afinal: só há caminho ao se caminhar. Os caminhos arruinados deixam de ser caminhos.

O caminho se revela como caminho no processo do caminhar e não se define por um ponto claro de chegada. Vale agora o próximo passo! Eis nossa condição de caminhantes. Reconheçamos como uma dádiva um caminho aberto pelo absurdo como oportunidade de se inventar caminhos imprevisíveis.

O caminho se faz ao se caminhar e a esperança se transforma em verbo. O “esperançar” surge do risco abissal do desamparo, cujo vazio e o nada são paradoxalmente bem concretos (na falta de pão, saúde, educação, trabalho e moradia). Diante de ameaças de ruínas e na ausência de etapas calculáveis e previsíveis, ainda assim caminhantes caminharemos contra a tirania; por isso, não ficaremos imóveis e caminharemos, sempre seguindo as recomendações da OMS.

MARCELO BARREIRA é professor de Filosofia da Ufes.
 

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