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Redação A Tribuna

Coronavírus se espalha na velocidade de trem-bala e avião

| 09/02/2020, 09:46 09:46 h | Atualizado em 09/02/2020, 09:48

Nenhuma pandemia espalhou tanto terror quanto a peste negra, doença transmitida a humanos por pulgas de ratos portadores da bactéria Yersinia pestis, que matou mais de 20% da população mundial, entre 1346 e 1355, e se espalhou da China à Europa, da África ao Oriente Médio.

Nem mesmo a gripe espanhola – que ocorreu após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e dizimou de 50 a 100 milhões de pessoas (3% a 5% da população mundial) – se igualou ao horror produzido pela peste. Hoje, uma pandemia imaginária dessa proporção ceifaria a vida de 1,5 bilhão de pessoas.

Acredita-se que a peste negra surgiu em algum lugar da Ásia Central, possivelmente também na China, e de lá se espalhou nos navios que faziam a rota comercial entre Oriente e Ocidente, a chamada Rota da Seda.

Em outubro de 1347, esses navios aportaram na Sicília e, 3 meses depois, nas cidades de Gênova e Veneza, de onde a doença, não respeitando fronteiras, se disseminou pela Europa.

Epicentro do novo coronavírus (2019-nCoV), a cidade de Wuhan, na província de Hubei, concentra a maioria dos casos confirmados no mundo.

Qual é a conexão de Gênova e Veneza com Wuhan? Todas as três cidades são importantes centros logísticos para o transporte de pessoas e cargas: marítimo no caso das duas cidades italianas no século XIV, e aéreo e ferroviário de alta velocidade na cidade chinesa.

Do contágio ao óbito na peste negra se passavam cerca de 37 dias, dando origem ao termo quarentena, prazo de quarenta dias imposto em portos italianos, para descobrir se alguém a bordo dos navios tinha a doença.

A incubação do coronavírus demora de 2 a 14 dias, podendo ser transmitido antes que sintomas apareçam. Enquanto a peste avançava cerca de 0,5 a 4 quilômetros por dia, uma pessoa infectada pelo 2019-nCoV pode cruzar o mundo em questão de 24-48 horas.

As características do 2019-nCoV, associadas ao fato de Wuhan ser um importante local para o transporte aéreo e ferroviário de alta velocidade na China, podem explicar a alta transmissibilidade e a ampla disseminação observada.

No século XIV, os patógenos viajavam de caravela. Nos dias de hoje vão de trem-bala e avião.

Apesar da taxa da transmissão elevada, a letalidade do 2019-nCoV (2,2%) é muito menor que a de outras doenças provocadas por coronavírus, como por exemplo a SARS (9,6%) e a MERS (30%) e da própria peste negra que varia de 30-60%, caso o paciente não seja tratado.

Onde a semelhança entre a peste e o coronavírus termina? Apesar de não existir, até o momento, vacina ou medicamento específico para prevenir/tratar o 2019-nCoV, dados preliminares sugerem a possibilidade de uma droga ant-HIV ser usada como antiviral contra o 2019-nCoV, e que uma vacina esteja disponível em até 12 meses. Porém, será necessário comprovar suas eficácias antes do uso em larga escala.

Hoje sabemos que a identificação do patógeno, o diagnóstico eficaz de pacientes, rastreio de seus contatos e o isolamento de pessoas expostas poderão interromper o surto do 2019-nCoV, como ocorreu com sucesso na epidemia de SARS em 2003.

Rodrigo Ribeiro Rodrigues é biólogo, PhD em Imunologia pela Vanderbilt University (EUA)
 

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