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Redação A Tribuna

Comportamento arriscado com chegada da vacina contra Covid

| 25/03/2021, 11:15 11:15 h | Atualizado em 25/03/2021, 11:16

O filósofo e teólogo Soren Kierkegaard define o desespero humano como a condição em que o homem é o que não quer ser ou não é o que quer ser. A vivência na sociedade moderna, plena de exclusões e promessas irreais, é uma fábrica de desespero.

A pandemia de covid-19 frustrou expectativas de realização pessoal, prejudicou relações humanas, destruiu empregos, enfim, levou milhões de pessoas ao desespero. Assim como quem corre com o automóvel se coloca inconsequentemente em risco, pouco se importando com a própria segurança ou a de outrem, também os milhões de pessoas que se expõem desnecessariamente em aglomerações se arriscam supondo que tudo ficará bem.

A ânsia por recobrar a liberdade perdida faz com que se arrisquem em conduta desesperada para se afastar do confinamento e do isolamento social, situação que as submete ao que não querem ser: pessoas isoladas, presas e sem contatos humanos. Isso as leva à perda do constrangimento em se manter em isolamento, o que resulta em explosão nos casos da doença país afora, em certos dias com quase duas mil mortes.

O comportamento francamente suicida de multidões parece ter se tornado ainda mais ostensivo com o início da vacinação. Aceitaram a ideia de que a cavalaria chegou, em vez do fato de que ela apenas está aparecendo no horizonte.

Os fatos, imagens e narrativas de mortes em agonia, hospitais lotados e falta de assistência à saúde não intimidaram. Milhões de pessoas continuam se nutrindo da percepção de que é uma gripezinha, estimuladas francamente pelo próprio Presidente da República em suas diversas aparições sem máscara e em contato próximo com apoiadores.

A União deveria ser a primeira a se empenhar na busca por vacinas e prevenção. Em sua falta, os Estados tentam desesperadamente negociar vacinas com laboratórios.

No Espírito Santo, o governo mantém tratativas com vários fabricantes, mas ainda está longe de conseguir comprar doses suficientes. Órgãos públicos, como o Tribunal de Contas do Estado, cooperam na fiscalização dos processos de vacinação, mas isso não supre o problema fundamental da falta de vacinas.

Antes que haja doses para todos, e tudo indica que isso ainda vai demorar, a única solução é insistir no isolamento social e na higiene pessoal. A multidão desesperada, sem possibilidades imediatas, e frustrada em sua pretensão de voltar à liberdade e à vida normal, resolveu optar pela alternativa leviana de contar com a sorte e admitir o risco de ficar doente ou morrer.

Para muitos, viver ou morrer já não importa. O desespero de sua condição humana mortificada resultou em um apego inconsequente a fragmentos de liberdade que terão o custo de muitas vidas.
Pela primeira vez desde os anos 1940, a expectativa de vida do povo vai diminuir. A pulsão de morte dominou as consciências e não haverá solução ainda por muitos meses, talvez mais de ano.

SERGIO LIEVORE é auditor de controle externo do Tribunal de Contas do Estado.
 

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