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A síndrome da Frozen

15/09/2021 10:39:55 min. de leitura

Certa feita, em uma sessão inicial de terapia de uma paciente, ao indagar sobre quais eram as razões que a levavam até ali, esta foi assertiva – “Eu tenho a síndrome da Frozen”. Apesar de os meus mais de quinze anos de estudo na área da saúde mental, eu nunca tinha sequer ouvido falar ou lido qualquer artigo sobre tal “síndrome”. Eu havia assistido ao famoso filme da Disney sobre a “aventura congelante” da princesa Elsa e até então esta era a única analogia estabelecida.

Minutos depois, aprofundando-me na problemática trazida para a terapia, eu logo entendi sobre o que se tratava. É uma questão relativamente normal e que acomete muitos indivíduos.

A paciente relatou que recebeu dos amigos a alcunha de “Frozen” por ser considerada muito fria em seus relacionamentos, não demonstrar sentimentos aparentes e não se deixar envolver completamente, e que antes não via qualquer problema, pois a sua frieza “protegia-a” de certas “armadilhas do amor”, no entanto, algo repentinamente mudara e talvez a sua “síndrome”, conjeturou ela, pudesse estar diretamente relacionada com os fracassos de suas relações. Seu insight estava correto.
Jazia ali, em meu consultório, um caso conhecido na psicologia como “contradependência afetiva”.

Muitas pessoas pensam que apenas a dependência emocional é um problema e há até muito material sobre isso, mas muitos também nem mesmo conhecem o seu extremo oposto, o que também pode ser tão problemático quanto à codependência emocional.

Pessoas contradependentes têm medo de intimidade, depender, precisar ou confiar no outro. Geralmente esses indivíduos constroem um “muro de proteção” intransponível em torno de si mesmos, usando uma pseudossegurança como subterfúgio e não se permitem estabelecer uma conexão autêntica em seus relacionamentos. É o medo que rege a vida daqueles que sofrem com a contradependência.

A manutenção da zona de segurança, visando a uma medida protetiva para jamais se machucar cobra seus preços com o passar do tempo, tais como viver relacionamentos superficiais, estar o tempo todo na defensiva, jamais ser realmente conhecido e acolhido, não criar um vínculo real de confiança e tantos outros.

Conforme postulou o psicólogo americano Abraham Maslow: “Podemos escolher recuar em direção à segurança ou avançar em direção ao crescimento. A opção pelo crescimento tem que ser feita repetidas vezes. E o medo tem que ser superado a cada momento.”

Encontrar um meio termo, saindo do âmbito binário dos extremos de ser um completo dependente emocional e ser um contradependente afetivo convicto, sendo um interdependente na relação, seria o ideal, porquanto, haveria o reconhecimento das capacidades e inabilidades mútuas do casal e tal feito criaria condições para um ajuste necessário, de modo que o par trabalhasse de forma sincronizada. Entregar-se ao outro, revelando a vulnerabilidade existente no ser é, sim, assustador e arriscado, porém, amar e ser amado com plenitude e profundidade só se dá dessa forma.

Mara Telma de Oliveira Gomes Martins é psicóloga especialista em Gestão de Pessoas e Terapia Cognitiva Comportamental.