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Redação A Tribuna

A história de um carnaval triunfante no Brasil de 1919

| 28/02/2021, 09:26 09:26 h | Atualizado em 28/02/2021, 09:31

Trazido para o Brasil nos tempos da Colônia, pelos portugueses, o carnaval foi criado em 1252, no reinado de Afonso III, em Portugal. Originariamente chamado do “Entrudo”. E desde então, nunca o brasileiro deixou de celebrar a data mais alegre e colorida do calendário nacional, que sempre acontece na Quaresma, em fevereiro, ou no início de março.

Mas, em 2021 foi diferente, não tivemos o Carnaval devido a pandemia da Covid-19. Infelizmente, tivemos muitos eventos clandestinos País afora, o que agravará ainda mais os casos de infectados.

O Carnaval de 1919, no Rio de Janeiro, é tido até hoje como o maior de todos os tempos. A gripe espanhola que veio com o fim da Primeira Grande Guerra, é considerada uma das pandemias mais letais já enfrentadas pela humanidade, matando mais de 5% da população do planeta.

No Brasil, estima-se que tenha matado cerca de 35 mil pessoas e espalhando o caos e o medo nas principais capitais do País, e foi embora em novembro, expurgando a tristeza do difícil ano de 1918.
A festa de carnaval de 1919 foi uma das maiores felicidades coletivas já registradas na história do Brasil.

Conforme narra Nelson Rodrigues em uma de suas memórias de criança no Rio de Janeiro: “Morria-se em massa. E foi de repente. De um dia para o outro, todo mundo começou a morrer. Os primeiros ainda foram chorados, velados e floridos. Mas quando a cidade sentiu que era mesmo a peste, ninguém chorou mais, nem velou, nem floriu.

Em 1918, a morte vagava pelas ruas e pelas casas, onde os mortos se amontoavam e nem havia uma infraestrutura mortuária para dar conta dos enterros. Diante disso, escolas, comércio, cinemas e bares foram fechados. Todos os eventos foram cancelados e a vida social das pessoas foi suspensa”.

“A espanhola trouxera no ventre costumes jamais sonhados. E, então, o sujeito passou a fazer coisas, a pensar coisas, a sentir coisas inéditas, demoníacas. O que quero dizer, ainda, sobre o Carnaval da espanhola é que foi de um erotismo absurdo, com mais de 2000 queixas, na delegacia do Catete, centro do Rio de Janeiro, de virgens “defloradas”.

Daí, a sua horrenda tristeza. Disse, não sei quem, que o desejo é triste. E nunca se desejou tanto como naqueles quatro dias. A tristeza escorria, a tristeza pingava, a alegria era hedionda”, escreveu. Felizmente, em novembro de 1918, as mortes reduziram e, em janeiro, embora ainda ocorressem alguns casos esporádicos, a vida foi retornando à normalidade.

Assim, o Carnaval de 1919 é considerado por muitos cronistas da época como um dos carnavais mais transgressores e animados da história do País. Além de comemorar o fim da Primeira Guerra, os foliões usaram esse carnaval como uma forma de celebrar a vida e deixar para trás os longos dias nos quais se viram lutando contra a morte.

“A Peste foi embora e o Carnaval de 1919 foi triunfante. A vingança da Vida contra a Morte, da Saúde contra a Gripe. A esbórnia foi total, e o Brasil voltou a sorrir”.


Manoel Goes Neto é escritor

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