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Tribuna Livre

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Colunista

Leitores do Jornal A Tribuna

A diplomacia brasileira e a crise na Palestina

Artigo de José Vicente de Sá Pimentel

José Vicente de Sá Pimentel | 04/03/2024, 17:51 17:51 h | Atualizado em 04/03/2024, 17:51

Imagem ilustrativa da imagem A diplomacia brasileira e a crise na Palestina
|  Foto: Divulgação

Durante conferência de imprensa, no dia 18 último, em Adis Abeba, o presidente Lula comparou o primeiro-ministro Netanyahu a Hitler. O governo israelense respondeu rápido e grosso, declarando Lula persona non grata (o que é inusitado entre países amigos, do porte de Brasil e Israel); exigindo retratação (uma arrogância que elimina a hipótese de um pedido de desculpas) e impondo constrangimento público ao nosso embaixador em Telavive (uma descortesia inusitada).

A repercussão no Brasil foi majoritariamente contrária a Lula. Caricaturistas retrataram o presidente metendo os pés pelas mãos. Teve quem dissesse que o Brasil não tem estatura para se meter nos assuntos do Oriente Médio. Analistas avaliaram que Netanyahu insuflaria seus apoiadores contra o Brasil, taxado de inimigo externo. Outros afirmaram que o Itamaraty passaria a ter dificuldades de diálogo com os Estados Unidos e a União Europeia. Previu-se, sobretudo, que a referência ao holocausto ofenderia a sensibilidade do povo judeu para com a tragédia nazista.

Presumo que nem todos os leitores tomaram conhecimento do que disse Lula. Por isso, vale transcrever aqui o exato teor de suas palavras: “O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu quando Hitler resolveu matar os judeus”. Vejo aí uma condenação muito firme das ações armadas que já mataram 30 mil palestinos, dos quais 10 mil crianças, e feriram outros 70 mil. Não percebo, porém, a intenção de banalizar o sofrimento causado a 6 milhões de judeus no holocausto. Sabemos, no entanto, que os sentimentos transcendem a lógica.

Passaram-se os dias e a previsão de contrariedade de lideranças judaicas de fato se confirmou. As demais profecias alarmantes, contudo, não se concretizaram. A imprensa internacional foi mais amena do que a interna, reconhecendo que Lula tem autoridade para se manifestar sobre os acontecimentos, dada inclusive a importância que tem no Brasil a comunidade sírio-libanesa, assim como a judaica. Em Israel, as últimas pesquisas de opinião pública demonstram que a popularidade do governo está em níveis baixíssimos, a probabilidade de uma reeleição é remota e a possibilidade de Netanyahu vir a ser preso por crimes de guerra é discutida abertamente. O tempo dirá, e o tempo tornou-se a variável crítica do conflito na Palestina.

Do lado brasileiro, o prestígio de nossa diplomacia segue inalterado. Os chanceleres do G20 se reuniram-se semana passada no Rio, como previsto, e na oportunidade o representante norte-americano, Anthony Blinken, qualificou de “ótimo” seu encontro com Lula. Em paralelo, notícias recém chegadas de Washington dão conta de que Joe Biden estaria trabalhando uma nova proposta de imediato cessar-fogo na Palestina.

Mas a contrariedade da comunidade judaica continua. Do ponto de vista político, teria sido melhor não mexer nesse vespeiro. Da ótica diplomática, porém, é natural e necessário que o Brasil participe dos esforços para ajudar os palestinos encurralados em Rafah, que vivem neste momento um drama desumano. Se o Egito não abrir a fronteira, e se Netanyahu der a ordem de atacar, a carnificina será inimaginável. Não se pode culpar o Egito por não receber de supetão cerca de um milhão de flagelados, expulsos do território que a ONU reservou para eles no mesmo ato em que cedeu a Israel as terras contíguas. Urge, portanto, conter a matança e, a despeito da carga emocional que freia a racionalidade, viabilizar uma fórmula diplomática para evitar uma calamidade que doeria fundo na consciência de toda a humanidade.

José Vicente de Sá Pimentel, nascido em Vitória, é embaixador aposentado

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