Fazer de um limão uma limonada
Análise relaciona a medida no governo Trump à geopolítica nas Américas, ao cenário eleitoral e à cooperação bilateral contra o crime
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No governo Trump, não se pode reclamar de falta de assunto. É tanta coisa ao mesmo tempo que é preciso certa distância para não perder o fio da meada.
Em 3 de janeiro, forças militares americanas sequestraram Nicolás Maduro. A operação foi considerada um sucesso e logo Trump lançou um alerta à Colômbia, Cuba e México, que “poderiam ser os próximos”.
O motivo do sequestro nunca foi bem explicado. Primeiro, foi dito que o objetivo seria restaurar a democracia. A permanência no poder de Delcy Rodríguez invalidou a hipótese de mudança do regime. A ideia de combater o narcotráfico tampouco convenceu, uma vez que a Venezuela não é um grande produtor da droga que entra nos EUA. Acabou prevalecendo a justificativa de que nenhuma justificativa precisaria ser dada. O petróleo venezuelano simplesmente passaria a ser explorado por empresas americanas.
Acontece que o refino do petróleo do Orinoco é caro e a ineficiência dos regimes Chávez e Maduro deixou as instalações extrativas degradadas. Calcula-se que a retomada da produção aos níveis de vinte anos atrás exigiria 185 bilhões de dólares em 16 anos. Até agora, nenhuma empresa se animou a fazer um tal investimento, a despeito da promessa de Trump de que eventuais perdas corporativas seriam reembolsadas pelo governo.
Em março, Trump convocou líderes latino-americanos e caribenhos para uma reunião de cúpula de um novo organismo batizado, marqueteiramente, de “escudo das Américas”. Ao encontro, realizado no clube de golfe de Trump em Miami, acorreram pressurosos Milei, Kast, Noboa, Bukele e mais uma penca de dirigentes regionais. Os trabalhos terminaram com a assinatura de documento que ratifica o “corolário Trump” da doutrina Monroe.
Também chamado de “doutrina Donroe” e em conformidade com a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, o corolário coloca a América Latina no centro da geopolítica americana, assim fornecendo uma justificativa tardia para a agressão à Venezuela e antecipando o “direito americano” de intervir em outros países da região.
Em vista desses antecedentes, a classificação do CV e do PCC como organizações terroristas globais tem que ser encarada com seriedade. Em tese, abre caminho para intervenções de órgãos de inteligência americana no Brasil. A possibilidade de envolver agentes da CIA e militares americanos na luta contra o crime organizado traz logo o receio de operações secretas, permeáveis a interesses político-eleitorais.
O timing do anúncio favorece a caracterização da medida como favorável à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. O candidato apressou-se a declarar que “em uma viagem como presidenciável, fizemos mais pelo Brasil e pela segurança dos brasileiros do que Lula e o PT em seus 17 anos de mandatos”. Parece convencido, como se vê, de que a vinculação com o trumpismo lhe dará prestígio e votos. Mas há divergências.
Descarto a eventualidade de uma intervenção militar dos EUA no Brasil; não há como reeditar um “plano Colômbia” em nosso território. Por outro lado, não é impossível que frigoríficos, bancos e fintechs tenham bens bloqueados ou negócios abortados devido à criação de um clima insalubre num mercado que tem ojeriza à incerteza. Prejuízos podem deixar o mundo financeiro incomodado com a associação do candidato oposicionista com os regimes paralelos da FTO e da SDGT. A foto com Marco Rubio foi positiva para Bolsonaro, mas o filme da sua campanha eleitoral pode flopar.
Lula não chancelou o “escudo das Américas” e não perdeu nada. Em 7 de maio corrente, foi recebido na Casa Branca com pompa e circunstância. Isso é sinal de que, por mais imprevisível que seja, Trump tem uma consideração especial para com o Brasil.
Durante a visita, Lula propôs a criação de um grupo de trabalho bilateral para o combate ao crime organizado. Vão ser necessários sangue frio e pragmatismo para manter essa atitude e transformar os regimes do FTO e da SDGT em vetores de uma cooperação respeitosa. É o que mais convém aos interesses brasileiros de combater o PCC e o CV, e preservar a relação com os EUA. O aperfeiçoamento de instâncias para trocar informações, tecnologias, inteligência e treinamento, e estimular mais, e não menos, colaboração entre a Polícia Federal e o Ministério Público com o FBI, a DEA e a OFAC do Tesouro americano farão desse limão uma limonada.
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