Do resíduo nasce energia: o biometano
Energia renovável feita de resíduos oferece previsibilidade, reduz dependência externa e já tem projetos em autorização no Espírito Santo
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Enquanto o mundo acompanha com apreensão as tensões no Estreito de Ormuz e seus reflexos sobre o mercado global de energia, cresce a relevância de alternativas capazes de reduzir a exposição dos países às incertezas externas. O biometano não substituirá integralmente os combustíveis fósseis, mas oferece algo cada vez mais valioso: previsibilidade.
Produzido a partir da decomposição controlada de resíduos orgânicos, dejetos animais e restos agrícolas, o biometano pode alcançar especificações equivalentes às do gás natural e abastecer indústrias, residências e veículos. Em outras palavras, transforma passivos ambientais em ativos econômicos.
Na Europa, resíduos orgânicos deixaram de ser apenas um problema ambiental para se tornar um ativo energético. O resultado é uma rede de mais de 1.600 plantas de biometano que fortalece a segurança energética, movimenta bilhões de reais por ano e impulsiona cadeias produtivas ligadas à economia circular.
O Brasil, porém, continua desperdiçando uma oportunidade singular. Segundo a ABiogás, o país possui potencial teórico de 120 milhões de m³ por dia de biometano, volume capaz de substituir parcela expressiva dos combustíveis fósseis consumidos atualmente. Ainda assim, apenas 21 plantas estão em operação.
O problema não é falta de recursos. Poucos países combinam um agronegócio de escala continental, uma das maiores produções pecuárias do planeta e grandes centros urbanos capazes de fornecer matéria-prima para uma robusta economia do biometano. O que hoje chamamos de resíduo poderia ser tratado como insumo estratégico.
O Espírito Santo retrata bem essa oportunidade. Duas plantas em processo de autorização pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) têm previsão de produzir cerca de 60 mil m³ por dia a partir de resíduos sólidos urbanos, volume suficiente para abastecer aproximadamente 150 mil residências.
Em Santa Maria de Jetibá, maior polo produtor de ovos do Brasil, os resíduos da atividade avícola representam uma oportunidade concreta para geração de energia renovável, produção de biofertilizantes e diversificação da renda dos produtores.
Os avanços institucionais também começam a surgir. A ARSP (Agência de Regulação de Serviços Públicos do Espírito Santo) regulamentou a distribuição de biometano no estado, permitindo sua movimentação pela infraestrutura da ES Gás.
Ao mesmo tempo, o Plano Estadual de Descarbonização reafirma a meta capixaba de reduzir em 27% as emissões de gases de efeito estufa até 2030. A base regulatória está sendo construída. O desafio agora é transformar potencial em investimento.
É nesse ponto que a economia circular deixa de ser apenas um conceito ambiental e passa a ser uma estratégia econômica. Resíduo não é lixo. É recurso fora do lugar. Cada metro cúbico de biometano produzido reduz a dependência do preço internacional da molécula de gás natural, fortalece a competitividade da indústria, gera empregos qualificados e aumenta a arrecadação local. Não por acaso, este tema estará em destaque no Vitória Energy.
Durante décadas, acreditamos que a riqueza estava apenas no que extraímos do solo. A economia do século XXI mostra algo diferente, onde o valor também nasce da capacidade de reaproveitar aquilo que antes era considerado desperdício.
Para isso, será preciso estruturar melhor a cadeia produtiva e ampliar a consciência social de que resíduos também são ativos econômicos e ambientais.
Talvez o maior desperdício brasileiro não esteja nos aterros, nas granjas ou nas lavouras. Talvez esteja na incapacidade de enxergar que o resíduo de hoje pode ser a energia estratégica de amanhã”.
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