Amizades de baixa manutenção
No Dia da Amizade, autora celebra vínculos que resistem ao tempo, sem cobranças e com presença real quando a vida chama
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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Eu adoro amizades de baixa manutenção. E antes que alguém entenda isso como descaso, ausência ou falta de cuidado, preciso explicar do que estou falando. Amizades de baixa manutenção são aquelas que não exigem confirmações diárias de afeto. Não dependem de mensagens constantes, encontros semanais ou da necessidade de lembrar ao outro, o tempo todo, que você existe. Elas simplesmente permanecem.
Tenho muito orgulho das minhas amizades. Algumas já atravessaram mais de vinte anos da minha vida. Outras completam três décadas. Há amizades de cinco, seis anos e há aquelas que já se confundem com a minha própria história.
Entre elas está uma amiga que mora em Rio das Ostras. Nos conhecemos na faculdade, quando dividimos uma república. Hoje nos vemos presencialmente apenas uma vez por ano, durante o Festival de Jazz de Rio das Ostras.
E é curioso perceber que, quando nos encontramos, não existe distância, não existe ausência, não existe a sensação de que precisamos recuperar o tempo perdido. É como se tivéssemos nos despedido na semana anterior. Te Amo Quel.
O psicanalista Donald Winnicott falava sobre a importância da continuidade das experiências afetivas. Quando um vínculo é sólido, a presença do outro permanece internamente mesmo nos períodos de afastamento.
Por isso fico observando, com certa preocupação, as relações das novas gerações. Nunca tivemos tantos recursos para nos conectar e, ao mesmo tempo, tantas dificuldades para sustentar vínculos duradouros.
O sociólogo Zygmunt Bauman descreveu esse fenômeno ao falar da liquidez das relações contemporâneas. Tudo parece mais rápido, mais descartável e mais substituível.
As conexões acontecem com facilidade, mas a permanência parece exigir um esforço cada vez maior. Por isso eu valorizo tanto as amizades que resistem ao tempo! Afinal, foram os amigos que estiveram presentes nos momentos mais difíceis da minha vida.
Foram eles que seguraram minha mão quando eu não conseguia caminhar sozinha. Foram eles que disseram “não” quando eu precisava ouvir um limite (né Tata?) e “sim” quando eu precisava de coragem. Foram eles que respeitaram meus silêncios.
Quando me recolho para dentro da minha “ostra”, eles aguardam. E quando percebem que chegou a hora, aparecem para me buscar de volta para a vida.
São essas pessoas que atendem ao primeiro grito de socorro. Que acolhem meus filhos, meu marido, meus pais. Que transformam amizade em presença concreta quando tudo parece difícil.
E tem aquelas amizades que nascem de onde viemos: na família.
Meus primos e primas são assim. Tenho três doidinhas que me mostram que somos mais que primas. Ali, ninguém solta a mão de ninguém!
E quando pesadelo chega a noite a mensagem vai “Sonhei com você. Por favor se cuida, te amo” e a mensagem volta “Pode deixar, também te amo”.
Acredito que o segredo não esteja na quantidade de tempo que dedicamos aos nossos amigos, mas na solidez da base que construímos com eles. Porque algumas relações não precisam de manutenção constante. Elas seguem firmes justamente porque foram erguidas sobre afeto, confiança e pertencimento.
E por isso, neste Dia da Amizade, celebro aqueles que caminham comigo há anos. Perto ou longe. Em silêncio ou em conversa. Presentes não pela frequência, mas pela certeza de que, quando a vida chamar, estaremos lá.
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